UNITED ZOMBIES - Parte três - A reunião dos mortos-vivos.
"fiquem mais espertos". _George A. Romero.
Penitenciária estadual do Nebraska. 01h27min da madrugada.
Celas escuras e frias. O macacão laranja dos presos era a única coisa que se destacava no escuro. Um macacão laranja em cada cela. Não há superlotação neste setor, cada detento tem direito a uma cela exclusiva. Eles não têm curso superior ou privilégios políticos, se possuem a regalia da sala particular, é por serem as pessoas mais hediondas da terra. Todo detento que foi condenado ao corredor da morte, tem uma destas celas, mas nenhum usa por muito tempo.
_Sabe quem é aquele cara?
_Quem? O negão marombado?
_É... Sabe quem ele é?
_Não. Nem quero saber.
_Ele é Charlie Buckstrong. O estrangulador da rua onze.
Os dois detentos sussurravam para não serem ouvidos pelo tal estrangulador. Um homem monstruosamente musculoso, pele escura e um rosto apático.
_Charlie quem?
_O estrangulador da rua onze! Ele matou dezoito vizinhos na rua dele.
_E daí? Eu matei vinte e sete.
_Como os matou?
_Com minha arma...
_Por que acham que o chamam de “O estrangulador”? Ele esganou todas as vítimas. Matou todos com as mãos nuas.
_Enforcando?
_Enforcando.
Passos no corredor, todo o necessário para silenciar todos da última milha. Um grupo de policiais com o diretor vinha em ritmo acelerado. O diretor da penitenciária era um homem cheio de pose, bigode preto e volumoso, charuto na boca e olhar maldoso. Ele foi até a cela do estrangulador e parou bem diante dele. Um guarda abriu a cela e o diretor deu um passo à frente.
_Vamos executá-lo hoje. Você sabe, não?
Não houve resposta. O estrangulador permaneceu em silêncio, cabeça baixa e mãos juntas.
_Você tem direito a uma ultima refeição. Algo especial. O que vai querer comer?
Ele ergueu o olhar para o fundo dos olhos do diretor.
_Cérebro. _respondeu lambendo os beiços.
...
Festa de halloween de Barbara Susanny. Londres, Reino Unido. 19h47min.
Um círculo de curiosos havia se formado em torno da garotinha, crianças fantasiadas das mais cômicas figuras, entre vampiros, fantasmas e lobisomens, entre super-heróis e personagens de filmes. Lá estava ela, uma bonequinha de porcelana.
A garotinha adorava fazer aquilo, ficava imóvel, nem mesmo respirava, desta forma ficava idêntica a uma boneca de verdade. Maquiagem pesada e um vestidinho branco representavam a linda figura de porcelana no tamanho de uma criança de oito anos.
_Não é a coisa mais fofa que vocês todos já viram? Não parece uma bonequinha de verdade? _Dizia orgulhosa a mãe da mocinha.
_Meu deus... Ela está bem? _Comentou a mãe de outra criança.
_Sim! Ela adora fazer isso... Reparem que ela nem pisca! Nem mesmo respira!
_Chega a dar um pouco de medo, né?
_Oras, é dia das bruxas! Todos temos que levar pelo menos um susto esta noite!
A iluminação condizia ao feriado de Halloween, fraca e tênue. No momento a maioria das luzes estava apagada, apenas o lustre que ficava sobre o centro do salão de festas estava aceso. Só a pequena menina estava realmente iluminada enquanto os demais ficavam imersos em escuridão quase total.
_Tudo bem querida, já pode parar, foi um truque maravilhoso! _Exclamou a mãe.
A menina não lhe deu ouvidos, permaneceu estática. Algumas crianças começaram a choramingar, pareciam assustadas com a brincadeira. A mãe preocupada com a situação deixa de lado a gentileza e usa de autoridade.
_Barbara, eu mandei você parar com isso! Pare imediatamente!
A bonequinha permanece imóvel. Comentários e choramingas correm a sala enquanto a mãe sente um calafrio inesperado, ela não contém mais seu tom de voz.
_BARBARA! PARE COM ISSO AGORA MESMO OU SERÁ CASTIGADA!
Barbara Susanny não responde.
A mãe de Barbie avança contra ela e sacode a garotinha pelos ombros com violência.
_Eu já mandei parar com essa droga! Pare agora mesmo ou vou espancá-la na frente de seus amiguinhos sua mal criada!
Todos ficam trepidantes quando a menina continua se fingindo de boneca. Aquele rostinho inexpressivo dentro da mascara feita com maquiagem, os olhinhos que pareciam duas pedrinhas preciosas negras, o cabelo perfeito sobre os ombros. Nenhuma menção de que fosse um ser humano.
_Doce ou susto! _O grito da garotinha foi jovial e alegre, mas fez todos gritarem de pavor.
Logo todos acabaram rindo com a pequena travessura de Barbie. Após o acontecido, Barbie subiu para brincar no quarto com as outras crianças, a mãe dela ficou lá embaixo, lhe Serviram um copo de água com açúcar e ela pareceu recobrar boa parte de sua cor natural.
...
Algum lugar da savana africana. Após dias de gravação de um documentário sobre a vida de uma manada de elefantes africanos.
Eles se esgueiravam como pequenos animais assustados na grama alta. Ao longe, uma manada de elefantes tranqüilos pastava como dóceis animais de fazenda. Um dos elefantes, a maior e mais velha, fixava seu olhar na direção do grupo.
_Acha que a Merrick está nos vendo, Jay? _Ela afastou o cabelo loiro dos olhos para olhar diretamente para o especialista.
_Acho que ela sabe que estamos aqui, mas não exatamente onde. _Jay sussurrou aquelas palavras com orgulho, ele admirava aquele animal.
_Qualé pessoal? É só um elefante... Ela não é tão esperta! _Era difícil para Greg, exclamar sem gritar.
_Você se surpreenderia.
_Jay, você só sabe puxar o saco desses bichos, mesmo longe das câmeras...
_Calado Greg. Já preparou o equipamento?
_Câmera pronta. _Greg Tenson, cameraman.
_Vamos rodar. _Jeena Carson, diretora.
_Quando quiserem. _Jay Savan, Apresentador e biólogo.
_Três, dois, um... Gravando.
Apesar de estarem gravando um mundialmente famoso documentário animal, eles não podiam falar alto naquele momento. Eles seguiam aqueles elefantes por toda parte há dias, e já tinham percebido que a maior era bem agressiva. “Merrick”, a elefanta que liderava aquela manada, estava agora ciente de que alguém espreitava e eles não podiam deixar que ela os encontrasse em nenhuma hipótese.
O show tinha que continuar. A câmera focou o rosto de Jay, difícil focar bem, todos ainda estavam abaixados na grama, bem escondidos.
_Bem vindos ao “Safári de Jay”. Eu sou Jay Savan, biólogo, ambientalista e seu guia nesta emocionante aventura. Há alguns minutos eu e a minha equipe tivemos que nos esconder neste matagal, parece que a líder da manada percebeu nossa presença e está nos procurando, eu diria até que ela pode estar se aproximando de nós, não podemos ver, pois espiar pode revelar nossas posições...
Jay sorria com suas palavras, para ele era realmente uma aventura. Jeena também sorria, ela sabia que aquele programa ainda ia deixá-los ricos. Já Greg morria de medo quando Jay tentava assustar os telespectadores com especulações do tipo “ela pode estar se aproximando”.
_Apesar do perigo eminente, seu guia não pode privá-los destas fantásticas imagens...
_Jay, nem pense nisso... _Jeena usou um tom autoritário.
_Greg, depois corte a voz de Jeena na edição... _Disse Jay com tranqüilidade._ Eu vou sair de meu esconderijo e vou mostrar pra vocês como a nossa estrela “Merrick” está nos vigiando de perto.
_Jay, Não!
As palavras de Jeena foram inúteis, Jay se ergueu do gramado para avistar o elefante e Greg teve que seguir o movimento com a câmera, mas eles tiveram uma surpresa desagradável.
A câmera gravou a tremida imagem de Jay se levantando e se vendo face a face com Merrick. A elefanta de fato, havia se aproximado, estava a apenas um metro de distância do grupo e tinha total visão de todos. Jay sentiu o olhar poderoso do animal o encarando de cima.
_Meu Deus... _Disse Jay com o olhar brilhando. _Você é a coisa mais bonita que já vi na vida... Dá tanto medo ver você de perto garota...
O elefante emitiu um som que parecia um rugido abafado vindo da garganta, ele assumiu um olhar vago e ignorou o grupo de invasores, dando as costas e se afastando lentamente.
_Não somos uma ameaça... Ela não nos considera uma ameaça... Nunca estive tão feliz na vida...
...
Consultório odontológico da Dra. Atsume. Odaiba, Japão. 14h25min.
Três meses antes ela se esqueceu da peça de teatro da filha mais jovem. Dois meses e meio, esqueceu da entrega do prêmio do filho. Anteriormente esquecera-se do aniversário de quinze anos da filha mais velha. Há sete semanas ela se esqueceu de avisar ao marido que conseguiu marcar para ele a operação de catarata que ele tanto almejava. Ele perdeu a consulta e ainda está enxergando muito mal.
Cabelos negros lisos e lustrosos que mal se notavam quando estavam tão bem amarrados. A máscara branca escondendo o rosto e o jaleco branco escondendo o corpo lhe dava certa feição de seriedade. Um estreito olhar oriental fitava o pequeno paciente.
Seis semanas atrás seu marido foi embora e levou os três filhos com ele. Ele deixou um bilhete dizendo que ela não se importava com a família.
Ela segurou delicadamente o aparelho. Parecia ser uma broca de dentista convencional, mas não havia fio algum que ligasse a broca a qualquer outro lugar. Sem fio, muito mais prático. Um grande avanço no ramo da odontologia, tecnologia digna do Japão, mesmo assim, o aparelho emitia um som terrível que apenas por ser ouvido, já fazia o dente doer.
Há duas semanas ela ligou pra família. Falou com o marido, os filhos não queriam falar com ela. Ela pediu desculpas e prometeu melhorar.
A criança choramingou quando a broca começou a perfurar seu dente, apertando forte o estofamento da cadeira macia, porém desconfortável. Amedrontada com a frieza da dentista. A dentista não demonstrava compaixão, nem mesmo piscava, parecia aérea... Pensando longe...
Semana passada a família sofreu um acidente na estrada. Eles estavam voltando pra ela. O marido não estava enxergando bem. Todos morreram.
Um grito horrível. Sangue espirra da boca da criança. A doutora se distraiu, a broca atingiu a gengiva. Os pés da criança sacudindo na cadeira, a broca emitindo seu som infernal, a Dra. Atsume cobrindo o rosto com a mão, sem saber o que fazer.
A Dra. Atsume perde seu emprego. Era tudo que ela tinha.
...
Necrotério do hospital da Santa Cruz. Brasil. 1h55min da madrugada.
Rogério S. Heverton é médico legista, há uma hora ele foi tirado da cama por um telefonema do hospital onde trabalha e requisitado a fazer uma autópsia imediata, ele ficou furioso, mas deixou suas merecidas horas de sono para depois e foi trabalhar. Quando chegou ao necrotério deparou-se com seus dois assistentes, eles estavam tirando fotos do cadáver, um colocava a fita métrica no pé do defunto e o outro registrava os cinqüenta e dois centímetros de uma ponta a outra do pé de tamanho abissal.
_Isso é um pé?_Perguntou o Dr. Heverton com tom sério.
_Da pra acreditar nisso Doutor?! Cinqüenta e dois centímetros de pé!_Disse um dos assistentes animado.
_Por isso mandaram o senhor vir tão rápido Dr. Heverton. Temos uma celebridade aqui, este é Jorge Atanásio, ratificado pelo livro “Guinness World Records” como a pessoa mais alta já medida no planeta!
_Me tiraram da cama por causa de um corpo que podia esperar até amanhã? Ele nem tinha nenhum compromisso, tinha?
_Ora Dr. Heverton, ele é famoso, seu cliente mais importante.
Heverton não deu ouvidos, apenas ficou fitando o pé gigantesco que estava fora do lençol branco que cobria o corpo.
_Você disse que o pé tem cinqüenta e dois centímetros?
_Sim Doutor...
_Jesus... _Exclamou o médico.
_São cinqüenta e dois de pé, trinta e nove centímetros de mão e... Cuidado pra não cair pra trás Doutor... Dois metros e oitenta e seis centímetros de altura!
_Jesus cristo! Como o colocaram na maca?!
_Na verdade Doutor Heverton... _Os dois ajudante se entreolharam um instante. _nós tivemos que usar duas macas. Apenas as posicionamos uma a frente da outra, antes disso, as pernas dele haviam ficado pra fora, as pernas são realmente muito longas...
_Entendi...
O legista caminha do lado dos pés de Atanásio até próximo ao tronco, ele sente como se tivesse que fazer uma jornada de uma ponta a outra do cadáver. Heverton levanta o lençol e olha para seu “paciente”, sua feição é de curiosidade, um contido espanto.
_Ele era corcunda?
_Tinha muitos problemas por conta da altura Dr. Heverton. Disseram que desde os quinze anos de idade ele já começou a ter este problema de coluna. Sabe? Mesmo sem contar a curvatura da coluna ele já detinha o título de homem mais alto do mundo.
_Agora é apenas o cadáver mais longo do mundo e vai ser tratado como tal, apenas mais um cadáver, nenhum respeito a mais... E é claro, não vou tolerar nenhuma falta de respeito também. Dê-me essa câmera.
_Doutor... Eu...
_Agora.
O assistente apenas obedeceu, entregou a câmera e assistiu o legista apagar toda a memória.
_Ele é um homem, não uma aberração num circo de horrores, eu devia denunciar vocês, mas vou apenas devolver essa porcaria sem o arquivo das fotos extremamente impróprias.
O médico devolveu a câmera ao assistente desapontado, em seguida pegou uma prancheta com o prontuário do falecido. Após colocar os óculos e forçar sua visão a focar o papel, ele leu com profunda atenção o conteúdo do documento.
_Ele tinha graves problemas com os pés, por ter pernas muito longas... Havia pouca circulação e isso lhe limitava o tato nessa região...
O médico foi até os pés do gigante e examinou cuidadosamente.
_Não há nenhuma lesão grave, se houvesse ele poderia ter morrido apenas por não perceber um mal deste tipo... Como ele morreu?
_Bom Dr. Heverton, disseram que ele estava na igreja e no meio da missa começou a se queixar de fortes dores no abdômen, em seguida ele teria vomitado uma grande quantidade de sangue. Quando chegou aqui no Santa cruz, já estava morto.
Mais uma vez os olhos do médico correram o prontuário. Entre vários problemas decorrentes da estatura exagerada de Atanásio, parecia claro para o médico que era um problema completamente diferente que o tinha levado a morte.
_Ele tinha Úlcera péptica, essas mutações nas células podem vir a causar o câncer no estômago. Não tem outro jeito, vamos ter que abrir o pobre coitado. Pegue os instrumentos cirúrgicos necessários.
_Sim Doutor.
_Vamos ver que pedra matou nosso Golias pós Davi.
...
Penitenciária estadual do Nebraska. 03h52min da madrugada.
O estrangulador estava na cadeira. Fivelas de couro bem amarradas o impediriam de cair ou se soltar quando as convulsões começassem. Sua cabeça foi raspada e uma esponja molhada posta em sua cabeça. Eletrodos foram colocados em certas partes do corpo, na cabeça lisa e numa parte inferior do tórax. Tudo para ajudar a eletricidade a matá-lo mais rápido, e assim, terminar logo com seu sofrimento.
O padre se aproximou com cautela, parecia temer a proximidade com o estrangulador. Ele fez o sinal da cruz e uma oração curta antes da execução.
_Deus perdoe você por seus pecados meu filho, e que o Senhor seja piedoso para com sua alma._Disse o padre com voz trêmula.
_Idem._Respondeu o estrangulador com voz firme.
A cadeira é ligada e o estrangulador começa a se sacudir fortemente, contido pelas amarras e urrando como um demônio. Ele urina e evacua no macacão laranja enquanto sente as tensões elétricas de mais de 20.000 volts.
A eletricidade é desligada. Um médico verifica os batimentos cardíacos.
_Ainda está vivo._Diz para o pavor de todos.
A cadeira é religada. O show de horrores recomeça. Fumaça escura emana da cabeça gritante. Seu crânio frita nas chamas elétricas da morte. O corpo parece inchar com o esforço de se manter vivo, esforço inútil.
O médico verifica novamente. Ele demora um pouco, mas se vira para o diretor e os guardas fazendo um sinal positivo. Charlie Buckstrong estava morto.
Todos pareceram aliviados, mas o sossego não durou muito.
Um som estranho se ouviu vindo do estrangulador morto, um gemido. O médico jurou que não havia batimentos cardíacos, mas Charlie estava gemendo. O diretor ordenou ligar a chave mais uma vez. Novamente, a carcaça de Buckstrong é eletrocutada. Agora o homem que deveria estar morto grita mais do que antes, ele rosna e vocifera como um animal, até o ponto em que começa a se soltar. Quando a primeira amarra se arrebentou e deixou o grotesco braço do estrangulador livre, os guardas não puderam deixar de fazer orações silenciosas. “Jesus Cristo” eles sussurraram em uníssono.
...
Festa de halloween de Barbara Susanny. Londres, Reino Unido. 20h35min.
Barbie subiu as escadas correndo com passos velozes e alegres, logo ela chegou ao topo de seu destino, onde esperavam três de suas amiguinhas. Uma fantasiada de supergirl outra de pirata e a outra, a bruxa má do oeste, de “O mágico de oz”. A bruxa não gostava muito de Barbie, achava que ela era “uma boboca metida”. Brigas entre as duas eram normais, a bruxinha e a boneca de porcelana não se davam bem.
_Que truque idiota foi aquele de se fingir de boneca! _Provocou a menina mais velha, vestida de bruxinha.
_Não foi idiota nada! Todas vocês ficaram com medo! _Respondeu Barbie.
A duas meninas assistindo riram com a discussão, enquanto Barbie e a mais velha continuaram a discutir.
_Eu não tenho medo de nada! Você é que devia ter medo...
_Medo de quê?
_Barbie, você não sabe? Estão dizendo por aí que sua mãe visita o Sr. Elm durante a noite... Acho que ela vai te abandonar...
_Como assim? Minha mãe nunca sai à noite...
_Ela espera você dormir. Depois ela sai e vai pra casa do senhor Elm.
_Minha mãe nem é amiga do senhor Elm!
_Amiga? Você é retardada? Não entendeu? Sua mãe está transando com ele!
As garotas se assustaram com a ousadia da bruxinha, mas Barbie não ficou assustada, apenas irritada.
_Mentirosa!
_Mentirosa, eu? Mentirosa é aquela vadia da sua mãe que diz que foi pra cama dormir e sai pra dar aquele rabo pra homem na rua!
_Retire o que disse!
_Não. Sua mãe é uma piranha, prostituta e vagabunda, ponto final!
Barbie avança contra a menina mais velha, determinada em agredi-la fatalmente, ela salta como um animal sagaz atrás da presa. É então que o acidente acontece.
A bruxinha é empurrada por Barbie e cai sentada, mas a pequena Bárbara acaba se desequilibrando e cai na escada, ela rola escada a baixo batendo seu pequeno e frágil corpo nos degraus. Os ossos da pequenina se partem como gravetos com os impactos, ela quebra vários pontos do esqueleto antes de terminar sua decida mortal. No fim da queda ela repousa no salão de festas, onde todos os convidados apavorados se perguntavam se era outra brincadeira da menina, mas logo constataram a piro das hipóteses, a pobrezinha estava realmente morta.
...
Algum lugar da savana africana. Dois dias depois da última gravação de “safári de Jay”.
A manada de elefantes caminhou satisfeita para um raso lago formado pelas raras chuvas da savana, e outra chuva parecia estar se aproximando, nuvens escuras cobriam o céu e clarões de relâmpagos distantes podiam ser vistos.
_Olá pessoal, aqui é Jay Savan. Parece que nosso grupo de paquidermes decidiu parar para uma ducha. Já faz dois dias desde que Merrick parece ter aceitado nossa presença nas proximidades da manada e eu estou muito feliz sobre isso...
Greg quase caiu no chão quando aquele urro alto e medonho gritou no lago. Quando conseguiram se recuperar do susto e olhar pra manada, eles testemunharam uma raridade que faria seu documentário mundialmente famoso. Merrick estava lutando ferrenhamente contra outro grande elefante.
_Meu Deus! Filma! FILMA ISSO!
_TÔ FILMANDO PORRA!
Os elefantes engajavam suas presas de marfim e faziam movimentos arrebatadores, como se tentassem erguer ou derrubar o outro. Urros poderosos afastavam a manada e patas gigantescas esparramavam a água pra todos os lados.
_Estão lutando pela liderança do bando! Merrick está defendendo sua liderança da fêmea mais jovem! Meu Deus é magnífico!
No momento crucial da batalha os dois titânicos paquidermes derrubam um ao outro violentamente no lago. Água jorra por toda parte, a desafiante de Merrick chega a rolar violentamente na queda. Terminada a luta, a jovem fêmea se levanta e caminha para dentro da manada. Merrick permanece deitada por algum tempo, faz força com as patas feridas, se esforça e quando finalmente se levanta, se afasta da manada, caminhando sozinha, a manada segue seu rumo e Merrick o dela.
_Na verdade, é incomum que uma fêmea tão velha comande a manada por tanto tempo... Merrick lutou bravamente e não existe vergonha em sua derrota...
Jay parecia prestes a chorar. Apesar de ser absurdo todo grupo ficou triste com o acontecido. Depois de discutir o assunto eles tomaram uma decisão, seguir Merrick e fazer daquele um documentário sobre ela e não sobre a manada. Jay ficou muito feliz com a decisão, mas a felicidade não durou muito, logo Jay percebeu o que estava acontecendo.
Quando um elefante deixa a manada, significa que ele sente que a morte está próxima e parte para morrer sozinho.
...
Residência da Dra. Atsume. Odaiba, Japão. 18h41min.
Katsuo era amigo dela e ela gostava dele. Trabalhou anos no consultório com ela e eles nunca tiveram uma briga. Ele sabia o quanto o trabalho era importante para ela agora que havia perdido o marido e os filhos, e sabia o que poderia acarretar a perda deste emprego.
Fazia quinze minutos que ele espancava a porta e ela não atendia.
A doutora nem tinha tirado o jaleco ainda, havia se sentado no sofá e observava a broca de dentista em sua mão, não entendia porque havia trago a broca para casa. Ouvia Katsuo batendo na porta, mas o ignorava.
Ela se levantou e caminhou em passos pesados para o banheiro, onde ela havia deixado a banheira enchendo de água quente. Desligou a água, segundos antes de ela transbordar e antes que pudesse pensar em se despir, ela se olhou no espelho.
Katsuo arrombou a porta com um golpe de ombro e acabou caindo violentamente no chão. Um grito provou que a dor que ele sentira era a de um ombro deslocado.
A Dra. Atsume ficou parada diante do espelho olhando-se nos olhos. Ela ergueu a broca bem perto do rosto e ligou. Aquele som que causa calafrios nos dentes, começou a atormentar seus ouvidos. Ela parou um instante pra pensar que jamais conseguiria sorrir de novo. A vida já não valia à pena.
Katsuo arrastou o próprio corpo se escorando nas paredes, caminhando o mais rápido que a dor permitia. Ele gritava o nome da amiga, mas a Dra. Atsume não respondia seus chamados.
A broca era extremamente afiada e sua rotação fazia dela perfeita para perfurar dentes, foi fácil rasgar o pulso com ela. Assim que o corte começou a sangrar, ela começou a chorar. Ela não queria morrer, então porque fez aquilo?
Quando Katsuo chegou ao banheiro, o corpo da Dra. Atsume estava caído no chão. A cabeça e os braços na verdade estavam mergulhados na água da banheira de águas vermelhas. No chão a broca gritava aquele som estridente e incômodo aos dentes.
Quando correu para socorrer a amiga, Katsuo se surpreendeu. Ela pareceu morta, mas isto não impediu que ela se levantasse e lhe arrancasse o olho com aquela broca.
Depois de comer o bastante da carne de Katsuo, a Dra. Atsume saiu para comer fora.
...
Necrotério do hospital da Santa Cruz. Brasil. 3h17min da madrugada.
O legista costurou o longo abdômen cuidadosamente, o cadáver do homem mais alto do mundo agora tinha uma abertura no tórax em forma de “T”, mas logo estaria fechado.
Ao abrir o estômago do falecido gigante, o Dr. Rogério Heverton descobriu que a causa da morte era justo o que ele suspeitava, a úlcera péptica havia lhe presenteado com um tumor maligno. Câncer de estômago.
Mais um instante de pontos e ele poderia fechar o buraco no estômago que fizera e o Dr. Heverton mal podia esperar para reparar o esquartejamento que fizera na barriga de Jorge Atanásio. Por algum motivo, o médico estava profundamente incomodado e só queria ir logo pra casa.
_Onde Ricardo foi?
_Foi fazer a esterilização dos materiais que usamos Dr.
_Ótimo, vou terminar de costurar nosso recordista aqui e poderemos ir pra casa dormir o sono dos justos.
_Dr. Heverton...
_O que foi rapaz? Enjoado? Há quanto tempo trabalha com isso?
_Não é isso Dr. Heverton, é que... Eu tive a impressão de...
_O que foi?
_Eu pensei ter visto ele se mover.
_Você sabe que alguns movimentos involuntários são perfeitamente normais, já viu muitas vezes.
_Mas ele lambeu os lábios.
As luzes se apagaram de repente.
Longe dali um defeito na usina de força e luz causou um blackout. O apagão não só escureceu o hospital da Santa cruz, mas como também toda a cidade. Toda a cidade mergulhada em escuridão, justo no único momento em que aquilo faria a diferença entre viver e morrer para o legista e sua equipe.
No necrotério do Santa cruz, um barulho alto assustou o legista e o enfermeiro assistente, o som de materiais de metal caindo e se espalhando pelo chão da sala ao lado.
_Ricardo?! Tudo bem?!
_Sim Dr. Heverton! Eu só derrubei os instrumentos com o susto, mas já recolho.
_Esqueça rapaz! Quando a luz voltar, nós arrumaremos tudo, agora venha pra cá.
Um novo som desviou a atenção do médico e seu assistente, vinha da maca, um ranger, como se alguém estivesse mexendo no cadáver.
_Ouviu isso Doutor?
_Ouvi sim.
_Doutor... O senhor tem certeza que o Atanásio estava morto, não é?
_Não seja ridículo moleque, eu nem terminei de costurá-lo, está com a barriga toda aberta. É mais provável que alguém esteja aproveitando pra roubar o corpo.
_Roubar? Pra quê Doutor?!
_Ele não é o homem mais alto do mundo? É um cadáver valioso nas mãos de criminosos? Podem vender ou sei lá...
A sala tinha certo eco, agora que dependiam mais da audição do que da visão pra orientar-se, ficava mais fácil de notá-lo. O eco enviava ao médico e ao enfermeiro o som da voz de Ricardo, muito abafado, tentando sussurrar alguma coisa na outra sala, mas parecia amordaçado. Logo a voz de Ricardo sumiu.
_Ricardo? _Chamou o Doutor, em vão.
Um novo som estanho ecoou pelo necrotério. Era um ruído execrável e alto. O som que se ouvi quando o corpo humano processa alimentos na digestão e esses alimentos, que logo estarão se transformando em bolo fecal, viajam pelo intestino grosso. Um som gosmento e repugnante. O som se aproximava e a essa medida também se ouviu o som de algo molhado e nojento caindo no chão.
Foi então que eles viram um vulto passar pela janela, a luz do luar permitiu enxergar a silhueta de quem era, era uma pessoa magra e alta, com dois ou três metros de altura.
_Oh meu Deus!_Gritou o enfermeiro que correu imediatamente diante daquela visão aterradora, o rapaz acabou sendo pego pela escuridão, tropeçou em alguma coisa e caiu, batendo fortemente a cabeça na quina de uma mesa.
O médico ficou imóvel, sem saber como reagir. A criatura avançou rapidamente na escuridão, na direção do som que ouvira, a próxima imagem que passou pela luminosidade da janela foi o enfermeiro. O rapaz estava gritando de pavor e sendo erguido pelo calcanhar por uma mão grande e magra, porém, forte o bastante para levantar o homem sem nenhum esforço. Em seguida, o médico ouviu os ossos do enfermeiro quebrarem e sentiu o sangue jorrar em cima dos seus sapatos.
O médico abriu atravessou a porta o mais rápido que conseguiu e aos tropeços foi seguindo pelos corredores do hospital, ele sentia um medo amplo e vil crescendo em si, a ponto de fazê-lo abandonar aquelas pobres pessoas com seja lá o que fosse que estivesse lá.
Em seu intimo o Dr. Heverton sabia de três coisas:
Primeiro. Os enfermeiros estavam mortos.
Segundo. Foi Jorge Atanásio que os matou.
Terceiro. Atanásio ainda estava vindo atrás dele.
Ele sentiu os trinta e nove centímetros da mão agarrarem sua cabeça, dedos magros e fortes se fechando em volta de seu rosto e o puxando de volta para dentro do necrotério. O legista foi lançado para dentro daquela sala profana e fúnebre. Caiu na metade da sala, mas por escorregar numa poça de sangue e cérebro acabou deslizando até a parede do lado oposto ao da porta de saída.
O vulto de dois metros e oitenta e seis centímetros veio dando passos grotescos e repletos de movimentos irregulares e assustadores, uma caminhada dançante e sem nenhum padrão de movimento.
O som repugnante e gosmento voltou a ser ouvido, o doutor pode ver Atanásio mordendo um braço decepado de um dos enfermeiros, ele mastigava a carne com visível apetite e engolia vorazmente sua refeição, o som gosmento vinha do percurso da comida por sua garganta.
Algo asqueroso caiu ao chão e o Doutor Rogério Atanásio percebeu que tudo que o monstro estava comendo, caia em seguida ao chão, passando pela abertura que ele fizera em seu estômago.
_Oh meu Deus... Eu não terminei de dar os pontos...
Não terminou de dar os pontos.
Não terminou de dar os pontos, portanto, se era por fome que o morto-vivo estava devorando as pessoas a sua volta, ele jamais saciaria tal fome e jamais pararia de comer.
...
Penitenciária estadual do Nebraska. 05h33min da madrugada.
O estrangulador se sacudia violentamente há horas e a eletricidade não parecia conseguir detê-lo. Os fusíveis da cadeira elétrica já haviam queimado e aparentemente ninguém conseguia argumentar com Charlie, ele não respondia perguntas ou manifestava consciência. Charlie Buckstrong parecia um animal selvagem acuado, enraivecido com seu cativeiro, era questão de tempo até ele soltar-se. Os guardas estavam apavorados, o diretor meramente inquieto.
_Diretor? O que vamos fazer quando ele se soltar? Já arrebentou uma das amarras, vai sem dúvida sair daí logo...
O diretor sacou a arma e engatilhou.
_Ele foi condenado à morte. Deveria estar morto. Deus é minha testemunha que este homem não é mais humano. Ele sangrou e queimou, cagou e mijou nas calças enquanto sua cabeça pegava fogo. Jesus... Eu posso sentir o cheiro daqui...
_Diretor? O senhor não vai...
O diretor atirou seis vezes. Os disparos assustaram todos a volta, muitos saltaram e se jogaram no chão, mas os disparos atingiram apenas o corpo do estrangulador. Finalmente o monstro se calou. O corpo ficou lá sentado, imóvel para o alivio de todos. Seis pequenos sangramentos tingiam filetes vermelhos no macacão laranja.
_Acabou. _Disse o diretor caminhando até o corpo.
_Deus, o que aconteceu aqui diretor? Como esse homem pode não morrer com tudo aquilo?
_Está morto agora, isso é que importa. Morto.
O estrangulador se levantou rápido e forte. Arrancou as fivelas de couro que o prendiam com um único puxão. Os braços poderosos agarraram o pescoço do diretor com força inigualável. Enquanto os guardas fugiam, o diretor sentiu seu pescoço se partir e o ar faltar em seus pulmões.
A porta foi trancada. Ninguém tinha peso na consciência de ter abandonado o pobre coitado com o estrangulador lá dentro. Todos se armaram e esperaram os sons do assassinato terminar.
Dentro da sala o estrangulador ergueu o corpo de sua vitima acima da cabeça como se nada pesasse. Aproximou do rosto e mordeu o abdômen do diretor, arrancando um grande naco de carne, o ferimento grotesco fez jorrar sangue e deixou escapar as vísceras da presa abatida.
Sons de batidas na porta fizeram os guardas sentirem um calafrio correr a espinha. Eles mantiveram as armas apontadas na direção da ameaça e rezaram para ele não conseguir sair.
_Contanto que ele fique trancado na sala de execução, não haverá problema algum.
A porta foi arrancada para o lado de dentro com uma violência assombrosa. Um rosnado gutural veio de dentro da sala escura e passos fortes e lentos acompanharam a evolução do volume do som medonho.
_Chamem reforços. Agora.
_E que Deus nos ajude...
Todos aqueles guardas, os reforços e alguns detentos foram devorados naquela madrugada.
...
Festa de halloween de Barbara Susanny. Londres, Reino Unido. 21h13min.
A casa estava uma bagunça, a festa havia se transformado num pandemônio quando a pequena Barbie Susanny estragou sua fantasia de boneca de porcelana rolando escada a baixo. O acidente deixou todos em pânico, uma ambulância havia sido chamada, mas já era tarde, Barbara já havia morrido.
O corpo de Barbara estava jogado no chão, do jeito que terminou de descer as escadas letíferas. Um braço embaixo da cabeça, virado para o lado como se não houvesse ossos dentro, o mesmo acontecia com as pernas, ambas viradas pra cima como uma boneca de pano jogada no canto. A fantasia de boneca de porcelana nunca pareceu tão assustadora como agora.
Alguns convidados tentavam acalmar a mãe de Barbie, a mulher estava incontrolável, a beira de uma crise. As crianças fantasiadas choravam enquanto os mais velhos reclamavam e gritavam, amaldiçoando a ambulância que não chegava, mas era tarde demais, Barbie estava morta.
_Deus! Ela moveu a mão!
Gritou o pai de uns dos garotos enquanto apontava pra menina. Todos se mobilizaram, umas dez pessoas ficaram em cima da menina para constatar a veracidade da informação e socorrê-la se estivesse mesmo viva.
_Saiam de cima dela! Deixem-na respirar!_Berrou a mãe para a multidão.
Um rosnar animalesco saiu do meio da multidão em torno da bonequinha. Gritos assustadores e terríveis acompanharam a multidão que se afastava da menina. A mãe de Barbie desmaiou quando viu sua filha com os olhinhos negros abertos e boca cheia de sangue, no chão estava um rapaz vestido de fantasma, seu lençol branco estava encharcado de sangue e ele estava encolhido no chão tremendo e choramingando. Os olhos diabólicos e vagos corriam o salão de festas analisando tudo.
Todos ficaram em silêncio. A menina era como um animal acuado e ninguém queria provocá-la, especialmente quem a viu morder o ombro do menino de fantasma e arrancar um pedaço, mastigar e engolir.
A menina começou a se mover, ela arrastou os braços e pernas como se estivessem dormentes, movimentos impossíveis para quem havia quebrado tantos ossos, de fato os membros faziam movimentos livres de qualquer limitação de articulação. Quando terminou a boneca de porcelana estava apoiada com mãos e pernas no chão, joelhos e cotovelos arqueados fazendo uma posição parecida com a de uma aranha, no entanto, era a barriga que estava posicionada para cima.
Ela pareceu não se importar com a posição, deu uma volta completa, batendo mãos e pés no chão e observando todos. Ninguém disse nada, nem se moveu, estavam paralisados por aquela cena digna de “o exorcista”. A boneca de porcelana terminou sua análise e fitou o alto das escadas, viu as pálidas faces de supergirl, da pirata e da bruxa má do oeste. A cabeça da menina então girou no eixo do pescoço, cento e oitenta graus aterradores, um rosnar de dentes sujos de sangue com os cabelos encobrindo os olhos negros e vibrantes.
A boneca de porcelana, mesmo naquela posição desengonçada, subiu as escadas se arrastando em considerável velocidade. As três meninas no alto da escadaria gritaram em extremo horror.
Quando chegou ao fim da escada a boneca de porcelana saltou como um predador em cima da bruxa má do oeste. Envolveu a vitima com os braços e pernas, como se fosse uma lula. Barbie aplicou então possantes mordidas nas costas da bruxinha, dilacerando sua carne e insistindo na forçosa tentativa de arrancar parte da coluna. A menina vestida de bruxinha no desespero acabou se jogando escada a baixo, mas isso não a livrou da boneca zumbi.
De volta ao salão de festas, a boneca de porcelana largou o corpo morto da bruxinha e lambeu os pequenos dentes enquanto se deliciava com o gosto da carne humana. A noite se seguiu como um pesadelo sem precedentes, algo que deveria apenas existir nos filmes de terror. Todos souberam da chacina daquela festa, mas poucos conhecem a verdade. Os outros convidados da festa foram quase todos devorados, os poucos que fugiram acabaram trancados num manicômio com suas loucas estórias sobre a boneca de porcelana zumbi.
O corpo de Bárbara Susanny nunca foi encontrado.
...
Algum lugar da savana africana. Uma semana após Merrick deixar a manada.
Os três caminharam por entre ossadas de grandes animais, esqueletos gigantescos que só poderiam pertencer mesmo aos maiores animais terrestres da terra. Um cemitério de elefantes.
_Quando um elefante sente que sua hora chegou, ele se afasta da manada e vai para um lugar, não se sabe como escolhem este lugar, mas é aonde eles vão para morrer. A nossa volta vocês podem ver vários esqueletos de elefantes, é realmente um cemitério de elefantes...
Primeiro a câmera saiu de cima de Jay e mostrou os ossos gigantes e em seguida, mostrou Merrick parada entre estes ossos, fazia movimentos muito lentos, parecia estar esfregando sua tromba em um crânio de outro elefante que um dia foi ali para falecer.
_Como vocês podem ver, Merrick está acariciando... O crânio de um elefante que um dia fez esta mesma jornada que ela fez... Isso é muito comum, ela pode estar demonstrando carinho pelos antepassados ou lamentando a perda deles, não se sabe o porquê disso... Talvez seja apenas um cheiro característico que a leva a isso, mas se me perguntarem... É carinho.
Três horas depois, Merrick se deitou e pareceu adormecer. Jay foi até ela e a tocou pela primeira vez. Constatou que a elefanta estava morta. Jay chorou.
Um dos olhos de Merrick se abriu de repente. Ela já estava morta, mas isso não impediu o olho castanho escuro com um ponto branco no meio de se abrir. É claro que Jay e os outros se assustaram quando o imenso animal que já estava morto se levantou lentamente e atacou mortalmente os três.
Era o fim. Então a estória do elefante não teria um final feliz.
A câmera caída no chão gravou o massacre do gigantesco animal, imagens turvas e desfocadas, mas claras o bastante para entender as cenas bizarras.
Greg caído no chão e Merrick se erguendo nas patas traseiras, ficando praticamente de pé. Em seguida, o monstruoso elefante pisa fortemente nas pernas do homem com as patas dianteiras.
Jeena sendo atingida no peito pela presa esquerda da elefanta, após perfurar e trespassar o corpo de Jeena com a presa, Merrick sacudiu o corpo da mulher com tanta força que acabou arrancando algumas partes, mas o tronco, o braço direito e a cabeça continuaram presos no marfim.
Jay foi agarrado pela tromba extremamente forte e erguido durante um urro enfurecido. Erguido e como se fosse um fruto, Merrick levou o corpo dele até a boca, onde ela mastigou e engoliu cada bocado de carne que o coitado tinha. Mordida por mordida a elefanta devorou seu maior admirador e atual único amigo.
Após este assassinato em série, Merrick partiu a procura de sua manada, ela encontrou, mas devorou apenas a jovem fêmea que a havia desafiado, os outros, ela perseguiu e forçou a saltar para a morte num desfiladeiro.
...
Vizinhança da Dra. Atsume. Odaiba, Japão. 19h06min
As roupas e jaleco branco estavam sujos de alguma coisa escura e avermelhada. Ela estava tropeçando a cada passo que dava. Desnorteada, seus pensamentos eram distantes, quase nulos...
Comer. Pobre Katsuo. Comer. Minha família morreu. Eu morri. Comer carne. O senhor Juuchigatsu está vindo em minha direção. Comer carne humana. Senhor Juuchigatsu é feito de carne humana. Comer. Comer. Comer. COMER.
A Dra. Atsume cortou a garganta do senhor Juuchigatsu, seu vizinho. Um corte preciso da broca elétrica do consultório odontológico. O sangue jorrou em dois pequenos jatos do pescoço do pobre homem, ele tentou estancar a ferida com as mãos, mas não teve êxito.
Diante daquele assassinato brutal todas as pessoas entraram em pânico. Amigos de Atsume tentavam argumentar com ela em gritos e ameaças, mas ela não ouvia. Seu olhar era bizarro, branco e sem vida.
Ela puxou Juuchigatsu para si e mordeu com força o pescoço do homem, arrancando um pedaço de carne diante de todos próximos. Dois homens tentaram detê-la, ela rosnou como uma fera selvagem e arremessou seus agressores para longe com fortes empurrões.
Pareceu insatisfeita diante da pequena quantidade de carne que comera e com um puxão ela arrancou parte do próprio rosto, rasgando a carne por cima da mandíbula. Um monstruoso sorriso deformado e sangrento tomou sua face e agora ela conseguiu morder um pedaço três vezes maior de sua vítima.
COMER. COMER. COMER. COMER. COMER. COMER. COMER...
Eles não eram mais seus vizinhos, amigos e parentes... Eram aperitivo, prato principal e sobremesa.
Aquela pequena comunidade foi quase que completamente devastada, não só pela terrível dentista zumbi, mas também por suas vítimas que momentos depois de morrer voltaram da morte compartilhando da fome de seu algoz.
...
Necrotério do hospital da Santa Cruz. Brasil. 3h45min da madrugada.
As luzes se acenderam novamente, não em toda parte, o hospital da Santa cruz tinha um gerador de emergência. Antes não tivesse voltado a ficar claro, agora o doutor Heverton teria que encarar a visão macabra diante de si.
Jorge Atanásio era uma coisa muito magra e alta, tudo nele parecia mais longo e fino do que nas outras pessoas, fossem braços, pernas ou até seus dedos. Ele era um homem aparentemente velho, rosto cadavérico, olhos fundos e escuros. Um queixo largo, mandíbula grande. Entre as pernas, em meio a escuros e volumosos pêlos pubianos, o pênis fino e retorcido meneava de um lado para o outro.
Em seu tórax podiam-se ver os pontos que o Dr. Heverton deu, costuras que acompanhavam as clavículas até se encontrarem no meio do peito e em seguida desciam até a parte inferior do abdômen. Os pontos não estavam terminados, o estômago de Atanásio ainda estava aberto, uma massa de carne humana mastigada e engolida escorria pela abertura que só era mais grotesca pelo grande tumor cancerígeno que expelia uma substância amarelada para fora.
O Dr. Heverton não conseguia parar de pensar naquilo, ele poderia ao menos ter terminado o procedimento e os pontos estariam completos, talvez aquela coisa já tivesse matado a fome se quem ele come não escapasse pela abertura.
Quem ele come. Atanásio estava comendo outras pessoas depois de morto. Insano, assombroso, mas real.
Heverton engatinhou para longe da ameaça, mas encontrou outra, viram os dois assistentes se arrastando pelo chão, eles estavam embebidos em sangue e seus olhos eram esbranquiçados e confusos. Eles rosnaram para o médico e começaram a se arrastar mais depressa, dentes prontos pra morder.
Quando o legista viu que o mal de Atanásio se espalhara por funcionários antes leais, ele não teve dúvidas de que morreria. Três maníacos canibais se aproximando para liquidá-lo. Ele pensou em desistir, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Ao tentar ficar longe o médico acabou chutando um pesado armário de metal, este quase caiu, e foi isso que o legista tratou de fazer, deixá-lo cair. Um empurrão com as duas pernas e pronto, o armário despencou em cima dos dois enfermeiros mortos e causou um som alto de crânios sendo quebrados.
O zumbi mais alto do mundo ainda estava lá.
Atanásio se aproximou do médico com a boca aberta e uma baba avermelhada gotejando da mesma. Os passos desengonçados, porém firmes do gigante morto-vivo estavam levando ele pra perto e o médico sabia o que ele queria, o médico sabia que seria devorado.
_Fique longe de mim!
O legista atirou em Atanásio a primeira coisa que encontrou, era um dos instrumentos metálicos que usara na autópsia. Pequeno e leve, o objeto apenas bateu no corpo do monstro e voltou ao chão.
_Não se aproxime! Estou avisando! Não se aproxime!
A seguir, uma lixeira, também de metal é lançada com toda força contra o morto-vivo. Apesar de atingi-lo com força no rosto, aquele objeto também não ameaçou o interesse que aquilo tinha em sua próxima refeição.
_Por favor! Em nome de Deus, eu estou pedindo! Pare! Fique longe! Fique longe!
O médico se levantou e puxou uma das macas rapidamente, ele a fez correr a sala até se chocar com Atanásio, mas a maca foi esbofeteada para longe. O tempo que a criatura levou para afastar a maca de seu caminho foi o necessário para Rogério Heverton pular pela janela.
O legista caiu do terceiro andar em cima de uma ambulância estacionada. Sua queda estraçalhou as luzes vermelhas tremulantes e quase quebrou sua coluna, a dor paralisou seu corpo e tudo a volta pareceu estar mergulhado em óleo, uma alucinação perfeitamente normal.
Enquanto ouvia Jorge Atanásio emitir um urro demoníaco, o médico perdeu a consciência.
Quando acordou, o Dr. Heverton estava deitado numa maca com amarras de couro contendo todo o seu corpo, não podia mover nada além de seu pescoço e até isso era doloroso. A maca estava no meio da rua, a luz parecia ter voltado aos postes e havia pessoas por toda parte. Uma equipe médica estava em volta de Heverton, mas ninguém lhe dava atenção, estavam compenetrados na situação que ocorria no hospital da Santa Cruz.
Dentro o hospital, podiam-se ouvir estranhos sons. Parecidos com gemidos agonizantes.
_Parece que algumas pessoas enlouqueceram, estão atacando qualquer um, funcionário ou paciente. _Disse uma enfermeira ao lado da maca de Heverton.
_Atacaram? Quantos baderneiros têm lá dentro?_Perguntou o motorista da ambulância.
Rogério Heverton ouvia a conversa atentamente, apesar do som dos gemidos no hospital atrapalharem... Não por serem altos, mas por serem perturbadores.
_Primeiro eu soube que tinha um maluco... Depois disseram que eram sete. Em seguinte já eram boatos de vinte e seis loucos quebrando tudo e machucando as pessoas.
_Parece que aos poucos eles foram reunindo novos seguidores!_Disse o motorista em tom sarcástico.
“Um. Sete. Vinte e seis” pensava o Dr. Rogério.
_Eu morri de medo e saí... Mas ficou muita gente lá dentro do hospital...
_Você ouviu aqueles gritos ainda há pouco?
_Claro que ouvi homem! Foi horrível, parecia que todo mundo lá no Santa cruz estava...
_Morrendo menina, parecia que estavam todos morrendo.
Um. Sete. Vinte e seis.
Havia um barulho muito alto de um homem gritando, era o megafone do delegado rasgando outros sons noturnos e fornecendo mais informações do que ocorria, mas na mente do Dr. Heverton, só uma informação o fazia raciocinar.
Um. Sete. Vinte e seis.
_Nós não vamos repetir! Saiam com suas mãos na cabeça!_Gritou o delegado da policia no megafone.
Um. Sete. Vinte e seis. O número em ordem crescente. Contagioso. O que estava lá, se espalhando, era contagioso.
O hospital estava logo à frente e uma ambulância do corpo de bombeiros estava logo atrás. Rogério Heverton rezou para ser colocado logo na ambulância, não queria ficar perto do hospital. Não importava quantos médicos, bombeiros ou policiais tivessem ali, ele não estava seguro. Ninguém estava.
_Este é o ultimo aviso! Se não se entregarem nós iremos invadir!_Insistia o delegado.
_Parem! A esta altura já deve ter se espalhado! Estão doentes! Doentes!_O Dr. Heverton pareceu possesso de fúria, se sacudia na maca que o aprisionava.
_Doentes? Como assim?_Perguntou o delegado.
_É um tipo de doença! Algo novo! Está se espalhando, é altamente contagiosa...
_Como sabe disso?
_Sou médico! Eu estava lá dentro, eu vi tudo acontecer!
_O que exatamente você viu?!
_É uma doença... Não sei... Deixa o enfermo agressivo, com impulsos canibais...
_Canibais?!
_Sim, eles comem carne humana.
_Santo Deus, eu vou invadir.
_Não! Se arrombar aquela porta eles vão sair! Tem que isolar este prédio! Tem que por todos em quarentena!
O delegado apenas ignorou e deu a ordem. Uma tropa de choque correu com escudos e cassetetes na direção da porta do hospital. Eles fizeram manobras padronizadas até chegarem ao ponto, arrombar a porta e entrar de uma vez.
Eles permaneceram lá por poucos instantes antes de ouvir-se um grunhido coletivo. Parecia que uma multidão tinha rosnado fortemente, como animais enraivecidos. Depois disso ouve silêncio. Silêncio que durou por um ou dois longos minutos.
Eles marcharam para fora do hospital da santa cruz aos tropeços, uma multidão de funcionários, pacientes e familiares, todos ensangüentados e ensandecidos. Uma dinastia de zumbis, um batalhão de mortos-vivos, uma horda trôpega e faminta.
Ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo e não houve tempo para pensar sobre o assunto, pois os zumbis atacaram ferozmente todos a volta, se espalhando como uma nuvem de gafanhotos sobre uma plantação desprotegida. Eles devoravam tanto quanto conseguiam. Homens, mulheres, velhos ou crianças, sem distinção alguma, aquele que não era um morto-vivo, era logo devorado por um...
O que era realmente medonho era o fato de que todos os devorados aos poucos voltavam à vida. Vítimas renascidas para se tornarem assassinos canibais. Nem vivos, nem mortos.
O Dr. Rogério S. Heverton começou a chorar como uma criança, o medo lhe corroia os ossos. Ele podia ver o princípio do apocalipse acontecendo e estava amarrado a uma maca no meio de tudo, situação mais desesperadora... Era impossível.
Jorge Atanásio, o zumbi mais alto do mundo, atravessou a chacina em linha reta, passava sobre pessoas e outros mortos-vivos como se fossem apenas insetos, estorvos.
Ele vai me devorar.
O gigante cadáver se aproximou da maca do Dr. Heverton e parou diante do médico amarrado, fitou-o intensamente.
Ele vai me devorar.
O médico sentiu calafrios estarrecedores, o pavor estava dominando sua mente. Aquela figura alta e macabra olhando pra ele.
Ele vai me devorar.
A criatura estendeu a mão magra e grotesca na direção do legista imobilizado. Um gesto ameaçadoramente sinistro.
Oh Deus, ele vai me devorar.
Atanásio vociferou um conjunto de sílabas que nada significavam. Um urro diabólico com os braços abertos e face voltada para o céu, como se clamando alguma força superior. O brado fez todos os mortos-vivos interromperem o banquete e voltarem suas limitadas e confusas mentes para o mais alto de todos os defuntos.
O urro parecia expressar maldade, fome e uma conquista. Após todo aquele tempo perseguindo o médico legista, o predador finalmente alcançou sua presa.
Atanásio agarrou as amarras e arrancou todas, livrando o corpo de Rogério S. Heverton. Ele ergueu o corpo do médico como se fosse um brinquedo e babou observando sua refeição, mas por algum motivo, o monstro hesitou por um momento, o legista estava imóvel e não demonstrara nenhum medo de seu algoz.
Rogério S. Heverton morrera de um ataque cardíaco no momento em que o culminante e falecido Atanásio havia urrado aquela palavra bizarra.
Mesmo percebendo que Heverton estava morto, Atanásio o devorou.
...
“Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a Terra”_Dawn of the Dead, 1978.
Mensagem à Deaf City.
Esta mensagem é para todos os habitantes da cidade de “Deaf City”. É estranho que esta cidade tenha sido escolhida para o que está por vir, talvez seja pelo trocadilho fúnebre, “Deaf/Death”...
Vocês são habitantes desta pequena cidade canadense que é cercada de exuberantes montanhas, florestas vastas, maravilhosos lagos... Vocês vivem num pequeno paraíso de menos de dez mil habitantes.
Eu conheço o senhor Sherman da fazendo com aquela plantação exuberante de milho, conheço aquele velho e seus “Larrys”, aqueles bonecos que ele faz com os sabugos de milho e tenta vender para as crianças na cidade... Tolo homem, as crianças morrem de medo daqueles pequenos espantalhos.
Conheço a madeireira que emprega tantos lenhadores bravos e honestos e seus problemas com a guarda da reserva florestal que os impede de avançar um pouco em seu território.
Conheço a prefeita Deacon com suas tortas de amora esfriando na janela, empesteando a vizinhança com aquele aroma divino de dar água na boca de um camelo. Mulher gentil e dedicada a cidade que ama, aliás, que todos amam!
Conheço as crianças que brincam no parque com aquele velho vira-lata marrom... Que cão simpático! Sempre deitado perto do balanço, esperando algum garoto bondoso vir para dar-lhe um biscoito e brincar com ele. Qual era mesmo seu nome? Chocolate ou Caramelo?
Sim, eu conheço bem o Drive - in aonde vocês vão para assistir aos grandes sucessos do cinema e é claro, para namorar ou rever os amigos... Reuniões...
Em breve vai estrear o remake de meu filme favorito...
Eu conheço você também!
Sim, eu já fui um habitante desta amistosa comunidade. Por isso a escolhi para minha experiência, por isso vou matar todos vocês.
A grande experiência.
Ha alguns anos eu fiz uma grande descoberta, desenvolvi uma fórmula para reativar as funções vitais do corpo humano após a sua morte. Sim, isso mesmo, eu posso reviver os mortos.
Quem esperava isso de um caipira, hã?
Eu escolhi cinco cobaias pelo mundo e sem que elas soubessem, as infectei com meu soro. Usando equipamento sofisticado e uma equipe bem treinada, eu pude monitorar estas pessoas por meses e meses, no final eu acabei me deparando com a morte de Cada uma delas por meios diversos, mas o milagre veio em seguida.
Todas retornaram da morte.
Neste estágio seus corpos conseguiam desempenhar as funções vitais básicas, mesmo que estivessem combinando células vivas e mortas ao mesmo tempo, o único termo que posso pensar para definir o estado de existência atual de minhas cobaias é... Mortos-vivos.
Sim, exatamente como os zumbis de George A. Romero. Eles são apenas versões torpes e toscas do que foram um dia, reduzidos ao instinto básico de sobrevivência, comer.
Por algum motivo as minhas criações se tornaram extremamente agressivas para conseguir alimento e aparentemente tornaram-se exclusivamente carnívoras. Eles perseguem e devoram qualquer coisa que se mova... Até mesmo pessoas.
Mas não as julguem como canibais, parece que seu comportamento é simples, eles devoram qualquer coisa que se mova, exceto outro deles, portanto, acredito que se reconhecem como uma nova espécie, e todas as outras estão no cardápio.
O mais impressionante é que quando eles mordem um ser vivo, o soro contido na saliva deles é compartilhado com a vítima, que em pouco tempo se torna um deles. Como uma doença se espalhando.
Capturei cada um de meus primogênitos e suas crias, planejando diferentes formas de utilizá-los, cheguei à conclusão que sua maior utilidade é...
Arma biológica.
A minha primeira fase teste será deixar meus mortos-vivos devastarem completamente Deaf City.
Vocês conseguem imaginar o pesadelo pelo qual vão passar? Eu duvido muito.
Devem estar se perguntando por que eu faria isso.
Bom, talvez eu seja meramente vil.
Em breve eu estarei no topo da lista dos mais procurados da América, não sei se o Canadá tem uma... Hmmm... Em breve eu estarei na lista negra do mundo inteiro...
Chamar-me-ão de terrorista, genocida, servo de satã. Serei tachado de tudo, menos cientista. Serei tachado de tudo, menos sonhador.
Logo, nomes como Osama Bin Laden ou Saddam Hussein serão lembranças mais felizes para a humanidade, serei o homem mais odiado do planeta... Mas isso não importará, pois pouco tempo depois serei também o homem mais rico, poderoso e temido de todo o globo.
Então, eu posso estar fazendo isso por poder, por dinheiro...
Quando eu mostrar ao mundo o que houve com Deaf City, como minhas hordas de zumbis puderam devastar rapidamente uma cidade... Bem, muitos irão de fato me caçar, mas muitos vão pagar caro para possuir minhas armas em mãos.
Armas biológicas.
Os resultados desta experiência de campo em Deaf City serão relatados a todos os líderes mundiais e eu oferecerei uma promoção camarada ao primeiro que comprar amostras de meu soro.
A esta altura, devem achar que sou louco.
Será isso? Eu estou fazendo isso por simples niilismo? Sou um demente fascinado pela morte?
Não é longe da verdade.
Veja bem, a morte tem cinco diferentes facetas divididas em duas naturezas, a morte natural e a não natural.
Entre as não naturais temos o assassínio (Quanto terceiros tiram a vida de outro), o incidente (Quando eventos acidentais causam a morte) e o suicídio (Quando alguém decide se matar), e entre as naturais estão... A velhice (Quando à hora simplesmente chega) e a moléstia (Doenças e outros problemas de saúde).
Todas as formas de morte se encaixam numa destas facetas. Não é interessante? Não? E se eu disser que entre minhas cinco cobaias... Cada uma morreu de uma faceta diferente da morte. Isso sem nenhuma influência minha ou de qualquer parte. Você passaria a considerar a morte mais meticulosa?
Assassínio
Primogênito de codinome “Macacão laranja”, ele era um psicopata que foi condenado à cadeira elétrica. Quem são os homens para condenar outro homem? Isso não passa de assassinato. A execução aconteceu, mas macacão laranja é que foi o executor.
Incidente
Primogênito de codinome “Boneca de porcelana”, ela era uma linda garotinha em sua festa de dia das bruxas. Suas amiguinhas a provocaram e ela acabou rolando escada abaixo, quebrando todos os ossos do corpo. Preciso dizer qual era a fantasia dela?
Suicídio.
Primogênito de codinome “Ha-Isha-chan”, palavra japonesa para “Dentista”. Uma dentista de fato, estava muito chateada com problemas familiares. Quando foi despedida acabou tendo um surto e cortou os pulsos com sua broca de obturação.
Velhice.
Primogênito de codinome “Merrick” é um grande elefante africano. Liderava a manada, mas acabou ficando velha demais e encontrou uma morte triste e solitária. Tudo registrado por cinegrafistas de um programa sobre a vida animal.
Moléstia
Primogênito de codinome “Atanásio”, Tido como o homem mais alto do mundo. Ficou famoso por essa estatura assustadora e apesar de ter vários problemas de saúde por conta desse corpo... Foi um câncer de estômago (sem nenhuma ligação com sua altura) que encerrou seus dias de glória.
Não conseguem enxergar a beleza nisso?
...
Esqueçam.
Apesar de eu estar fascinado pela morte, interessado em vender minha descoberta como arma biológica e porque não dizer... Por ser vil...
Eu tenho motivos ainda maiores, um sonho muito superior a toda essa futilidade.
Sou um homem religioso. Eu acredito em tudo que está na bíblia, exceto um livro. Sei que não deve um cientista crer em Deus, mas não posso evitar, eu acredito na bíblia (exceto um livro) totalmente.
Minha passagem favorita é a de Lázaro. A forma como Cristo o fez ressuscitar milagrosamente após quatro dias de morte, me fascina. Eu invejo Lázaro... Quer dizer, eu o invejei...
O único livro da bíblia em que não acredito é o “apocalipse”. Creio que se Deus quisesse abortar o mundo, ele já teria feito. Nem mesmo nos tempos do dilúvio o mundo esteve tão decadente, vocês matam, roubam, estupram, traem, se vendem, fornicam... Estamos infestados com dementes, gays, democratas e outras aberrações do espírito humano... E ainda assim estamos aqui.
Acredito que ele mudou de idéia. Que Deus quer que fiquemos aqui para sempre e para sempre é exatamente o tempo que quero realmente ficar por aqui.
Quero ser imortal.
A imortalidade é a fronteira final. O verdadeiro objetivo de meu estudo. O soro que reviveu os mortos e criou exércitos de zumbis é apenas um protótipo para um soro da vida eterna!
Eu estou cada vez mais perto de recriar os milagres de cristo, e mais... Estou perto de superar o filho de Deus, criando uma forma de tornar a morte apenas uma opção jamais escolhida.
Enquanto minha empreitada para obter a eternidade em mãos não houver terminado, eu continuarei a reunir fundos para minha pesquisa, vendendo os hodiernos frutos de meu trabalho.
É uma pena que não poderei ir ao Drive - in de novo...
Para vocês de Deaf City, vocês todos que vão morrer... Antes que suas vidas acabem tão desesperadoramente... Vão assistir ao filme...
United Zombies - parte três – A reunião dos mortos-vivos.
Meu filme favorito. É sobre zumbis. Assistam com quem vocês amam... Vão adorar...
É um filme muito educativo.
terça-feira, 28 de julho de 2009
A noite do xerife.
“Eu acredito que tudo que não te mata, te deixa mais estranho.” _Coringa. Batman -The dark knight.
A lenda de Harold Counter.
_O maldito conseguiu me acertar... Acertou o tiro no lugar que ele sabia que me mataria mais devagar... Maldito...
O carro cortava as estradas do deserto escaldante em rítimo acelerado. A estrada se estendia em linha reta até o horizonte. A visibilidade era parcialmente prejudicada pela poeira, que entre certos intervalos de tempo, era soprada pelo vento, cobrindo a área de visão dos jovens aventureiros por períodos de perigosos segundos. Quatro jovens barulhentos quebravam o silêncio da árida paisagem do Texas.
Ha um mês a viagem era apenas uma idéia, finalmente os quatro amigos decidiram que estavam prontos para esta aventura. Billy Nelson, o nerd, ficou encarregado de pegar o carro do pai emprestado, ninguém acreditou quando ele disse que conseguiu. Austin Miles, o rei da popularidade no colégio, garantiu que conseguiria dinheiro para qualquer emergência, ele era quem mais queria fazer esta viagem e nunca disse como arranjou a grana, mas o pai de Austin era rico o bastante para sustentar o filho na faculdade e nas loucuras, era óbvio. Patsy Jones, a mentirosa, conseguiu convencer o pai de Jenny que não haveria garotos na viagem. Jennifer Twaine, a careta, deu o ar de sua graça, para os outros só o fato dela ter decidido ir, já era um favor. Jenny sempre foi “a chata”, a estraga festa, a certinha... Mas eles nunca haviam se separado por muito tempo, os quatro eram amigos desde crianças. Isso significava muito pra eles.
Tinham o dinheiro, o transporte, à vontade e a loucura para passar uma semana longe de casa nos confins de um vasto deserto repleto de paradas em cidadezinhas monótonas. Claro que não era bem este o plano, eles estavam atrás de algo que julgavam ser realmente emocionante e exótico. Procuravam uma das famosas cidades fantasmas texanas...
Texas, a estrela solitária dos estados. Sem duvida uma boa opção para viajantes que buscam hospitalidade. 22 milhões de habitantes gentis e de boa índole, e uma população crescendo rapidamente devido à imigração, o Texas possui mais habitantes do que qualquer outro Estado americano, com exceção da Califórnia. Uma excelente escolha para quem queira viajar para fazer novos amigos, até mesmo a palavra Texas deriva de Tejas, uma palavra indígena que significa "amigos”. Claro que como em qualquer parte do mundo, é preciso ser um bom e respeitoso visitante e ir aos lugares certos... E definitivamente eles estavam procurando o lugar errado.
No rádio uma canção monótona incomodava os passageiros inquietos.
_Oh não! Música country, não! Desligue Billy! _Jennifer Twaine estava sentada no banco do carona, gostava de sentir o vento no rosto quando colocava a cabeça pela janela, além disso, não querida atrapalhar o casal namorando no banco de trás.
_Ora, vamos Jenny! Vamos entrar no clima do interior. _Billy Nelson não conseguia evitar, sempre que olhava para Jenny acabava perdendo o olhar no decote da camisa. Para quem nem sempre tem o hábito de dirigir, isso poderia ser perigoso... Mas ele não podia evitar, sempre havia um botão aberto naquela camisa.
_Perdeu alguma coisa aqui, Billy?
_Oh Não! Desculpe... Eu só…
_Só estava olhando pros meus peitos... Tudo bem. Esqueça… _Jenny ajeitou o chapéu de cowboy do qual seus longos cabelos negros escorriam. Um presente de seu pai. O velho insistia que ela tinha que caracterizar-se... E ele conseguiu. A camisa branca com o jeans, tudo bem. Até mesmo as botas podiam se confundir com a moda atual, mas o chapéu fez tudo parecer parte de uma perfeita fantasia de “cowgirl”.
_Não sei por que esta olhando pra mim Billy. Não com este show erótico aí no banco de traz...
Billy olhou pelo retrovisor e viu Austin e Patsy se enroscando no banco de traz, um tentando ficar em cima do outro, a mão de Austin em baixo da saia dela, aparentemente massageando as nádegas da garota.
_Oh nossa! Vocês querem que paremos num motel para ficarem mais a vontade ou vão fazer aí mesmo?
_Pra mim... Aqui está ótimo... _Disse Patsy olhando nos olhos do namorado da forma mais sensual que conseguia.
_Você ouviu esquisitão, tente não passar sobre pedras e buracos na estrada. Já vai ficar muito turbulento aqui. _Ao dizer isso, o sujeito de cabelos curtos e porte atlético arrancou a calcinha da namorada por baixo da saia e jogou para os bancos da frente. Billy não conseguia evitar, estava quase babando. O rapaz tentou afrouxar a gola da camisa inutilmente. Jenny suspirou e desviou o olhar com desdém, deixou seu rosto recebendo o vento pela janela, aproveitando enquanto não aparecia uma nuvem de poeira.
_Cara... Como isto está molhado... _disse Billy pegando a calcinha que caíra perto dos pedais do veículo. Ao fazer isso precisou abaixar-se e nem mesmo notou que se aproximava perigosamente de alguém que caminhava no encostamento da estrada.
_Billy! Cuidado! _Jenny gritou tão alto quanto pôde.
O carro derrapou e acabou parando fora da estrada. Uma nuvem de poeira encobriu todo o veículo. Dentro do carro Patsy gritava e chorava, Austin tentava calar a moça, mas ela estava em choque.
_Qual é seu problema Billy?! Catando calcinhas em vez de dirigir! Idiota!_Jenny saiu do carro em meio à poeira para encontrar o quase atropelado.
_Hey! Pega leve! Não havia ninguém na estrada por quilômetros!
_Então tudo bem se atropelar alguém agora, não é?!
Jenny ignorou Billy e continuou a procurar o viajante. Logo pode avistá-lo, um homem velho com roupas esfarrapadas e uma grande mochila de viagem nas costas. Ele parecia cansado, mas determinado em avançar em seu caminho. Usava também um chapéu que escondia a expressão exausta e o olhar vago.
_Desculpe senhor... O senhor está bem? _a garota pareceu preocupada.
Austin e os demais desceram do carro e começaram a se aproximar, mas pareciam hesitantes e assustados, especialmente Patsy que ficava atrás de Austin o tempo todo.
_Senhor... Está me ouvindo?
O velho viajante ignorou a menina e continuou caminhando sem se preocupar com o fato de quase ter sido atropelado.
_Senhor... Nós quase o atropelamos...
_Dá um tempo Jenny! Ele nem percebeu! _Gritou Austin irritado.
_Ele é louco... Ou está completamente bêbado... Deixa ele ir e vamos embora, ninguém atropelou ninguém mesmo! _gritou Patsy de traz do namorado.
_Mas podíamos ter atropelado! Temos que fazer alguma coisa! _Jenny voltou para o velho e percebeu que ele havia parado e agora olhava fixamente para ela.
_Vocês estão indo para alguma cidade? Preciso de carona, tem merda em minhas calças.
_Oh não! Nada de caronas! Ouviu o que ele disse! O cara se borrou todo! Nem o conhecemos e está sujo! _disse Patsy.
_Agente nunca conhece caroneiros de estrada Patsy, ninguém conhece, por isso precisam de carona. _Billy cruzou os braços e olhou o velho com um profundo nojo, para não dizer medo. _mas concordo sobre a bosta. Não vou enfiar esse velho cagado no carro do meu pai.
_Senhor... Vamos visitar um ponto turístico, uma cidade fantasma, mas podemos levá-lo a uma cidade antes, se quiser. _disse Jenny com tom cortês.
_Hey Jenny, não faça promessas em nome de todos!
_Vocês estão indo para Deep Hollow? _o velho sussurrou as duas palavras como se apenas a pronúncia pudesse levar as almas de todos para o inferno.
_Isso mesmo senhor! Estamos indo para Deep Hollow. Poderia nos ajudar... Estamos no caminho certo?
_Eu não chamaria de “o caminho certo” dona. Eu acabo de passar por lá e não volto para aqueles lados nem morto, fodido e arrastado... E vocês também não deviam ir... Tem estórias sobre aquelas bandas que fariam vocês todos se mijarem de medo.
_Ótimo. _disse Austin se aproximando. Patsy o acompanhava, agarrada a manga de sua camisa. Billy vinha mais atrás com um olhar desconfiado. _estamos procurando justamente estas estórias. O senhor poderia contar?
_Escute aqui seu saco volumoso e pesado cheio de estrume de vaca... Eu não deveria perder meu tempo com um bando de veadinhos de merda e vadiazinhas de estrada como vocês, mas eu vou contar por dois motivos... O primeiro é por que vocês têm que saber o que tem naquela porra de lugar...
_E o segundo, senhor simpatia? _disse Austin com deboche.
_O segundo eu conto depois. Agora cale essa sua boca imunda e preste bastante atenção verme. Deep Hollow é a próxima cidade que vão encontrar a frente, na placa vão ver um letreiro velho e quebrado que diz “Deep Hollow, 120 habitantes”...
_Mas não é uma cidade fantasma?
_E você já ouviu falar de uma cidade fantasma onde nunca viveu ninguém, seu bosta? Pra ter fantasma, tem que ter tido gente... E em Deep Hollow tinha 120 habitantes...
_Legal. E daí?
_O número de habitantes foi riscado e um 119 foi escrito em cima...
_Sinal de que alguém morreu.
_ Mas não é tudo... Este 119 também foi riscado... O número 120 foi recolocado.
_E por que isso? _perguntou Jenny que parecia começar a se interessar pela estória.
_Depois parece este novo número 120 foi novamente riscado e o número 1 foi posto no lugar...
_Isso quer dizer...
_Quer dizer que um habitante morreu. Depois um novo habitante tomou seu lugar e este... Ele matou todos os outros... Ficando sozinho.
_Legal, um serial killer do Texas! Espero que diga que ele matou todos com uma serra elétrica! _Disse Billy animado.
Austin começou a rir e imitar um maníaco com uma serra elétrica imaginária nas mãos, fazendo o que ele julgava ser o convincente imitar do som de uma moto-serra. _Reeenenenenenenene...
_Tiros seus moleques idiotas. Ele matou todos com tiros.
_Tiros?! Que comum...
_Não havia nada de comum naquela chacina... O homem que morreu em Deep Hollow e o novo habitante que matou todos... são a mesma pessoa. _ele recitou aquelas palavras como se estivesse tentando torturar os quatro jovens.
_A mesma pessoa? Quer dizer que foi um pistoleiro zumbi?! Um cowboy morto-vivo?! Isso é demais! _exclamou Austin.
_”The ghost rider”! Finalmente a estória ficou boa! _Billy agora imitava um pistoleiro usando os dedos como armas, ele e Austin estavam se divertindo, mas Patsy estava apavorada e Jenny estava séria, um olhar acusador para ambos. O velho por usa vez, também parecia extremamente irritado. Um olhar mordaz por traz da sombra do chapéu parecia tentar fulminar os jovens tolos.
_Quem era esse pistoleiro? Qual era o nome dele? _perguntou Austin entre seus risos.
_O nome dele é Counter... Harold Counter...
_Harold Counter. _repetiu Jenny para si mesma.
_Harold Counter saiu do seu tumulo e matou cada homem, mulher, velho e criança daquele lugar. Dizem que ele era odiado por toda cidade e armaram uma cilada para ele. No dia da morte, Harold foi atingido pelas costas com uma espingarda de calibre 12, não teve chance de sobreviver. Ninguém achou que Harold fosse voltar do inferno para se vingar de cada filho da mãe daquela pocilga.
_Quando isso aconteceu?
_Uns vinte anos atrás...
_Apavorante.
_Não moça. Apavorante é o fato de que Harold Counter ainda está lá.
_Como assim?
_ Se vocês vão até lá, precisam saber... Só tem um jeito de matar o monstro de verdade... É com a arma que o mataram da primeira vez... A espingarda de cano duplo que arrebentou as costas dele... Ela é inconfundível, tem um dos canos mais curto que o outro...
_Vamos nos lembrar disso “senhor calças cheias”. _disse Austin antes de rir compulsivamente.
_Hey, qual era seu outro motivo pra nos contar isso? Disse que eram dois motivos... _Billy fez a pergunta sem esboçar sorriso algum. Para ele a graça da brincadeira havia acabado no momento em que ele começou a sentir medo.
_Esqueça...
Depois de dizer isso o velho pareceu voltar a seu estado de delírio. Ele saiu a caminhar e ignorou os jovens completamente. Apesar de tudo, decidiram que iriam para Deep Hollow. Ninguém percebera que o velho estava ferido. O ferimento a bala continuou sangrando dentro das vestes pesadas, o velho não caminhou mais muito tempo e acabou caindo à beira da estrada.
_Bando de maricas fodidos, Piranhas nojentas... Vocês vão todos morrer... Este é segundo motivo seu cretininhos... Gente como vocês... Merece morrer... E o xerife Counter vai matar cada um de vocês...
O velho Henry Counter sangrou até a lenta e dolorosa morte.
Deep Hollow.
_Isto é Deep Hollow? Achei que era uma cidade do velho oeste…
_Não seja ridículo Billy. Ele disse que a estória era de vinte anos atrás...
_Verdade...
Um arbusto seco rolou pelo quarteto decepcionado. A cidade de Deep Hollow era tão parecida com qualquer outra cidade quanto possível. A única coisa que surpreendia os jovens era que a cidade era extremamente pequena. Poucas ruas com casas comuns, apenas alguns prédios com no máximo cinco andares. A maioria das ruas era pavimentada, com exceção de algumas poucas de uma área da cidade onde tudo parecia inacabado.
A placa de que o velho na estrada havia falado estava lá. Dizia exatamente como ele contara ao grupo. Os números da população riscados e corrigidos. Agora o letreiro dizia “Deep Hollow, 1 habitante”.
_Hey, vejam a tal placa! _Disse Austin apontando para o letreiro. _O velho não mentiu.
_Olha isso... _Jenny passou a mão no letreiro como se examinasse sua veracidade. _ Aqui diz que ainda tem um habitante...
_É. Harold Couuuuunteeeeerrrrr... _Austin começou a imitar um zumbi. Billy e Patsy não resistiram e riram da piada. Jenny permaneceu séria.
_Qualé Jenny... Não esquenta com aquela estória, ta? _Billy sacou um canivete suíço e começou a riscar o letreiro.
_O que você ta fazendo?!
_Calma garota. Só estou fazendo uma pequena correção. _Ele fez seus últimos reparos e mostrou triunfante aos amigos. _Pronto!
O letreiro agora dizia “Deep Hollow, 5 habitantes”.
_Por que cinco? _Perguntou Patsy com curiosidade.
_Nós quatro... E nosso querido Harold Counter. _Billy sorria enquanto guardava seu canivete.
Os quatro passearam pela cidade deserta ainda dentro do carro. Casas vazias com portas e janelas abertas. Carros abandonados no meio das ruas. Marcas visíveis de acidentes de trânsito e arrombamentos. Brinquedos e roupas espalhados, objetos pessoais diversos. Marcas de sangue em quase tudo.
Austin passou por uma velha pensão com um letreiro sujo e enferrujado. O letreiro dizia “Albergue. Temos vagas”. Austin começou a rir e apontou seu dedo para a placa.
_Vejam isso pessoal. Eles têm vagas! Como se algum lugar aqui não tivesse vagas!
_Podemos passar a noite ali! Ainda deve ter camas macias! _Billy recebeu um olhar repreensivo das duas moças.
_Nem morta eu durmo nesse pulgueiro! _Patsy abraçou Austin buscando seu apoio, mas ele não discordou de Billy.
_Hey boneca! Onde quer dormir? No carro?!
_Bem… Eu…
_ É uma ótima idéia dormir no albergue. Depois nós voltamos aqui. Agora vamos dar uma olhada naquela área inacabada.
Casas não embolsadas, sem pintura e sem portas ou janelas. Um bairro inteiro sem acabamento. Nenhum sinal de que alguém tivesse morado naquelas residências, mas havia algo que chamava atenção. A delegacia era a única construção que tinha certo acabamento. Não havia pintura, mas sinais de que chegou a funcionar. Dois velhos carros patrulha estavam estacionados na frente da delegacia, ambos pintados de preto e branco e com uma luz vermelha em cima do capô. Um tinha a inscrição “xerife” dentro de uma estrela nas portas dianteiras.
_Vamos dar uma olhada... Esta delegacia deve ter alguma coisa legal... _Austin pareceu animado, Billy demonstrou compartilhar de sua empolgação.
_Podem ter distintivos! Talvez uniformes... Legal...
_Armas! _Exclamou Austin para o amigo, Porém, ele houvera dito uma besteira.
_Hey! Nada de armas! Viemos pra nos divertir, não para nos matar, OK?!_Jenny pareceu extremamente irritada. Austin parou o carro e ela foi a primeira a descer. Assim que Jenny saiu, Austin recebeu um tapa de Patsy bem no meio da nuca.
_Idiota! _Disse a garota com a voz rosnada.
_Não falei por mal, gente... Nem pensei...
_Da próxima pense seu babaca! _Billy perdeu repentinamente seu senso de humor. Fitou Jenny se distanciar do carro se contornando com os próprios braços como se sentisse frio. _Estúpido, esqueceu que foi uma maldita arma que matou a mãe dela?! Esqueceu como aconteceu?!
_Não cara, não esqueci... Só não pensei que ela fosse se importar... Não queria chatear ela!
Os dois olharam Austin com escárnio. Depois de censurá-lo mais um pouco, todos desceram do carro. Enquanto Austin e Patsy entraram na delegacia, cujas portas estavam escancaradas, Billy foi até Jenny e acabou conseguindo convencer a garota a deixar a besteira de Austin de lado. Todos acabaram se encontrando dentro da delegacia.
Corredores que davam em celas vazias. Salas empoeiradas e folhas de papel e documentos amarelados espalhados por toda parte. Banheiros que eles não conseguiram abrir devido ao forte cheiro pútrido que escapava até pelas frestas da porta.
_ Venham ver o que encontrei! Vocês vão adorar isso aqui! _A voz de Austin vinha da sala do xerife. Já haviam passado por ali, mas como a porta estava trancada, eles ignoraram a mesma. Agora Patsy, Billy e Jenny seguiam a voz do amigo até a sala escura.
_O que foi Austin? _Foi então que Jenny viu. _MEU DEUS! QUE COISA HORRÍVEL!
Patsy e Billy entraram logo atrás dela e também viram a abominável figura sentada na cadeira do xerife. Um cadáver de um homem alto e magro. Parecia ser um velho com bigodes ásperos que escondiam os lábios decompostos. Um uniforme marrom indicava que se tratava de um policial. A estrela dourada de cinco pontas terminadas em pequenas esferas indicava que se tratava do xerife da cidade. O corpo estava despojado na cadeira como se tivesse dormido ali antes de morrer.
_O que é isso? _Perguntou Jenny cobrindo a boca com uma das mãos.
_Um cadáver... Um xerife cadáver... _Austin não fora bem sucedido na piada. O clima ficara repentinamente pesado, assustador. As meninas caminhavam lentamente dentro da sala escura. Apenas Austin parecia se divertir com o achado.
_Céus... É assustador... Será que todas as casas têm cadáveres?
_Talvez Patsy... O tal do Harold Counter matou todo mundo, não é?
_Isso é besteira... Não acredito que você acreditou naquela estória, Austin.
_Então do que ele morreu, “Jenny sabe tudo”?
_Não sei... Mas não tem ferimento de bala alguma. O que me diz disso?
_Bah! Está escuro... Deve estar em algum lugar...
_Vai procurar?
_Quando eu tiver comigo minhas luvas especiais de mexer em corpos putrefatos... Ai sim, talvez.
A mesa do falecido xerife estava bagunçada. Papéis antigos cobriam quase toda, além de alguns utensílios de escritório, como canetas e grampeadores. Havia também uma garrafa de tequila fechada com uma rolha e havia um copo de vidro ao seu lado, ainda sobre a mesa estava uma arma de fogo, uma pistola prateada suja e enferrujada.
Ao perceber a arma Jenny assumiu uma expressão séria. Ela aproximou-se calmamente e pegou a pistola com a ponta dos dedos, como se sentisse nojo da peça. Billy fixou seu olhar na mesa naquele momento, por algum motivo ficou preocupado, felizmente ninguém percebera. Jenny moveu sua mão com leveza e delicadeza, levou a arma até fora do alcance da mesa e deixou cair dentro da lata de lixo do escritório do xerife.
_Vamos dar o fora daqui...
_Jenny?! Não vamos nem tirar uma foto com ele?
_Austin, eu vou fingir que nem escutei essa merda que você falou.
_Pessoal? _Austin estava determinado, ficou mostrando a todos sua câmera. Todos o ignoraram e saíram da sala. Desistindo ele acabou saindo apressadamente, tanto que acabou derrubando um cabide de casacos com alguns sobretudos velhos e surrados. Austin olhou pra todos com uma feição marota ao pegar do chão um chapéu de abas largas e colocar na cabeça.
_Austin. Deixe isso aí. _Jenny usara novamente seu tom imperativo, mas desta vez não fora ouvida.
_Ora, vamos Jenny! É só um chapéu! O “Texas ranger” ali não vai mais precisar!
Jenny não respondeu. Apenas saiu caminhando em passos largos para fora da delegacia, seguida bem de perto por Patsy que não via mais a hora de sair daquele lugar macabro. Austin, vitorioso, saiu com seu chapéu de cowboy, mas antes de deixar a sala Billy lhe parou com um olhar sério.
_Você também vai encrencar por causa do meu novo chapéu?!
_Dane-se o chapéu cara... Não percebeu nada estranho?
_O quê?
_Quando a Jenny tirou a arma da mesa...
_Se você disser que o cadáver se moveu, eu chuto sua bunda cara!
_Cala a boca Austin! Tinha poeira em baixo da arma!
_O quê?
_Presta atenção. _Irritado Billy retira o copo de cima da mesa e mostra ao estúpido amigo que há um circulo exatamente do tamanho da base do copo, onde não havia poeira alguma. _Entendeu? Não era pra ter poeira onde estava a arma também… Mas se você der uma boa olhada… Tem.
_O que cê quer dizer com isso cara?
_Que a arma foi colocada ali recentemente...
Quando o sol se pôs naquele horizonte vasto e árido fora da cidade, os garotos presenciaram a lenta queda do astro nas montanhas e areia do deserto. O céu ficou tingido de tons gradientes de vermelho sangue e laranja vívidos. Este espetáculo natural não durou muito tempo, logo a noite havia caído sobre o crepúsculo com seu manto escuro. O céu negro salpicado com pontos brilhantes tão numerosos quanto possível, uma meia lua com o corpo branco brilhante tomado de sombras em metade de seu corpo. Uma linda noite. Decididamente linda.
Austin e Patsy foram ao albergue para procurar quartos que estivessem em condições de servi-los de repouso e outras atividades menos tranqüilas. Jenny e Billy saíram para uma caminhada ao luar, passavam pela cidade agora escura.
As casas de portas e janelas abertas ficavam realmente apavorantes à noite. Dentro das residências só se podia ver um breu completo, era inevitável a estranha sensação de que se houvesse alguém observando de dentro daquelas casas, este alguém estaria completamente oculto pelas trevas.
_Este lugar é apavorante... Eu não devia ter vindo... _Sussurrou Jenny para o amigo.
_Jenny... Não fica assim. Olha, se você não viesse, não teria a mesma graça.
_Não teria a mesma graça Billy? Eu só reclamo o tempo todo e fico cortando o barato de vocês...
_Não me venha com essa. Você corta o barato de Austin, mas alguém tem que fazer isso! O barato dele sempre nos mete em encrenca!
_É verdade... Lembra quando nós fomos ao aquário em Nova York?
_Se me lembro?! O Austin cismou que queria ver o tubarão comendo alguma coisa e tentou levar o poodle da Patsy pro maldito jantar!
_E o segurança pegou agente justo quando ele jogou o coitadinho na água... A patsy ficou furiosa!
_Achei que eles iam terminar naquele dia!
_Ainda bem que era o tanque das focas. O cãozinho nadou e latiu junto com os bichos, foi uma guerra para tirá-lo de lá depois.
Os dois começaram a rir com suas lembranças. O clima pareceu melhorar repentinamente. Enquanto caminhavam, suas risadas ecoaram pelas casas vazias, o eco que resultava destes risos dava a impressão de que alguém ria de dentro das casas. Assim que os dois perceberam este estranho fenômeno pareceram perder a graça de suas piadas, ficaram sérios novamente. Assustados.
_Você acha melhor nós voltarmos pro albergue?
_Eu não sei de você Jenny, mas eu não vou conseguir dormir com o barulho que aqueles dois vão fazer à noite...
_Tem razão... Quando eles fazem... Bem, parece que estão se matando.
_É... Você não tem curiosidade de...
_Hey! O que é aquilo?
Jenny caminhou em passos mais rápidos, nem percebeu que havia deixado Billy como uma expressão tola enquanto percebia que sua cantada fora deveras muito fraca. A garota foi seguida pelo derrotado até o que parecia ser um vasto cemitério. Lápides se estendiam por toda uma área. Um muro não terminado, com falhas de vários metros de comprimento, se estendia em torno do cemitério.
_Legal, um cemitério. _Disse Billy se aproximando com os olhos cheios de curiosidade. _Vamos dar uma olhada?
_Eu não sei...
_Ora, vamos! Só tem gente morta aí? O que podem fazer?!
_Tudo bem... Vamos dar uma olhada...
No albergue, Austin e Patsy estavam mais uma vez em sua frenética batalha para decidir quem fica por cima. Os dois já estavam completamente nus e se entrelaçavam de uma forma que era difícil dizer onde começava um e onde terminava outro. A cama do albergue não era a mais limpa do mundo, mas o lençol branco que eles haviam forrado sobre o coxão marrom acinzentado parecia melhorar as coisas.
_Austin, Austin... Eu estou com medo...
_O quê?! Medo de quê?! Não me venha com essas desculpas...
_Não é isso... Esse lugar dá medo... Não consigo me concentrar...
_Vamos fazer o seguinte... Feche os olhos e deixe-me fazer o resto... Garanto que em cinco minutos você vai estar com tanto tesão que nem vai ligar pra essa cidade fantasma idiota!
_Hummm... Vou querer ver isso... _Patsy fechou seu olhos ansiosa pelo que estava por vir, ela esfregou as pernas uma na outra sentindo a antecipação do que Austin faria.
Repentinamente, Patsy sentiu Austin agarrá-la pela cintura e erguer seu corpo para colocá-la de quatro, mãos e joelhos na cama, ela sorriu sabendo o que aconteceria, mas não foi exatamente o que ela esperava. Austin montou na garota, mas não como ela esperava, ele sentou em suas costas, ergueu o chapéu de cowboy que saqueou do velho xerife cadáver e começou a balançar o mesmo, gritando e sacudindo como se fosse um peão de rodeios em seu cavalo arisco.
_Yee-Haa! _Gritou Austin em sua patética fantasia. Patsy assumiu uma expressão de surpresa, não era apenas estranho, era ridículo. Embora Austin achasse aquilo muito excitante, Patsy havia acabado de se tornar frigida.
Enquanto isso, Jenny e Billy estavam prestes a descobrir um segredo.
O cemitério estava em ruínas. A falta de manutenção do lugar lhe dera um aspecto decadente. Jenny e Billy passaram entre túmulos e algumas velhas árvores desfolhadas.
_”Elizabeth Newman”... “Amada esposa e mãe”. O que diz esta aí? _Disse Billy apontando para a lápide ao lado de Jenny.
_”Simon Rogers”... “Descanse em paz”... Puxa, que original... _Jenny sorrira. O s dois estavam fazendo aquilo há alguns minutos, já haviam lido dezesseis lápides. Era a vez de Billy.
_”Eric Tools”... “Querido por todos”… Sei o que quer dizer. É tudo extremamente clichê... Previsível... Nenhuma destas lápides tem frases interessantes.
_Parece que é de propósito. É como se ninguém se importasse muito com essas pessoas...
_Ou suas famílias não tinham muita criatividade, não é? Veja esta aqui, Jenny. “Amanda Muller, uma boa pessoa”. Uma boa pessoa?! Por favor!
Um som muito peculiar se ouviu naquele momento. Era o pio baixo e sinistro de uma ave que estava pousada sobre o galho de árvore. A árvore seca e retorcida estava completamente desprovida de folhas, galhos se estendiam aos céus como mãos munidas de garras, mãos que tentam agarrar alguma coisa. A ave era grande e negra. Suas patas se agarravam ao galho e suas asas eram eriçadas acima da cabeça, um pescoço torto terminado numa cabeça disforme e um bico curvo e afiado.
_Olha só... Um abutre! Não é louco? Que enorme...
Os dois se aproximaram um pouco mais. A ave mal se moveu, parecia estar empalhada. Apenas ficou imóvel e fitando seus visitantes.
_Esta esperando nós morrermos... _Disse Billy observando o pássaro monstruoso.
_O quê? Como assim?
_Eles fazem isso, sabe? Ficam espreitando e esperando viajantes e alguns animais no deserto serem mortos pelas condições do clima, falta de água ou comida... Depois pousam nas carcaças e comem a carniça...
_Nós não estamos num deserto... Estamos na cidade. Não é possível que ele ache que nós vamos morrer...
_Bom, ele espera que nós morramos... Daí ele nos almoça...
_Isso é nojento... Bom, a menos que ele ou outra pessoa nos mate... Vai ficar com fome.
Jenny observou que abaixo da arvore retorcida havia mais um túmulo. Uma lápide um pouco maior e mais adornada nas extremidades. Tinha entalhado na superfície cinza e escura uma estrela de cinco pontas terminada em pequenas esferas, exatamente como o brasão que viram na delegacia, símbolo da força policial da cidade.
_Meu Deus. _Jenny foi tomada por um grande pavor. A lápide tinha uma inscrição que a deixou terrificada.
_O que foi? _Billy não teve resposta. Ela apenas continuou olhando para a lápide de pedra com aquele olhar estupefato. Billy foi até ela e observou a inscrição.
“Aqui jaz
Xerife Harold Counter
O gatilho mais rápido de Deep Hollow
E o braço de ferro impiedoso da lei”
Billy pareceu congelado agora. Seu rosto imitou o de Jenny, um medo irracional do que deveria ser uma tola estória de terror, um devaneio de um velho viajante que por acaso esbarrou neles na estrada.
_Harold Counter. É o nome da estória daquele velho... Não é Billy?
_É sim...
_Ele não disse que Counter era o xerife da cidade...
_Não Jenny, ele não disse...
_Billy... Se têm um túmulo para o xerife... Por que o corpo dele estava na delegacia?
_Bem... Ele é um bom policial...
_Por que ta dizendo isso?
_Bom Jenny... Ele não descansa em serviço... _Billy apontou para frente da lápide. Havia um buraco grande e escuro para o fundo do tumulo. A terra não se espalhava para os lados, apenas para dentro do buraco. Era como se tivesse sido feito de dentro pra fora.
_Não descansa em serviço?
_É... Ele... Voltou ao trabalho...
Um repentino bater de asas assustou Jenny e Billy. O abutre alçou vôo e pousou sobre a lápide do xerife. Soltou um pio alto e voltou a ficar imóvel. Permaneceu a observar atentamente os dois jovens. Esperando pacientemente por sua próxima refeição.
Tempestade de chumbo.
Ele subiu as escadas com passos lentos e firmes. Suas botas emitiam um som de um baque seguido do ranger das tábuas. Austin e Patsy não podiam ouvir os passos se aproximando, seus gemidos e gritos de prazer não permitiam. Patsy cruzou as pernas a fim de manter o corpo de Austin junto do dela, Austin parecia decidido a fazer movimentos fortes e dolorosos. Patsy não reclamaria, eles a muito não tinham uma noite tão inspirada.
Billy e Jenny saíram do cemitério o mais rápido que puderam. Os dois estavam assustados, apavorados. Billy agarrou a mão da amiga e saiu a apresá-la. Jenny tentava acompanhar seu passo, mas nem mesmo conseguia andar, ela precisava parar e respirar ou acabaria vomitando.
_Espera Billy! Espera... _Jenny parou de andar e Billy voltou-se pra ela com irritação.
_Vamos Jenny! Vamos chamar Austin e Patsy e sair logo desta droga de cidade!
_Espera aí Billy, isso é loucura... É só uma lenda urbana. Não é real...
_Não quero nem saber Jenny! Você viu o túmulo! Alguma coisa saiu de dentro daquele túmulo! E o cadáver do xerife estava no escritório dele! O mesmo xerife Counter que aquele velho doente da estrada disse que voltava do inferno pra matar as pessoas!
_Ouça a si mesmo! Não pode ser verdade, Billy!
_Não importa! Quero sair desta cidade. Agora! Eu vou levar o carro do meu pai pra longe daqui e vocês precisam de carona, então todos vem comigo!
_Está bem... Está bem... Vamos buscar os dois...
Ela gemia com cada vez mais prazer, Patsy sabia que estava prestes a chegar ao orgasmo, mas algo a perturbou. Havia um grande pássaro pousado na janela. A ave gigantesca estava observando os dois. Um grande abutre de penas negras e longas garras que o prendiam a madeira da janela.
_Austin... Austin! Para... Tem um pássaro...
_Que pássaro? _Austin olhou pra trás e viu a criatura horrenda pousada na janela. Ele se levantou rapidamente da cama e enrolou-se no lençol. Patsy por sua vez vestiu a camisa de Austin que nela era quase do tamanho de um vestido.
Austin caminhou até a janela e sacudiu o chapéu de cowboy na frente do pássaro como se fosse golpeá-lo. A ave fugiu dando um pio e sumiu das vistas do casal.
_Bem, agora sem mais interrupções. Vamos voltar ao rodeio! _Disse Austin balançando o chapéu acima da cabeça.
O som de um uma arma sendo engatilhada. Austin e Patsy ficam estacados. Confusos, eles olham um para o outro. Patsy percebe então, um homem de sobretudo cinza escuro parado na escuridão do quarto. O estranho tinha uma estrela brilhante e dourada presa a roupa com a inscrição “xerife”, bem a altura do peito, esta estrela destacava-se na escuridão por seu brilho e estranhamente, estava posicionada invertida, de cabeça para baixo. Não lhes restaram dúvidas de que se tratava do cadáver do xerife, que agora caminhava e ameaçava. Apontava uma pistola para Austin. Ao virar-se, Austin viu o louco que estendeu a outra mão como se pedisse algo.
_Oh, oi amigo? Hã? Eu não sabia que você morava aqui... O que quer? O chapéu? _Assustado, Austin entrega o chapéu ao estranho. Tentava se enganar de que era só um velho, mas sabia quem ele era. A mão magra e cadavérica agarra o chapéu e o coloca na cabeça, ele da um passo a frente, seus olhos ficam encobertos pela sombra da aba do chapéu. Seu rosto torna-se visível. Um rosto magro e retorcido. Abaixo do bigode desgrenhado, um sorriso de dentes amarelados e estranhamente mais pontiagudos que o normal. A carne aparentemente decomposta empesteia o quarto com o cheiro de podridão. Das órbitas no crânio, nariz e entre os dentes amarelos um exército de vermes começa a marchar para fora, gotejando e fugindo pelo chão a fora.
Patsy grita desesperada e foge do quarto, ela rola escada abaixo e machucada começa a mancar para longe do pesadelo. Austin ainda sob a mira do monstro permanece parado e com as mãos para cima.
_Hey cara... Por favor... Não me mate... Eu to implorando... _Austin começou a chorar. Ele cobria seu sexo com as mãos, uma estranha e desnecessária timidez. O monstro começou a abaixar a arma e isso devolveu a esperança aos olhos de Austin, mas apenas até ele perceber que ele não havia baixado a arma e sim apontado para o meio das pernas do rapaz. Antes que Austin pudesse implorar novamente o monstro sádico atirou.
Um disparo. Um estrondo rápido de pólvora queimando e explodindo, um projétil de chumbo rasgando o ar e a carne de Austin. As mãos são perfuradas pela bala. Sangue e dois dedos decepados caem no tapete do quarto sem emitir som algum. O pênis do rapaz é destruído pelo disparo, torna-se nada além de carne estraçalhada que respinga junto com a grande quantidade de sangue por toda parte. Austin tenta gritar para desabafar a profunda dor que sentira, mas seus pulmões não têm ar para emitir nenhum som além do choramingar quase inaudível.
O xerife sorri satisfeito. Ele caminha até Austin que se ajoelhara no chão. Agarra o garoto colocando a mão dentro da boca do rapaz. Segurando a mandíbula do pobre menino ele sai a arrastá-lo para fora. Desce as escadas sem se importar com o bem estar de sua vítima e o solta do lado de fora. Austin permanece em posição fetal, chorando, rezando, tendo como companheiro apenas a sua dor.
O xerife retira outra arma e aponta ambas para Austin. O sorriso macabro ainda está lá no cadáver. Austin percebe que ele faz um gesto com as armas para que ele se levante. Lutando contra a dor, ele obedece a ordem. O xerife atira novamente, desta vez atingi o chão bem perto do pé de Austin, que salta pra trás pra não ser atingido. O xerife sorri novamente. Ele começa a repetir os disparos no chão obrigando o jovem a praticar uma estranha e bizarra dança para não ser atingido. Quando os disparos cessam, Austin fita o xerife morto-vivo, não estava mais sorrindo.
Ao longe Jenny e Billy puderam ouvir os muitos disparos. Dezenas de tiros sendo disparados sem parar. Um tiroteio alto e ensurdecedor. Depois dos disparos, tudo ficou em absoluto silêncio.
_Deus... Foram tiros?
Nos minutos seguintes os jovens fizeram uma nova caminhada entre as sinistras casas abandonadas. Mais uma vez se encerravam em um mórbido e perturbador silêncio. Silêncio que foi quebrado quando avistaram Patsy. Assim que ela viu os amigos partiu em direção a eles. Ela saltou sobre Jenny e deu-lhe um forte abraço. Chorando e soluçando ela não conseguia contar o que havia acontecido. Balbuciava coisas incompreensíveis sobre o xerife e Austin estar morto. Jenny e Billy chegaram à conclusão de que era melhor partir imediatamente, mas não sem encontrar Austin. Havia uma chance de Austin estar vivo e de qualquer forma, eles precisariam ir ao albergue para pegar o carro.
O xerife Counter arrastou o corpo que colocara dentro do lençol com apenas uma mão. Enquanto arrastava o corpo de Austin o lençol branco ficava vermelho, tingindo em grande velocidade com os sangramentos. Dentro do lençol, o corpo mais parecia um punhado de lixo. Não se detectava os traços da fisionomia humana, não havia volume de braços, pernas ou cabeça. Havia apenas uma massa triturada e esquartejada, talvez pelos tiros ou pelas mãos do monstro.
Ele abriu a cela número 1 da cadeia da delegacia de Deep Hollow. Lá dentro, ele despejou tudo que sobrou do jovem Austin Miles. Braços e pernas divididos em pelo menos cinco pedaços cada, nenhum corte, tudo quebrado a mão. Nacos de carne que parecem ter sido rasgados por mãos extremamente fortes. Órgãos internos espalhados pelo chão, as vísceras se enroscando em todos os outros, como se as tripas tivessem sido usadas para amarrar um no outro.
Faminto, levou sua mão até estes órgãos e arrancou do cacho feito com as tripas um fígado escuro e sangrento. O velho xerife morto-vivo mordeu o fígado como se fosse um fruto. Ao mastigar o mesmo acabou deixando escapar parte daquele suco viçoso entre seus lábios e através de feridas abertas em suas bochechas, alguns vermes começaram a cair da boca asquerosa, misturados aquela massa. Mastigou até parecer ter certeza que tinha feito uma boa escolha e voltou a comer o resto do delicioso órgão.
_Ele atirou nos pneus! Maldição! O desgraçado atirou no pneus! _Billy estava furioso. Tudo o que eles queriam era ir embora. Principalmente depois de encontrar o que poderia ser um pedaço de Austin no meio da rua. Quatro pneus furados, o xerife fez questão de atirar em todos os pneus do carro.
_Você tem estepe?
_Sim Jenny... Eu tenho estepe! Mas tenho UM estepe! Ele atirou em quatro rodas! Nós vamos morrer aqui! Vamos todos morrer! _Billy gritava enquanto caminhava de um lado para o outro. Patsy acabou chorando agarrada em Jenny.
_Billy, calma! Temos que ficar calmos! Se pensarmos direito, nós vamos conseguir sair daqui! Mas temos que ficar juntos e pensar direito, ok? _Ela sabia que se não tomasse as rédeas da situação todos iriam à loucura, então foi o que Jenny fez, tomou as rédeas da situação.
_Certo. Vamos pensar Billy. Não podemos mais usar o carro do seu pai e precisamos sair daqui. Tem as viaturas que vimos perto da delegacia... Pareciam em bom estado, talvez se levarmos gasolina nós possamos...
_Você ficou maluca?! Jenny! Foi o xerife zumbi que fez isso! Foi ele que matou o Austin! E nós vamos roubar carros na delegacia? Na delegacia dele?!
_Eu sei que é arriscado, mas viu como estão os outros carros da cidade, as viaturas são as únicas que parecem estar em condições de rodar...
_Podemos andar... Se aquele velho maluco que nos mandou pra esse inferno pôde... Nós também podemos... Vamos ir andando pra casa...
_Billy... Sabe quantos quilômetros faltam pra próxima cidade? Billy... Precisamos dos carros... Precisamos roubar uma viatura...
_Ele atirou no Austin... _Patsy sussurrou as palavras delirantes com lágrimas escorrendo o rosto. _Ele atirou um monte de vezes... Fez ele em pedacinhos com as balas... Depois arrancou mais pedaços... Eu vi... Eu me escondi e assisti o Austin ser esquartejado...
Jenny olhou pra Billy com seriedade. O rapaz entendeu o recado e tentou se controlar.
_Certo... Vamos pegar um pouco de gasolina do carro do meu pai... E o que mais for útil... _Disse Billy em voz baixa e forçando-se a manter a calma, viu que estava recebendo um sorriso de Jenny como resposta. _Nós vamos pegar um carro, por nossas coisas, gasolina se precisar... E ir embora. Bem rápido.
_Bem rápido. _Respondeu Jenny com tom destemido.
Os três serpentearam em volta da velha viatura de policia, uma única viatura, a outra havia desaparecido. A delegacia parecia um grande mausoléu, velho e decadente. Eles tentaram enxergar dentro da construção decrépita, mas com as luzes apagadas era impossível.
Billy colocou no chão o grande galão cheio com o combustível que tirou do carro do pai. Jenny se adiantou um pouco mais para averiguar se o xerife não estava por perto. Os três jovens ficavam encolhidos, abaixados atrás da viatura, como pequenos animais acuados por um predador.
_Jenny, eu vou entrar no carro e ver se funciona. _Sussurrou Billy.
_Mas e se ele estiver lá dentro?! Vai nos ouvir! _Patsy exclamou aflita.
_Fiquem quietos. Eu vou até lá ver se tem algum sinal dele. Enquanto isso você prepara o carro, Billy.
_Ficou louca menina?! Vai lá dentro? E se ele estiver te esperando?
_Olha, eu não acho que ele esteja lá dentro, e pode haver armas pra podermos usar.
Billy ficou assustado, Jenny odiava armas, devia estar realmente apavorada para recorrer e este método de defesa.
_O que te faz pensar que ele não está lá dentro?
_Um dos carros sumiu. Justo o carro do xerife! É óbvio que a viatura não saiu daqui sozinha!
_Que seja! Não importa! Mesmo que esteja certa... Que arma pode matar um maldito xerife morto-vivo...
Foi então que Billy se deu conta do que acabara de dizer. Jenny sorriu ao perceber que finalmente se fez entender. Havia sim uma arma capaz de matar o xerife Counter. O velho na estrada lhes havia confessado em seus delírios. Claro que era só uma hipótese incerta. Algo dito por um mendigo bêbado na beira da estrada, mas a esta altura, qualquer centelha de esperança de sobrevivência era bem vinda.
_A espingarda de cano duplo...
_Que tem um cano mais curto do que o outro.
_Certo Jenny, vai logo. Quando eu conseguir ligar o carro, eu buzino, grito ou sei lá...
_Eu já volto.
Jenny entrou na delegacia em passos lentos e cautelosos, examinando cada centímetro daquele lugar assustador. Conforme passeava pelos corredores, ela se convencia cada vez mais de que o xerife não estava ali. Finalmente, ela entrou na sala do xerife.
_Onde está esta maldita arma... _Sussurrou para si mesma enquanto revirava armários e gavetas.
A mesa do xerife estava forrada com jornais. Jornais amarelados pelo tempo, antes não estavam ali, era como se o próprio xerife tivesse estendido todos os papéis daquela forma. Se tinha sido o zumbi a ter colocado os jornais lá... Jenny percebeu o “por que”.
Os jornais estavam organizados em ordem de datas, todos eram de vinte anos atrás e todos eram manchetes sobre o xerife Counter.
“TAXA DE CRIMINALIDADE CAI DRASTICAMENTE EM DEEP HOLLOW. Xerife Counter afirma: Eu limpo esta cidade em três tempos, basta fazer uso da pena de morte.”
“HAROLD COUNTER: HERÓI OU AMEAÇA? Xerife Counter é acusado de maus tratos aos detentos e de fazer uso abusivo de sua autoridade.”
“XERIFE PODE SER AFASTADO DO CARGO. Harold Counter pode perder o emprego devido a sua má conduta, o povo afirma estar farto de sua violência.”
“ASSASSINATO DESNECESSÁRIO. Hoje o xerife Counter atirou e matou três suspeitos de roubo sem motivo aparente. A cidade chora as mortes e exige que o xerife pague pelo crime.”
“XERIFE VOLTA A MATAR. Harold Counter é suspeito do assassinato de cinco jovens que teriam pichado os muros da delegacia de polícia de Deep Hollow.
“CHACINA NA CADEIA. O xerife Harold Counter assumiu a responsabilidade pelo massacre de todos os detentos da delegacia de Deep Hollow. ‘Alguém tinha que fazer’, disse o xerife aos jornais.”
“A NOITE DO XERIFE. Hoje à noite, o xerife Harold Counter foi morto com um tiro de espingarda nas costas, o assassino foi o próprio irmão de Harold, Henry Counter. ‘Alguém tinha que fazer’, disse Henry aos jornais.
Só então Jenny percebeu. A foto de Henry Counter. O irmão do xerife era o velho que haviam visto na estrada.
Ela se apressou para sair e contar a Billy, mas antes de sair da sala do xerife foi surpreendida pelo som de uma forte explosão vindo de fora da delegacia. Quando estava quase na saída ela trombou com Patsy que vinha em sua direção.
_O que houve Patsy?!
_O abutre! Eu vi o abutre! Ele tava olhando o Billy!
Ela não devia ter voltado.
Minutos antes.
Billy já havia constatado que o carro podia funcionar. Agora ele se concentrava em virar o galão de gasolina para encher o tanque da viatura, no entanto Patsy era deveras, muito irritante.
_pela última vez, Patsy. Eu não ouvi nada.
_Mas quando eu perguntei antes você disse que não sabia...
_Isso foi nas quinze primeiras vezes, por que eu estava com medo, mas agora estou irritado demais pra me borrar.
_Mas eu sei que estou ouvindo passos... Billy... Vamos embora...
_Se você calar sua matraca e me deixar colocar a gasolina em paz, sim, nós vamos embora.
_Você não acha que a Jenny está demorando? Devíamos ver se ela está bem...
_ótimo. Vai ver se ela está bem, se ela achou a arma ou sei lá... Qualquer coisa...
Patsy pareceu aborrecida. Magoada. Ela saiu caminhando, rápida e chorosa para dentro da delegacia. No caminho ela quase gritou por ter visto o horrível abutre negro pousado em cima do telhado. O pássaro sinistro estava observando Billy. Ela correu para encontrar logo Jenny. Billy ficou sozinho.
O galão ainda estava na metade e Billy ainda não conseguia manter firme devido ao peso. Nunca foi dotado de braços muito fortes mesmo. Enquanto se esforçava para não deixar o recipiente da gasolina cair, ele percebeu um brilho avermelhado em torno de si.
_Mas que merda é essa?
Billy viu que a luz vermelha provinha da viatura do xerife que vinha se aproximando lentamente dele. Ele ficou imobilizado pelo pavor, assistiu aquela viatura parar a uns quinze metros de distância e uma mão muito magra e retorcida sair pela janela, trazendo consigo uma arma de fogo. O xerife atirou só uma vez. O tiro não acertou Billy, nem acertou o galão de gasolina, nem mesmo o tanque da viatura. O tiro acertou em cheio o porta malas do carro, este, estava cheio de garrafas com combustível extra, caso acabasse o do veículo. O próprio Counter havia colocado lá.
Uma forte explosão. Pedaços da viatura voam por toda parte, fogo se expandindo e carbonizando tudo a volta. Billy foi tomado pelas chamas e ficou correndo de um lado pro outro, ele gritava enquanto seu corpo continuava a dançar na forma de uma bola de fogo.
Quando Jenny e Patsy chegaram do lado de fora, as chamas haviam tomado a frente da delegacia. Billy corria com o corpo totalmente tomado por chamas, mas um tiro certeiro em sua cabeça o fez parar. O xerife atravessou as chamas sem problema algum. A criatura escura e mal cheirosa avançou na direção das meninas com arma em punho. Antes de fugir para dentro de novo, Jenny viu a espingarda de um cano mais curto que o outro, presa por um coldre nas costas do monstro.
As duas correram dentro da delegacia em total desespero, atrás delas, uma rajada de balas era disparada a esmo pelo monstro pistoleiro. Os tiros pareciam não ter a intenção de acertar, atingiam o teto e alguns objetos dentro da delegacia, causando grande estardalhaço, mas felizmente nenhum disparo as atingiu.
Patsy soluçava em um choro medonho, Jenny logo a arrastou para um esconderijo. As duas entraram na ala das celas de cadeia. Dentro de uma das celas, elas se encolheram num canto e Jenny jogou um pesado e sujo pano em cima delas.
Logo elas ouviram o som de passos se aproximando. Jenny precisou quase enforcar Patsy para ela não emitir nenhum som, pois duas grandes baratas, que estavam no lençol velho, estavam agora caminhando pelo corpo das pobres meninas.
O som dos passos se afastou e só então, Jenny deixou os lábios de Patsy livres, ela se controlou e não deixou seu choro ser alto.
_Patsy, escute com atenção... _Jenny segurou o rosto da amiga com delicadeza, Patsy pareceu mais calma com isso.
_Eu estou... Ouvindo...
_Patsy, nós temos que pegar a arma dele...
_O quê?!
_Temos que pegar a espingarda que está nas costas dele. É a única coisa que pode matá-lo.
_Mas isso, quem disse... Foi aquele velho maluco... E se...
_É nossa única esperança, entendeu? É nossa única chance de sairmos daqui vivas. Então vamos fazer o seguinte...
O plano foi arquitetado.
O abutre não sabia o que fazer. Ele tentava bicar o corpo de Billy jogado no chão, mas ainda estava muito quente para a ave nojenta. A besta alada não teve escolha, desistiu de comer o garoto esturricado e olhou para a direção da delegacia. Esperando.
_COUNTER! _O grito de Jenny foi alto e valente.
É claro que o xerife Harold Counter ouviu. Quando a criatura vestida de homem da lei voltou aos corredores das celas, deparou-se com Jenny parada do outro lado do vasto corredor, que era cercado pelas várias divisões.
_Olá xerife Counter. Você me quer? Venha até aqui e faça essa sua versão distorcida e nojenta de justiça. _Disse desafiadora.
O xerife caminhou lentamente pelo corredor da prisão. Ele passou entre várias barras de ferro enegrecido de gaiolas que já prenderam todos os tipos de monstros. Sacou suas armas de fogo e as estendeu com os braços abertos, batendo as pistolas metálicas nas grades. O som das batidas o acompanhou enquanto ele marchava para cima da menina.
_Você é patético Counter. Lei e ordem? Servir e proteger? Você é uma vergonha... Senhor “Texas ranger”...
Ela não sabia se os deboches o irritavam, de fato. Ele era inexpressivo, seu rosto putrefato era composto por um olhar vago e cruel, bigode áspero e uma expressão forte e mal humorada. Às vezes um verme percorria-lhe a face.
_Eu não tenho medo de você.
Enquanto ela falava, via aquela figura se aproximar cada vez mais. Movia-se como um doente, fraco e lento. Algumas vezes, no entanto, ele exibia agilidade e destreza incomparáveis, movendo-se rápido e com eximia precisão. Atrás dele, Patsy saiu de baixo do lençol imundo e se esgueirou por traz da besta, seguindo, cada vez mais de perto, os passos do xerife.
O xerife parou, ficou frente a frente com Jenny. Um batalhão de vermes marchou da boca do morto-vivo, passando entre os dentes que se abriam num rosnar. Não era possível ver os olhos do xerife, apenas uma escuridão vagava por suas órbitas. Jenny sentiu o calafrio da morte, percorrendo sua espinha. Ela tentou continuar provocando, mas já começava a gaguejar de temor.
_E-eu... Eu... Não t-tenho... Não tenho... Medo...
Patsy aproximou-se silenciosamente e estendeu a mão para pegar a espingarda nas costas do xerife. Faltava pouco agora. Jenny se recompôs, engoliu seco e revigorou sua veia teatral.
_Isso mesmo seu monstro nojento! Eu não tenho medo de você. A melhor coisa que seu irmão fez, foi meter uma bala nas suas costas!
O xerife se virou repentinamente e agarrou o braço de Patsy. A menina deu um grito ensurdecedor. Ele sacou a espingarda das costas e firmou o cano no rosto da jovem, como se oferecesse o que ela tanto queria, a arma. Jenny gritou algo incompreensível e pulou nas costas do monstro. Por mais que sacudisse e se debatesse, o xerife não soltava o braço de Patsy e muito menos a espingarda.
_DEIXA ELA EM PAZ! LARGA ELA! LARGA ELA!
_JENNY! POR FAVOR! EU NÃO QUERO MORRER! JENNY ME AJUDA! ME AJUDA!
Batendo as costas numa das grades da prisão, o xerife consegue derrubar Jenny de cima dele. Aturdida, a garota tenta se levantar sem muito êxito. Jenny viu o xerife virar Patsy de costas com um solavanco, torceu o braço da pobrezinha e forçou-a a inclinar o corpo para frente, o rosto de Patsy quase tocando os joelhos. A camisa que Patsy vestia, apesar de ser de Austin, portanto grande para ela, não pôde esconder mais seu corpo nu. Por um segundo, Jenny achou que o xerife zumbi queria estuprar sua amiga, mas não foi o que aconteceu. O xerife, num golpe forte e rápido, desprovido de piedade alguma, enfiou quase todo o cano da espingarda no ânus de Patsy. O grito de horror mais medonho que Jenny já ouvira na vida.
_Oh Deus... Por que... Porque estamos sendo castigados assim?
É claro que o cano da arma era grande demais para o pequeno orifício de Patsy, lógico que a espingarda teve que abrir caminho rasgando o corpo da menina. O xerife Counter olhou para Jenny e finalmente revelou ter expressões, abrindo seu demoníaco sorriso.
Ela estava em prantos, mas o choro de Patsy se calou quando o xerife puxou o gatilho e a calibre 12 explodiu o ventre da menina de dentro pra fora, automaticamente matando Patsy Jones.
Jenny fugiu o mais rápido que pôde.
Saindo da delegacia, ela temeu ser alcançada, mas ainda assim não olhou para trás. Avançou por cima das brasas resultantes da explosão do carro e parou um segundo quando viu o corpo de Billy coberto de queimaduras de terceiro grau, ali jogado e com o grande abutre montado em cima, arrancando pequenos nacos de carne. Em fim ela chegou à viatura do xerife, ao verificar, constatou sua salvação, as chaves estavam na ignição. O carro roncou e levantou poeira, enquanto a jovem fugia pelas ruas. Ela ouviu alguns disparos de arma de fogo, um até acertou o vidro traseiro, o partindo em vários pequenos diamantes vitrais, mas ela continuou. Ela escapou. Isso é que importava.
Jennifer Twaine, a careta, deu o ar de sua graça, para os outros só o fato dela ter decidido ir, já era um favor. Jenny sempre foi a chata, a estraga festa, a certinha... Mas eles nunca haviam se separado por muito tempo, os quatro eram amigos desde crianças. Isso significava muito pra eles.
O xerife Counter matou as pessoas a quem ela mais amava, quem mais lhe compreendia, mas ela escapou. Isso é que importava.
Porque Jenny odeia armas?
Seis anos atrás, os quatro amigos tinham o costume de ir para a casa de Jenny quando seus pais viajavam. Eles bebiam um pouco de cada uma das bebidas do senhor Twaine, apenas uma quantidade da qual ele não fosse dar falta, fumavam um baseado ou dois e ás vezes quando a grana dava, faziam um chá de cogumelos. Naquela noite, eles estavam com grana.
Depois de estarem todos sob os efeitos de diversos tipos de alucinógenos e entorpecentes, loucos por encontrar uma forma de “curtir sua onda”... Encontraram a arma do senhor Twaine... Eles brincaram um pouco com ela e até aí tudo estava bem, então Jenny decidiu que queria vê-la disparar.
Eles foram para o quintal e escolheram um alvo, era um pássaro bem grande que pousara na grande árvore nos fundos da casa, nem sabiam se era mesmo um pássaro. Felizmente os Twaine chegaram antes de acontecer qualquer acidente.
Eles tiveram uma discussão feia e Jenny chegou a apontar a arma para a mãe, claro que não queria ameaçá-la, foi um gesto natural, como se apontasse um dedo. A mãe de Jenny não compreendeu isso, ela lhe tomou a arma e aquele pareceu o fim da amizade entre mãe e filha. Minutos depois daquela briga, a mãe de Jenny cometeu suicídio. Colocou a arma dentro da boca e puxou o gatilho.
A filha naturalmente se culpou, graças a seu comportamento deplorável, sua mãe estava morta, só havia uma coisa justa a fazer em tal situação... Jenny precisava se matar também.
Foi justamente no dia em que Jenny pôs a arma na boca e decidiu puxar o gatilho que ela descobriu o verdadeiro valor da amizade. Seus amigos foram até ela e lhe explicaram tudo...
A mãe de Jenny não havia cometido suicídio, havia sido um acidente.
Afinal, como poderia a mãe de Jenny querer morrer? Ela amava Jenny e ainda não havia visto tudo... Ela nunca havia visto sua querida Jennifer vestida para o baile de formatura, nunca tinha tomado sorvete de goiabada com queijo com ela, nunca tinha levado ela a Disneyland, nunca lhe comprara um carro, nunca fumara um baseado com ela, nunca se despedira dela...
E francamente... Como uma mãe poderia desejar a morte quando tem uma filha que morreria pela tristeza de perdê-la?
Por mais que toda e qualquer evidência dissesse o contrário, Jenny ficou convencida... Sua mãe não cometera suicídio, fora um acidente...
Jenny decidiu continuar vivendo. Eternamente grata aos seus amigos... Seus irmãos...
O xerife Counter matou as pessoas a quem ela mais amava, quem mais lhe compreendia, mas ela escapou. Isso é que importava.
Não.
Jenny fez o carro derrapar e rodopiar enquanto dava meia volta. O carro voltou ainda mais rápido do que partira. Logo ela avistou a delegacia de novo, logo ela viu o xerife. Ele estava entrando na delegacia, mas percebeu sua viatura de luzes vermelhas rotatórias se aproximando de volta. O xerife voltou para o meio da rua com largas passadas e retirou suas armas de fogo dos coldres na cintura. Ele atirou várias vezes, mas apenas os vidros eram estilhaçados, quando um pneu furou e o capô foi esburacado, causando graves danos ao motor... Já era tarde demais.
O carro atingiu o xerife Counter em cheio. O atropelamento cruel lançou o velho cadáver de distintivo por cima da viatura violentamente. Em seguida o carro derrapou violentamente, até que acabou capotando, Jenny achou que era o fim, o carro virando como um brinquedo, rolando e quicando independente de seu peso, sacudindo o corpo da menina para os lados com força terrível. Devia ter colocado o cinto.
O xerife ergueu a cabeça como se nada tivesse acontecido. Jenny se arrastou para fora do carro e viu a espingarda de um cano mais curto que o outro, a arma estava jogada bem diante de si. Ainda estava encharcada com o sangue e as fezes de Patsy. Ela segurou a arma com sua mão fraca, sorrindo. O xerife agarrou a mão da garota. Havia se arrastado até ela rapidamente, como um lagarto. Jenny firmou a mão, não soltaria a arma antes de morrer, ela rolou pelo chão com o xerife como se os dois fossem tomados por poderosos extintos de sobrevivência, ensandecidos, lutando por suas vidas. Seria isso? Counter estava rosnando e guinchando como um animal e se debatendo como uma criança porque sentiu sua existência ameaçada? Então a arma era de fato a resposta. A espingarda que o matou uma vez, o mataria de novo.
Jenny estava perdendo, o monstro estava em cima dela e rosnava bem em sua face, vermes brancos e gordos começaram a chover da boca morta e cair sobre o rosto da menina. Ela gritou de nojo em profunda aversão, mas não soltou a arma, pelo contrário, ela encontrou o gatilho.
Um disparo alto e estrondoso lançou o xerife ao ar e em seguida, este caiu ao chão, inerte.
Jenny olhou para o xerife morto. Seu corpo imóvel agora tinha um grande buraco que passava do peito às costas, deste buraco saía uma fumaça clara e fedida. Do cano da arma, saía a mesma fumaça. Do rosto de Jenny, um sorriso cansado.
O xerife se levantou lentamente. Jenny não podia acreditar. Talvez não tivesse acertado o lugar certo. O monstro ficou de pé e começou a caminhar na direção dela. A guerreira valente voltou a atirar, o disparo atingiu o exato meio do peito da besta. O buraco ficou ainda maior, mas o xerife não se deteve, ele continuou avançando na direção da garota. Ela puxou o gatilho novamente, mas desta vez não houve disparo, apenas um “clic” que indicava que a munição acabou.
A menina começou a chorar. O xerife finalmente ficou próximo o bastante para torcer o pescoço da garota, mas não o fez. Ajoelhada, ela olha para ele de baixo. Há um sorriso maquiavélico estampado na carne putrefata de sua face aterrorizante. Ele retira algo do bolso, deixa cair no chão e Jenny ouvi um som metálico. Uma bala, uma bala de espingarda. Ele lhe deu munição para a espingarda.
Jenny segurou a bala pesada por um curto período de tempo. Ela evitou a visão nefasta do Xerife Counter. Aprendeu como abrir a arma e colocou a bala lá dentro. Engatilhou e olhou para o monstro, ele fez que sim com a cabeça, movendo maquiavelicamente para cima e para baixo. Continuou sorrindo como o próprio satanás, se deliciando com o momento.
Ela baixou o rosto e colocou o cano da arma na boca, o cano da espingarda ainda estava encharcado com o sangue e as fezes de Patsy, mas Jenny colocou na boca, assim mesmo. Ela pôde ouvir o som do próprio batimento cardíaco pelos últimos segundos de vida que lhe restavam.
Por um momento, ela pensou porque não havia feito aquilo à seis anos.
Jenny puxou o gatilho.
...
O xerife Counter passeou pelo solo árido e poeirento do texas. Ele caminhou até a entrada da cidade e parou a beira da estrada. O sol havia acabado de nascer, mas já estava quente e escaldante e por isso os vermes de seu corpo se escondiam em suas entranhas. Ele cuspiu uma substância pegajosa e escura no chão e olhou para os dois lados da estrada. Parecia analisar, como se estivesse pensando se seria uma boa idéia partir, encontrar nossos lugares para... Viver... E matar...
Ele se virou e caminhou lentamente até o letreiro da entrada da cidade.
Depois das várias correções, incluindo a que os jovens visitantes haviam feito, o letreiro dizia: “Deep Hollow, população: 5”.
O xerife Harold Counter arranhou a inscrição com as próprias unhas e riscou bem abaixo, escreveu em arranhões fortes que esfolavam seus dedos.
“Deep Hollow, população: 120 habitantes
Deep Hollow, população: 119 habitantes
Deep Hollow, população: 120 habitantes
Deep Hollow, população: 1 habitante
Deep Hollow, população: 5 habitantes
Deep Hollow, população: 1 habitante”
O xerife voltou a olhar para a estrada, a estrela dourada de ponta cabeça brilhou, refletindo a luz do sol, ele pareceu novamente pesar suas opções... E para nossa sorte, decidiu voltar para sua Deep Hollow. Deixando apenas o aviso no letreiro, para quem soubesse o que quer dizer.
Um habitante. Esta era a população de Deep Hollow. E mesmo que novos viajantes chegassem, este número iria prevalecer. Um habitante. Apenas o xerife Harold Counter.
O abutre pousou sobre o letreiro de madeira e recolheu suas asas negras e medonhas. Ele ergueu a cabeça ameaçadoramente e observou o horizonte, com seu olfato próprio para rastrear carne morta, mas eficaz em outros odores, ele sentiu a aproximação de comida. Um carro vinha tranqüilo pela estrada. Seria outra noite farta.
FIM.
“Ninguém tem maior amor do que este: De dar alguém a sua vida pelos seus amigos.” _Jesus Cristo. Bíblia sagrada, João 15:13
“Eu acredito que tudo que não te mata, te deixa mais estranho.” _Coringa. Batman -The dark knight.
A lenda de Harold Counter.
_O maldito conseguiu me acertar... Acertou o tiro no lugar que ele sabia que me mataria mais devagar... Maldito...
O carro cortava as estradas do deserto escaldante em rítimo acelerado. A estrada se estendia em linha reta até o horizonte. A visibilidade era parcialmente prejudicada pela poeira, que entre certos intervalos de tempo, era soprada pelo vento, cobrindo a área de visão dos jovens aventureiros por períodos de perigosos segundos. Quatro jovens barulhentos quebravam o silêncio da árida paisagem do Texas.
Ha um mês a viagem era apenas uma idéia, finalmente os quatro amigos decidiram que estavam prontos para esta aventura. Billy Nelson, o nerd, ficou encarregado de pegar o carro do pai emprestado, ninguém acreditou quando ele disse que conseguiu. Austin Miles, o rei da popularidade no colégio, garantiu que conseguiria dinheiro para qualquer emergência, ele era quem mais queria fazer esta viagem e nunca disse como arranjou a grana, mas o pai de Austin era rico o bastante para sustentar o filho na faculdade e nas loucuras, era óbvio. Patsy Jones, a mentirosa, conseguiu convencer o pai de Jenny que não haveria garotos na viagem. Jennifer Twaine, a careta, deu o ar de sua graça, para os outros só o fato dela ter decidido ir, já era um favor. Jenny sempre foi “a chata”, a estraga festa, a certinha... Mas eles nunca haviam se separado por muito tempo, os quatro eram amigos desde crianças. Isso significava muito pra eles.
Tinham o dinheiro, o transporte, à vontade e a loucura para passar uma semana longe de casa nos confins de um vasto deserto repleto de paradas em cidadezinhas monótonas. Claro que não era bem este o plano, eles estavam atrás de algo que julgavam ser realmente emocionante e exótico. Procuravam uma das famosas cidades fantasmas texanas...
Texas, a estrela solitária dos estados. Sem duvida uma boa opção para viajantes que buscam hospitalidade. 22 milhões de habitantes gentis e de boa índole, e uma população crescendo rapidamente devido à imigração, o Texas possui mais habitantes do que qualquer outro Estado americano, com exceção da Califórnia. Uma excelente escolha para quem queira viajar para fazer novos amigos, até mesmo a palavra Texas deriva de Tejas, uma palavra indígena que significa "amigos”. Claro que como em qualquer parte do mundo, é preciso ser um bom e respeitoso visitante e ir aos lugares certos... E definitivamente eles estavam procurando o lugar errado.
No rádio uma canção monótona incomodava os passageiros inquietos.
_Oh não! Música country, não! Desligue Billy! _Jennifer Twaine estava sentada no banco do carona, gostava de sentir o vento no rosto quando colocava a cabeça pela janela, além disso, não querida atrapalhar o casal namorando no banco de trás.
_Ora, vamos Jenny! Vamos entrar no clima do interior. _Billy Nelson não conseguia evitar, sempre que olhava para Jenny acabava perdendo o olhar no decote da camisa. Para quem nem sempre tem o hábito de dirigir, isso poderia ser perigoso... Mas ele não podia evitar, sempre havia um botão aberto naquela camisa.
_Perdeu alguma coisa aqui, Billy?
_Oh Não! Desculpe... Eu só…
_Só estava olhando pros meus peitos... Tudo bem. Esqueça… _Jenny ajeitou o chapéu de cowboy do qual seus longos cabelos negros escorriam. Um presente de seu pai. O velho insistia que ela tinha que caracterizar-se... E ele conseguiu. A camisa branca com o jeans, tudo bem. Até mesmo as botas podiam se confundir com a moda atual, mas o chapéu fez tudo parecer parte de uma perfeita fantasia de “cowgirl”.
_Não sei por que esta olhando pra mim Billy. Não com este show erótico aí no banco de traz...
Billy olhou pelo retrovisor e viu Austin e Patsy se enroscando no banco de traz, um tentando ficar em cima do outro, a mão de Austin em baixo da saia dela, aparentemente massageando as nádegas da garota.
_Oh nossa! Vocês querem que paremos num motel para ficarem mais a vontade ou vão fazer aí mesmo?
_Pra mim... Aqui está ótimo... _Disse Patsy olhando nos olhos do namorado da forma mais sensual que conseguia.
_Você ouviu esquisitão, tente não passar sobre pedras e buracos na estrada. Já vai ficar muito turbulento aqui. _Ao dizer isso, o sujeito de cabelos curtos e porte atlético arrancou a calcinha da namorada por baixo da saia e jogou para os bancos da frente. Billy não conseguia evitar, estava quase babando. O rapaz tentou afrouxar a gola da camisa inutilmente. Jenny suspirou e desviou o olhar com desdém, deixou seu rosto recebendo o vento pela janela, aproveitando enquanto não aparecia uma nuvem de poeira.
_Cara... Como isto está molhado... _disse Billy pegando a calcinha que caíra perto dos pedais do veículo. Ao fazer isso precisou abaixar-se e nem mesmo notou que se aproximava perigosamente de alguém que caminhava no encostamento da estrada.
_Billy! Cuidado! _Jenny gritou tão alto quanto pôde.
O carro derrapou e acabou parando fora da estrada. Uma nuvem de poeira encobriu todo o veículo. Dentro do carro Patsy gritava e chorava, Austin tentava calar a moça, mas ela estava em choque.
_Qual é seu problema Billy?! Catando calcinhas em vez de dirigir! Idiota!_Jenny saiu do carro em meio à poeira para encontrar o quase atropelado.
_Hey! Pega leve! Não havia ninguém na estrada por quilômetros!
_Então tudo bem se atropelar alguém agora, não é?!
Jenny ignorou Billy e continuou a procurar o viajante. Logo pode avistá-lo, um homem velho com roupas esfarrapadas e uma grande mochila de viagem nas costas. Ele parecia cansado, mas determinado em avançar em seu caminho. Usava também um chapéu que escondia a expressão exausta e o olhar vago.
_Desculpe senhor... O senhor está bem? _a garota pareceu preocupada.
Austin e os demais desceram do carro e começaram a se aproximar, mas pareciam hesitantes e assustados, especialmente Patsy que ficava atrás de Austin o tempo todo.
_Senhor... Está me ouvindo?
O velho viajante ignorou a menina e continuou caminhando sem se preocupar com o fato de quase ter sido atropelado.
_Senhor... Nós quase o atropelamos...
_Dá um tempo Jenny! Ele nem percebeu! _Gritou Austin irritado.
_Ele é louco... Ou está completamente bêbado... Deixa ele ir e vamos embora, ninguém atropelou ninguém mesmo! _gritou Patsy de traz do namorado.
_Mas podíamos ter atropelado! Temos que fazer alguma coisa! _Jenny voltou para o velho e percebeu que ele havia parado e agora olhava fixamente para ela.
_Vocês estão indo para alguma cidade? Preciso de carona, tem merda em minhas calças.
_Oh não! Nada de caronas! Ouviu o que ele disse! O cara se borrou todo! Nem o conhecemos e está sujo! _disse Patsy.
_Agente nunca conhece caroneiros de estrada Patsy, ninguém conhece, por isso precisam de carona. _Billy cruzou os braços e olhou o velho com um profundo nojo, para não dizer medo. _mas concordo sobre a bosta. Não vou enfiar esse velho cagado no carro do meu pai.
_Senhor... Vamos visitar um ponto turístico, uma cidade fantasma, mas podemos levá-lo a uma cidade antes, se quiser. _disse Jenny com tom cortês.
_Hey Jenny, não faça promessas em nome de todos!
_Vocês estão indo para Deep Hollow? _o velho sussurrou as duas palavras como se apenas a pronúncia pudesse levar as almas de todos para o inferno.
_Isso mesmo senhor! Estamos indo para Deep Hollow. Poderia nos ajudar... Estamos no caminho certo?
_Eu não chamaria de “o caminho certo” dona. Eu acabo de passar por lá e não volto para aqueles lados nem morto, fodido e arrastado... E vocês também não deviam ir... Tem estórias sobre aquelas bandas que fariam vocês todos se mijarem de medo.
_Ótimo. _disse Austin se aproximando. Patsy o acompanhava, agarrada a manga de sua camisa. Billy vinha mais atrás com um olhar desconfiado. _estamos procurando justamente estas estórias. O senhor poderia contar?
_Escute aqui seu saco volumoso e pesado cheio de estrume de vaca... Eu não deveria perder meu tempo com um bando de veadinhos de merda e vadiazinhas de estrada como vocês, mas eu vou contar por dois motivos... O primeiro é por que vocês têm que saber o que tem naquela porra de lugar...
_E o segundo, senhor simpatia? _disse Austin com deboche.
_O segundo eu conto depois. Agora cale essa sua boca imunda e preste bastante atenção verme. Deep Hollow é a próxima cidade que vão encontrar a frente, na placa vão ver um letreiro velho e quebrado que diz “Deep Hollow, 120 habitantes”...
_Mas não é uma cidade fantasma?
_E você já ouviu falar de uma cidade fantasma onde nunca viveu ninguém, seu bosta? Pra ter fantasma, tem que ter tido gente... E em Deep Hollow tinha 120 habitantes...
_Legal. E daí?
_O número de habitantes foi riscado e um 119 foi escrito em cima...
_Sinal de que alguém morreu.
_ Mas não é tudo... Este 119 também foi riscado... O número 120 foi recolocado.
_E por que isso? _perguntou Jenny que parecia começar a se interessar pela estória.
_Depois parece este novo número 120 foi novamente riscado e o número 1 foi posto no lugar...
_Isso quer dizer...
_Quer dizer que um habitante morreu. Depois um novo habitante tomou seu lugar e este... Ele matou todos os outros... Ficando sozinho.
_Legal, um serial killer do Texas! Espero que diga que ele matou todos com uma serra elétrica! _Disse Billy animado.
Austin começou a rir e imitar um maníaco com uma serra elétrica imaginária nas mãos, fazendo o que ele julgava ser o convincente imitar do som de uma moto-serra. _Reeenenenenenenene...
_Tiros seus moleques idiotas. Ele matou todos com tiros.
_Tiros?! Que comum...
_Não havia nada de comum naquela chacina... O homem que morreu em Deep Hollow e o novo habitante que matou todos... são a mesma pessoa. _ele recitou aquelas palavras como se estivesse tentando torturar os quatro jovens.
_A mesma pessoa? Quer dizer que foi um pistoleiro zumbi?! Um cowboy morto-vivo?! Isso é demais! _exclamou Austin.
_”The ghost rider”! Finalmente a estória ficou boa! _Billy agora imitava um pistoleiro usando os dedos como armas, ele e Austin estavam se divertindo, mas Patsy estava apavorada e Jenny estava séria, um olhar acusador para ambos. O velho por usa vez, também parecia extremamente irritado. Um olhar mordaz por traz da sombra do chapéu parecia tentar fulminar os jovens tolos.
_Quem era esse pistoleiro? Qual era o nome dele? _perguntou Austin entre seus risos.
_O nome dele é Counter... Harold Counter...
_Harold Counter. _repetiu Jenny para si mesma.
_Harold Counter saiu do seu tumulo e matou cada homem, mulher, velho e criança daquele lugar. Dizem que ele era odiado por toda cidade e armaram uma cilada para ele. No dia da morte, Harold foi atingido pelas costas com uma espingarda de calibre 12, não teve chance de sobreviver. Ninguém achou que Harold fosse voltar do inferno para se vingar de cada filho da mãe daquela pocilga.
_Quando isso aconteceu?
_Uns vinte anos atrás...
_Apavorante.
_Não moça. Apavorante é o fato de que Harold Counter ainda está lá.
_Como assim?
_ Se vocês vão até lá, precisam saber... Só tem um jeito de matar o monstro de verdade... É com a arma que o mataram da primeira vez... A espingarda de cano duplo que arrebentou as costas dele... Ela é inconfundível, tem um dos canos mais curto que o outro...
_Vamos nos lembrar disso “senhor calças cheias”. _disse Austin antes de rir compulsivamente.
_Hey, qual era seu outro motivo pra nos contar isso? Disse que eram dois motivos... _Billy fez a pergunta sem esboçar sorriso algum. Para ele a graça da brincadeira havia acabado no momento em que ele começou a sentir medo.
_Esqueça...
Depois de dizer isso o velho pareceu voltar a seu estado de delírio. Ele saiu a caminhar e ignorou os jovens completamente. Apesar de tudo, decidiram que iriam para Deep Hollow. Ninguém percebera que o velho estava ferido. O ferimento a bala continuou sangrando dentro das vestes pesadas, o velho não caminhou mais muito tempo e acabou caindo à beira da estrada.
_Bando de maricas fodidos, Piranhas nojentas... Vocês vão todos morrer... Este é segundo motivo seu cretininhos... Gente como vocês... Merece morrer... E o xerife Counter vai matar cada um de vocês...
O velho Henry Counter sangrou até a lenta e dolorosa morte.
Deep Hollow.
_Isto é Deep Hollow? Achei que era uma cidade do velho oeste…
_Não seja ridículo Billy. Ele disse que a estória era de vinte anos atrás...
_Verdade...
Um arbusto seco rolou pelo quarteto decepcionado. A cidade de Deep Hollow era tão parecida com qualquer outra cidade quanto possível. A única coisa que surpreendia os jovens era que a cidade era extremamente pequena. Poucas ruas com casas comuns, apenas alguns prédios com no máximo cinco andares. A maioria das ruas era pavimentada, com exceção de algumas poucas de uma área da cidade onde tudo parecia inacabado.
A placa de que o velho na estrada havia falado estava lá. Dizia exatamente como ele contara ao grupo. Os números da população riscados e corrigidos. Agora o letreiro dizia “Deep Hollow, 1 habitante”.
_Hey, vejam a tal placa! _Disse Austin apontando para o letreiro. _O velho não mentiu.
_Olha isso... _Jenny passou a mão no letreiro como se examinasse sua veracidade. _ Aqui diz que ainda tem um habitante...
_É. Harold Couuuuunteeeeerrrrr... _Austin começou a imitar um zumbi. Billy e Patsy não resistiram e riram da piada. Jenny permaneceu séria.
_Qualé Jenny... Não esquenta com aquela estória, ta? _Billy sacou um canivete suíço e começou a riscar o letreiro.
_O que você ta fazendo?!
_Calma garota. Só estou fazendo uma pequena correção. _Ele fez seus últimos reparos e mostrou triunfante aos amigos. _Pronto!
O letreiro agora dizia “Deep Hollow, 5 habitantes”.
_Por que cinco? _Perguntou Patsy com curiosidade.
_Nós quatro... E nosso querido Harold Counter. _Billy sorria enquanto guardava seu canivete.
Os quatro passearam pela cidade deserta ainda dentro do carro. Casas vazias com portas e janelas abertas. Carros abandonados no meio das ruas. Marcas visíveis de acidentes de trânsito e arrombamentos. Brinquedos e roupas espalhados, objetos pessoais diversos. Marcas de sangue em quase tudo.
Austin passou por uma velha pensão com um letreiro sujo e enferrujado. O letreiro dizia “Albergue. Temos vagas”. Austin começou a rir e apontou seu dedo para a placa.
_Vejam isso pessoal. Eles têm vagas! Como se algum lugar aqui não tivesse vagas!
_Podemos passar a noite ali! Ainda deve ter camas macias! _Billy recebeu um olhar repreensivo das duas moças.
_Nem morta eu durmo nesse pulgueiro! _Patsy abraçou Austin buscando seu apoio, mas ele não discordou de Billy.
_Hey boneca! Onde quer dormir? No carro?!
_Bem… Eu…
_ É uma ótima idéia dormir no albergue. Depois nós voltamos aqui. Agora vamos dar uma olhada naquela área inacabada.
Casas não embolsadas, sem pintura e sem portas ou janelas. Um bairro inteiro sem acabamento. Nenhum sinal de que alguém tivesse morado naquelas residências, mas havia algo que chamava atenção. A delegacia era a única construção que tinha certo acabamento. Não havia pintura, mas sinais de que chegou a funcionar. Dois velhos carros patrulha estavam estacionados na frente da delegacia, ambos pintados de preto e branco e com uma luz vermelha em cima do capô. Um tinha a inscrição “xerife” dentro de uma estrela nas portas dianteiras.
_Vamos dar uma olhada... Esta delegacia deve ter alguma coisa legal... _Austin pareceu animado, Billy demonstrou compartilhar de sua empolgação.
_Podem ter distintivos! Talvez uniformes... Legal...
_Armas! _Exclamou Austin para o amigo, Porém, ele houvera dito uma besteira.
_Hey! Nada de armas! Viemos pra nos divertir, não para nos matar, OK?!_Jenny pareceu extremamente irritada. Austin parou o carro e ela foi a primeira a descer. Assim que Jenny saiu, Austin recebeu um tapa de Patsy bem no meio da nuca.
_Idiota! _Disse a garota com a voz rosnada.
_Não falei por mal, gente... Nem pensei...
_Da próxima pense seu babaca! _Billy perdeu repentinamente seu senso de humor. Fitou Jenny se distanciar do carro se contornando com os próprios braços como se sentisse frio. _Estúpido, esqueceu que foi uma maldita arma que matou a mãe dela?! Esqueceu como aconteceu?!
_Não cara, não esqueci... Só não pensei que ela fosse se importar... Não queria chatear ela!
Os dois olharam Austin com escárnio. Depois de censurá-lo mais um pouco, todos desceram do carro. Enquanto Austin e Patsy entraram na delegacia, cujas portas estavam escancaradas, Billy foi até Jenny e acabou conseguindo convencer a garota a deixar a besteira de Austin de lado. Todos acabaram se encontrando dentro da delegacia.
Corredores que davam em celas vazias. Salas empoeiradas e folhas de papel e documentos amarelados espalhados por toda parte. Banheiros que eles não conseguiram abrir devido ao forte cheiro pútrido que escapava até pelas frestas da porta.
_ Venham ver o que encontrei! Vocês vão adorar isso aqui! _A voz de Austin vinha da sala do xerife. Já haviam passado por ali, mas como a porta estava trancada, eles ignoraram a mesma. Agora Patsy, Billy e Jenny seguiam a voz do amigo até a sala escura.
_O que foi Austin? _Foi então que Jenny viu. _MEU DEUS! QUE COISA HORRÍVEL!
Patsy e Billy entraram logo atrás dela e também viram a abominável figura sentada na cadeira do xerife. Um cadáver de um homem alto e magro. Parecia ser um velho com bigodes ásperos que escondiam os lábios decompostos. Um uniforme marrom indicava que se tratava de um policial. A estrela dourada de cinco pontas terminadas em pequenas esferas indicava que se tratava do xerife da cidade. O corpo estava despojado na cadeira como se tivesse dormido ali antes de morrer.
_O que é isso? _Perguntou Jenny cobrindo a boca com uma das mãos.
_Um cadáver... Um xerife cadáver... _Austin não fora bem sucedido na piada. O clima ficara repentinamente pesado, assustador. As meninas caminhavam lentamente dentro da sala escura. Apenas Austin parecia se divertir com o achado.
_Céus... É assustador... Será que todas as casas têm cadáveres?
_Talvez Patsy... O tal do Harold Counter matou todo mundo, não é?
_Isso é besteira... Não acredito que você acreditou naquela estória, Austin.
_Então do que ele morreu, “Jenny sabe tudo”?
_Não sei... Mas não tem ferimento de bala alguma. O que me diz disso?
_Bah! Está escuro... Deve estar em algum lugar...
_Vai procurar?
_Quando eu tiver comigo minhas luvas especiais de mexer em corpos putrefatos... Ai sim, talvez.
A mesa do falecido xerife estava bagunçada. Papéis antigos cobriam quase toda, além de alguns utensílios de escritório, como canetas e grampeadores. Havia também uma garrafa de tequila fechada com uma rolha e havia um copo de vidro ao seu lado, ainda sobre a mesa estava uma arma de fogo, uma pistola prateada suja e enferrujada.
Ao perceber a arma Jenny assumiu uma expressão séria. Ela aproximou-se calmamente e pegou a pistola com a ponta dos dedos, como se sentisse nojo da peça. Billy fixou seu olhar na mesa naquele momento, por algum motivo ficou preocupado, felizmente ninguém percebera. Jenny moveu sua mão com leveza e delicadeza, levou a arma até fora do alcance da mesa e deixou cair dentro da lata de lixo do escritório do xerife.
_Vamos dar o fora daqui...
_Jenny?! Não vamos nem tirar uma foto com ele?
_Austin, eu vou fingir que nem escutei essa merda que você falou.
_Pessoal? _Austin estava determinado, ficou mostrando a todos sua câmera. Todos o ignoraram e saíram da sala. Desistindo ele acabou saindo apressadamente, tanto que acabou derrubando um cabide de casacos com alguns sobretudos velhos e surrados. Austin olhou pra todos com uma feição marota ao pegar do chão um chapéu de abas largas e colocar na cabeça.
_Austin. Deixe isso aí. _Jenny usara novamente seu tom imperativo, mas desta vez não fora ouvida.
_Ora, vamos Jenny! É só um chapéu! O “Texas ranger” ali não vai mais precisar!
Jenny não respondeu. Apenas saiu caminhando em passos largos para fora da delegacia, seguida bem de perto por Patsy que não via mais a hora de sair daquele lugar macabro. Austin, vitorioso, saiu com seu chapéu de cowboy, mas antes de deixar a sala Billy lhe parou com um olhar sério.
_Você também vai encrencar por causa do meu novo chapéu?!
_Dane-se o chapéu cara... Não percebeu nada estranho?
_O quê?
_Quando a Jenny tirou a arma da mesa...
_Se você disser que o cadáver se moveu, eu chuto sua bunda cara!
_Cala a boca Austin! Tinha poeira em baixo da arma!
_O quê?
_Presta atenção. _Irritado Billy retira o copo de cima da mesa e mostra ao estúpido amigo que há um circulo exatamente do tamanho da base do copo, onde não havia poeira alguma. _Entendeu? Não era pra ter poeira onde estava a arma também… Mas se você der uma boa olhada… Tem.
_O que cê quer dizer com isso cara?
_Que a arma foi colocada ali recentemente...
Quando o sol se pôs naquele horizonte vasto e árido fora da cidade, os garotos presenciaram a lenta queda do astro nas montanhas e areia do deserto. O céu ficou tingido de tons gradientes de vermelho sangue e laranja vívidos. Este espetáculo natural não durou muito tempo, logo a noite havia caído sobre o crepúsculo com seu manto escuro. O céu negro salpicado com pontos brilhantes tão numerosos quanto possível, uma meia lua com o corpo branco brilhante tomado de sombras em metade de seu corpo. Uma linda noite. Decididamente linda.
Austin e Patsy foram ao albergue para procurar quartos que estivessem em condições de servi-los de repouso e outras atividades menos tranqüilas. Jenny e Billy saíram para uma caminhada ao luar, passavam pela cidade agora escura.
As casas de portas e janelas abertas ficavam realmente apavorantes à noite. Dentro das residências só se podia ver um breu completo, era inevitável a estranha sensação de que se houvesse alguém observando de dentro daquelas casas, este alguém estaria completamente oculto pelas trevas.
_Este lugar é apavorante... Eu não devia ter vindo... _Sussurrou Jenny para o amigo.
_Jenny... Não fica assim. Olha, se você não viesse, não teria a mesma graça.
_Não teria a mesma graça Billy? Eu só reclamo o tempo todo e fico cortando o barato de vocês...
_Não me venha com essa. Você corta o barato de Austin, mas alguém tem que fazer isso! O barato dele sempre nos mete em encrenca!
_É verdade... Lembra quando nós fomos ao aquário em Nova York?
_Se me lembro?! O Austin cismou que queria ver o tubarão comendo alguma coisa e tentou levar o poodle da Patsy pro maldito jantar!
_E o segurança pegou agente justo quando ele jogou o coitadinho na água... A patsy ficou furiosa!
_Achei que eles iam terminar naquele dia!
_Ainda bem que era o tanque das focas. O cãozinho nadou e latiu junto com os bichos, foi uma guerra para tirá-lo de lá depois.
Os dois começaram a rir com suas lembranças. O clima pareceu melhorar repentinamente. Enquanto caminhavam, suas risadas ecoaram pelas casas vazias, o eco que resultava destes risos dava a impressão de que alguém ria de dentro das casas. Assim que os dois perceberam este estranho fenômeno pareceram perder a graça de suas piadas, ficaram sérios novamente. Assustados.
_Você acha melhor nós voltarmos pro albergue?
_Eu não sei de você Jenny, mas eu não vou conseguir dormir com o barulho que aqueles dois vão fazer à noite...
_Tem razão... Quando eles fazem... Bem, parece que estão se matando.
_É... Você não tem curiosidade de...
_Hey! O que é aquilo?
Jenny caminhou em passos mais rápidos, nem percebeu que havia deixado Billy como uma expressão tola enquanto percebia que sua cantada fora deveras muito fraca. A garota foi seguida pelo derrotado até o que parecia ser um vasto cemitério. Lápides se estendiam por toda uma área. Um muro não terminado, com falhas de vários metros de comprimento, se estendia em torno do cemitério.
_Legal, um cemitério. _Disse Billy se aproximando com os olhos cheios de curiosidade. _Vamos dar uma olhada?
_Eu não sei...
_Ora, vamos! Só tem gente morta aí? O que podem fazer?!
_Tudo bem... Vamos dar uma olhada...
No albergue, Austin e Patsy estavam mais uma vez em sua frenética batalha para decidir quem fica por cima. Os dois já estavam completamente nus e se entrelaçavam de uma forma que era difícil dizer onde começava um e onde terminava outro. A cama do albergue não era a mais limpa do mundo, mas o lençol branco que eles haviam forrado sobre o coxão marrom acinzentado parecia melhorar as coisas.
_Austin, Austin... Eu estou com medo...
_O quê?! Medo de quê?! Não me venha com essas desculpas...
_Não é isso... Esse lugar dá medo... Não consigo me concentrar...
_Vamos fazer o seguinte... Feche os olhos e deixe-me fazer o resto... Garanto que em cinco minutos você vai estar com tanto tesão que nem vai ligar pra essa cidade fantasma idiota!
_Hummm... Vou querer ver isso... _Patsy fechou seu olhos ansiosa pelo que estava por vir, ela esfregou as pernas uma na outra sentindo a antecipação do que Austin faria.
Repentinamente, Patsy sentiu Austin agarrá-la pela cintura e erguer seu corpo para colocá-la de quatro, mãos e joelhos na cama, ela sorriu sabendo o que aconteceria, mas não foi exatamente o que ela esperava. Austin montou na garota, mas não como ela esperava, ele sentou em suas costas, ergueu o chapéu de cowboy que saqueou do velho xerife cadáver e começou a balançar o mesmo, gritando e sacudindo como se fosse um peão de rodeios em seu cavalo arisco.
_Yee-Haa! _Gritou Austin em sua patética fantasia. Patsy assumiu uma expressão de surpresa, não era apenas estranho, era ridículo. Embora Austin achasse aquilo muito excitante, Patsy havia acabado de se tornar frigida.
Enquanto isso, Jenny e Billy estavam prestes a descobrir um segredo.
O cemitério estava em ruínas. A falta de manutenção do lugar lhe dera um aspecto decadente. Jenny e Billy passaram entre túmulos e algumas velhas árvores desfolhadas.
_”Elizabeth Newman”... “Amada esposa e mãe”. O que diz esta aí? _Disse Billy apontando para a lápide ao lado de Jenny.
_”Simon Rogers”... “Descanse em paz”... Puxa, que original... _Jenny sorrira. O s dois estavam fazendo aquilo há alguns minutos, já haviam lido dezesseis lápides. Era a vez de Billy.
_”Eric Tools”... “Querido por todos”… Sei o que quer dizer. É tudo extremamente clichê... Previsível... Nenhuma destas lápides tem frases interessantes.
_Parece que é de propósito. É como se ninguém se importasse muito com essas pessoas...
_Ou suas famílias não tinham muita criatividade, não é? Veja esta aqui, Jenny. “Amanda Muller, uma boa pessoa”. Uma boa pessoa?! Por favor!
Um som muito peculiar se ouviu naquele momento. Era o pio baixo e sinistro de uma ave que estava pousada sobre o galho de árvore. A árvore seca e retorcida estava completamente desprovida de folhas, galhos se estendiam aos céus como mãos munidas de garras, mãos que tentam agarrar alguma coisa. A ave era grande e negra. Suas patas se agarravam ao galho e suas asas eram eriçadas acima da cabeça, um pescoço torto terminado numa cabeça disforme e um bico curvo e afiado.
_Olha só... Um abutre! Não é louco? Que enorme...
Os dois se aproximaram um pouco mais. A ave mal se moveu, parecia estar empalhada. Apenas ficou imóvel e fitando seus visitantes.
_Esta esperando nós morrermos... _Disse Billy observando o pássaro monstruoso.
_O quê? Como assim?
_Eles fazem isso, sabe? Ficam espreitando e esperando viajantes e alguns animais no deserto serem mortos pelas condições do clima, falta de água ou comida... Depois pousam nas carcaças e comem a carniça...
_Nós não estamos num deserto... Estamos na cidade. Não é possível que ele ache que nós vamos morrer...
_Bom, ele espera que nós morramos... Daí ele nos almoça...
_Isso é nojento... Bom, a menos que ele ou outra pessoa nos mate... Vai ficar com fome.
Jenny observou que abaixo da arvore retorcida havia mais um túmulo. Uma lápide um pouco maior e mais adornada nas extremidades. Tinha entalhado na superfície cinza e escura uma estrela de cinco pontas terminada em pequenas esferas, exatamente como o brasão que viram na delegacia, símbolo da força policial da cidade.
_Meu Deus. _Jenny foi tomada por um grande pavor. A lápide tinha uma inscrição que a deixou terrificada.
_O que foi? _Billy não teve resposta. Ela apenas continuou olhando para a lápide de pedra com aquele olhar estupefato. Billy foi até ela e observou a inscrição.
“Aqui jaz
Xerife Harold Counter
O gatilho mais rápido de Deep Hollow
E o braço de ferro impiedoso da lei”
Billy pareceu congelado agora. Seu rosto imitou o de Jenny, um medo irracional do que deveria ser uma tola estória de terror, um devaneio de um velho viajante que por acaso esbarrou neles na estrada.
_Harold Counter. É o nome da estória daquele velho... Não é Billy?
_É sim...
_Ele não disse que Counter era o xerife da cidade...
_Não Jenny, ele não disse...
_Billy... Se têm um túmulo para o xerife... Por que o corpo dele estava na delegacia?
_Bem... Ele é um bom policial...
_Por que ta dizendo isso?
_Bom Jenny... Ele não descansa em serviço... _Billy apontou para frente da lápide. Havia um buraco grande e escuro para o fundo do tumulo. A terra não se espalhava para os lados, apenas para dentro do buraco. Era como se tivesse sido feito de dentro pra fora.
_Não descansa em serviço?
_É... Ele... Voltou ao trabalho...
Um repentino bater de asas assustou Jenny e Billy. O abutre alçou vôo e pousou sobre a lápide do xerife. Soltou um pio alto e voltou a ficar imóvel. Permaneceu a observar atentamente os dois jovens. Esperando pacientemente por sua próxima refeição.
Tempestade de chumbo.
Ele subiu as escadas com passos lentos e firmes. Suas botas emitiam um som de um baque seguido do ranger das tábuas. Austin e Patsy não podiam ouvir os passos se aproximando, seus gemidos e gritos de prazer não permitiam. Patsy cruzou as pernas a fim de manter o corpo de Austin junto do dela, Austin parecia decidido a fazer movimentos fortes e dolorosos. Patsy não reclamaria, eles a muito não tinham uma noite tão inspirada.
Billy e Jenny saíram do cemitério o mais rápido que puderam. Os dois estavam assustados, apavorados. Billy agarrou a mão da amiga e saiu a apresá-la. Jenny tentava acompanhar seu passo, mas nem mesmo conseguia andar, ela precisava parar e respirar ou acabaria vomitando.
_Espera Billy! Espera... _Jenny parou de andar e Billy voltou-se pra ela com irritação.
_Vamos Jenny! Vamos chamar Austin e Patsy e sair logo desta droga de cidade!
_Espera aí Billy, isso é loucura... É só uma lenda urbana. Não é real...
_Não quero nem saber Jenny! Você viu o túmulo! Alguma coisa saiu de dentro daquele túmulo! E o cadáver do xerife estava no escritório dele! O mesmo xerife Counter que aquele velho doente da estrada disse que voltava do inferno pra matar as pessoas!
_Ouça a si mesmo! Não pode ser verdade, Billy!
_Não importa! Quero sair desta cidade. Agora! Eu vou levar o carro do meu pai pra longe daqui e vocês precisam de carona, então todos vem comigo!
_Está bem... Está bem... Vamos buscar os dois...
Ela gemia com cada vez mais prazer, Patsy sabia que estava prestes a chegar ao orgasmo, mas algo a perturbou. Havia um grande pássaro pousado na janela. A ave gigantesca estava observando os dois. Um grande abutre de penas negras e longas garras que o prendiam a madeira da janela.
_Austin... Austin! Para... Tem um pássaro...
_Que pássaro? _Austin olhou pra trás e viu a criatura horrenda pousada na janela. Ele se levantou rapidamente da cama e enrolou-se no lençol. Patsy por sua vez vestiu a camisa de Austin que nela era quase do tamanho de um vestido.
Austin caminhou até a janela e sacudiu o chapéu de cowboy na frente do pássaro como se fosse golpeá-lo. A ave fugiu dando um pio e sumiu das vistas do casal.
_Bem, agora sem mais interrupções. Vamos voltar ao rodeio! _Disse Austin balançando o chapéu acima da cabeça.
O som de um uma arma sendo engatilhada. Austin e Patsy ficam estacados. Confusos, eles olham um para o outro. Patsy percebe então, um homem de sobretudo cinza escuro parado na escuridão do quarto. O estranho tinha uma estrela brilhante e dourada presa a roupa com a inscrição “xerife”, bem a altura do peito, esta estrela destacava-se na escuridão por seu brilho e estranhamente, estava posicionada invertida, de cabeça para baixo. Não lhes restaram dúvidas de que se tratava do cadáver do xerife, que agora caminhava e ameaçava. Apontava uma pistola para Austin. Ao virar-se, Austin viu o louco que estendeu a outra mão como se pedisse algo.
_Oh, oi amigo? Hã? Eu não sabia que você morava aqui... O que quer? O chapéu? _Assustado, Austin entrega o chapéu ao estranho. Tentava se enganar de que era só um velho, mas sabia quem ele era. A mão magra e cadavérica agarra o chapéu e o coloca na cabeça, ele da um passo a frente, seus olhos ficam encobertos pela sombra da aba do chapéu. Seu rosto torna-se visível. Um rosto magro e retorcido. Abaixo do bigode desgrenhado, um sorriso de dentes amarelados e estranhamente mais pontiagudos que o normal. A carne aparentemente decomposta empesteia o quarto com o cheiro de podridão. Das órbitas no crânio, nariz e entre os dentes amarelos um exército de vermes começa a marchar para fora, gotejando e fugindo pelo chão a fora.
Patsy grita desesperada e foge do quarto, ela rola escada abaixo e machucada começa a mancar para longe do pesadelo. Austin ainda sob a mira do monstro permanece parado e com as mãos para cima.
_Hey cara... Por favor... Não me mate... Eu to implorando... _Austin começou a chorar. Ele cobria seu sexo com as mãos, uma estranha e desnecessária timidez. O monstro começou a abaixar a arma e isso devolveu a esperança aos olhos de Austin, mas apenas até ele perceber que ele não havia baixado a arma e sim apontado para o meio das pernas do rapaz. Antes que Austin pudesse implorar novamente o monstro sádico atirou.
Um disparo. Um estrondo rápido de pólvora queimando e explodindo, um projétil de chumbo rasgando o ar e a carne de Austin. As mãos são perfuradas pela bala. Sangue e dois dedos decepados caem no tapete do quarto sem emitir som algum. O pênis do rapaz é destruído pelo disparo, torna-se nada além de carne estraçalhada que respinga junto com a grande quantidade de sangue por toda parte. Austin tenta gritar para desabafar a profunda dor que sentira, mas seus pulmões não têm ar para emitir nenhum som além do choramingar quase inaudível.
O xerife sorri satisfeito. Ele caminha até Austin que se ajoelhara no chão. Agarra o garoto colocando a mão dentro da boca do rapaz. Segurando a mandíbula do pobre menino ele sai a arrastá-lo para fora. Desce as escadas sem se importar com o bem estar de sua vítima e o solta do lado de fora. Austin permanece em posição fetal, chorando, rezando, tendo como companheiro apenas a sua dor.
O xerife retira outra arma e aponta ambas para Austin. O sorriso macabro ainda está lá no cadáver. Austin percebe que ele faz um gesto com as armas para que ele se levante. Lutando contra a dor, ele obedece a ordem. O xerife atira novamente, desta vez atingi o chão bem perto do pé de Austin, que salta pra trás pra não ser atingido. O xerife sorri novamente. Ele começa a repetir os disparos no chão obrigando o jovem a praticar uma estranha e bizarra dança para não ser atingido. Quando os disparos cessam, Austin fita o xerife morto-vivo, não estava mais sorrindo.
Ao longe Jenny e Billy puderam ouvir os muitos disparos. Dezenas de tiros sendo disparados sem parar. Um tiroteio alto e ensurdecedor. Depois dos disparos, tudo ficou em absoluto silêncio.
_Deus... Foram tiros?
Nos minutos seguintes os jovens fizeram uma nova caminhada entre as sinistras casas abandonadas. Mais uma vez se encerravam em um mórbido e perturbador silêncio. Silêncio que foi quebrado quando avistaram Patsy. Assim que ela viu os amigos partiu em direção a eles. Ela saltou sobre Jenny e deu-lhe um forte abraço. Chorando e soluçando ela não conseguia contar o que havia acontecido. Balbuciava coisas incompreensíveis sobre o xerife e Austin estar morto. Jenny e Billy chegaram à conclusão de que era melhor partir imediatamente, mas não sem encontrar Austin. Havia uma chance de Austin estar vivo e de qualquer forma, eles precisariam ir ao albergue para pegar o carro.
O xerife Counter arrastou o corpo que colocara dentro do lençol com apenas uma mão. Enquanto arrastava o corpo de Austin o lençol branco ficava vermelho, tingindo em grande velocidade com os sangramentos. Dentro do lençol, o corpo mais parecia um punhado de lixo. Não se detectava os traços da fisionomia humana, não havia volume de braços, pernas ou cabeça. Havia apenas uma massa triturada e esquartejada, talvez pelos tiros ou pelas mãos do monstro.
Ele abriu a cela número 1 da cadeia da delegacia de Deep Hollow. Lá dentro, ele despejou tudo que sobrou do jovem Austin Miles. Braços e pernas divididos em pelo menos cinco pedaços cada, nenhum corte, tudo quebrado a mão. Nacos de carne que parecem ter sido rasgados por mãos extremamente fortes. Órgãos internos espalhados pelo chão, as vísceras se enroscando em todos os outros, como se as tripas tivessem sido usadas para amarrar um no outro.
Faminto, levou sua mão até estes órgãos e arrancou do cacho feito com as tripas um fígado escuro e sangrento. O velho xerife morto-vivo mordeu o fígado como se fosse um fruto. Ao mastigar o mesmo acabou deixando escapar parte daquele suco viçoso entre seus lábios e através de feridas abertas em suas bochechas, alguns vermes começaram a cair da boca asquerosa, misturados aquela massa. Mastigou até parecer ter certeza que tinha feito uma boa escolha e voltou a comer o resto do delicioso órgão.
_Ele atirou nos pneus! Maldição! O desgraçado atirou no pneus! _Billy estava furioso. Tudo o que eles queriam era ir embora. Principalmente depois de encontrar o que poderia ser um pedaço de Austin no meio da rua. Quatro pneus furados, o xerife fez questão de atirar em todos os pneus do carro.
_Você tem estepe?
_Sim Jenny... Eu tenho estepe! Mas tenho UM estepe! Ele atirou em quatro rodas! Nós vamos morrer aqui! Vamos todos morrer! _Billy gritava enquanto caminhava de um lado para o outro. Patsy acabou chorando agarrada em Jenny.
_Billy, calma! Temos que ficar calmos! Se pensarmos direito, nós vamos conseguir sair daqui! Mas temos que ficar juntos e pensar direito, ok? _Ela sabia que se não tomasse as rédeas da situação todos iriam à loucura, então foi o que Jenny fez, tomou as rédeas da situação.
_Certo. Vamos pensar Billy. Não podemos mais usar o carro do seu pai e precisamos sair daqui. Tem as viaturas que vimos perto da delegacia... Pareciam em bom estado, talvez se levarmos gasolina nós possamos...
_Você ficou maluca?! Jenny! Foi o xerife zumbi que fez isso! Foi ele que matou o Austin! E nós vamos roubar carros na delegacia? Na delegacia dele?!
_Eu sei que é arriscado, mas viu como estão os outros carros da cidade, as viaturas são as únicas que parecem estar em condições de rodar...
_Podemos andar... Se aquele velho maluco que nos mandou pra esse inferno pôde... Nós também podemos... Vamos ir andando pra casa...
_Billy... Sabe quantos quilômetros faltam pra próxima cidade? Billy... Precisamos dos carros... Precisamos roubar uma viatura...
_Ele atirou no Austin... _Patsy sussurrou as palavras delirantes com lágrimas escorrendo o rosto. _Ele atirou um monte de vezes... Fez ele em pedacinhos com as balas... Depois arrancou mais pedaços... Eu vi... Eu me escondi e assisti o Austin ser esquartejado...
Jenny olhou pra Billy com seriedade. O rapaz entendeu o recado e tentou se controlar.
_Certo... Vamos pegar um pouco de gasolina do carro do meu pai... E o que mais for útil... _Disse Billy em voz baixa e forçando-se a manter a calma, viu que estava recebendo um sorriso de Jenny como resposta. _Nós vamos pegar um carro, por nossas coisas, gasolina se precisar... E ir embora. Bem rápido.
_Bem rápido. _Respondeu Jenny com tom destemido.
Os três serpentearam em volta da velha viatura de policia, uma única viatura, a outra havia desaparecido. A delegacia parecia um grande mausoléu, velho e decadente. Eles tentaram enxergar dentro da construção decrépita, mas com as luzes apagadas era impossível.
Billy colocou no chão o grande galão cheio com o combustível que tirou do carro do pai. Jenny se adiantou um pouco mais para averiguar se o xerife não estava por perto. Os três jovens ficavam encolhidos, abaixados atrás da viatura, como pequenos animais acuados por um predador.
_Jenny, eu vou entrar no carro e ver se funciona. _Sussurrou Billy.
_Mas e se ele estiver lá dentro?! Vai nos ouvir! _Patsy exclamou aflita.
_Fiquem quietos. Eu vou até lá ver se tem algum sinal dele. Enquanto isso você prepara o carro, Billy.
_Ficou louca menina?! Vai lá dentro? E se ele estiver te esperando?
_Olha, eu não acho que ele esteja lá dentro, e pode haver armas pra podermos usar.
Billy ficou assustado, Jenny odiava armas, devia estar realmente apavorada para recorrer e este método de defesa.
_O que te faz pensar que ele não está lá dentro?
_Um dos carros sumiu. Justo o carro do xerife! É óbvio que a viatura não saiu daqui sozinha!
_Que seja! Não importa! Mesmo que esteja certa... Que arma pode matar um maldito xerife morto-vivo...
Foi então que Billy se deu conta do que acabara de dizer. Jenny sorriu ao perceber que finalmente se fez entender. Havia sim uma arma capaz de matar o xerife Counter. O velho na estrada lhes havia confessado em seus delírios. Claro que era só uma hipótese incerta. Algo dito por um mendigo bêbado na beira da estrada, mas a esta altura, qualquer centelha de esperança de sobrevivência era bem vinda.
_A espingarda de cano duplo...
_Que tem um cano mais curto do que o outro.
_Certo Jenny, vai logo. Quando eu conseguir ligar o carro, eu buzino, grito ou sei lá...
_Eu já volto.
Jenny entrou na delegacia em passos lentos e cautelosos, examinando cada centímetro daquele lugar assustador. Conforme passeava pelos corredores, ela se convencia cada vez mais de que o xerife não estava ali. Finalmente, ela entrou na sala do xerife.
_Onde está esta maldita arma... _Sussurrou para si mesma enquanto revirava armários e gavetas.
A mesa do xerife estava forrada com jornais. Jornais amarelados pelo tempo, antes não estavam ali, era como se o próprio xerife tivesse estendido todos os papéis daquela forma. Se tinha sido o zumbi a ter colocado os jornais lá... Jenny percebeu o “por que”.
Os jornais estavam organizados em ordem de datas, todos eram de vinte anos atrás e todos eram manchetes sobre o xerife Counter.
“TAXA DE CRIMINALIDADE CAI DRASTICAMENTE EM DEEP HOLLOW. Xerife Counter afirma: Eu limpo esta cidade em três tempos, basta fazer uso da pena de morte.”
“HAROLD COUNTER: HERÓI OU AMEAÇA? Xerife Counter é acusado de maus tratos aos detentos e de fazer uso abusivo de sua autoridade.”
“XERIFE PODE SER AFASTADO DO CARGO. Harold Counter pode perder o emprego devido a sua má conduta, o povo afirma estar farto de sua violência.”
“ASSASSINATO DESNECESSÁRIO. Hoje o xerife Counter atirou e matou três suspeitos de roubo sem motivo aparente. A cidade chora as mortes e exige que o xerife pague pelo crime.”
“XERIFE VOLTA A MATAR. Harold Counter é suspeito do assassinato de cinco jovens que teriam pichado os muros da delegacia de polícia de Deep Hollow.
“CHACINA NA CADEIA. O xerife Harold Counter assumiu a responsabilidade pelo massacre de todos os detentos da delegacia de Deep Hollow. ‘Alguém tinha que fazer’, disse o xerife aos jornais.”
“A NOITE DO XERIFE. Hoje à noite, o xerife Harold Counter foi morto com um tiro de espingarda nas costas, o assassino foi o próprio irmão de Harold, Henry Counter. ‘Alguém tinha que fazer’, disse Henry aos jornais.
Só então Jenny percebeu. A foto de Henry Counter. O irmão do xerife era o velho que haviam visto na estrada.
Ela se apressou para sair e contar a Billy, mas antes de sair da sala do xerife foi surpreendida pelo som de uma forte explosão vindo de fora da delegacia. Quando estava quase na saída ela trombou com Patsy que vinha em sua direção.
_O que houve Patsy?!
_O abutre! Eu vi o abutre! Ele tava olhando o Billy!
Ela não devia ter voltado.
Minutos antes.
Billy já havia constatado que o carro podia funcionar. Agora ele se concentrava em virar o galão de gasolina para encher o tanque da viatura, no entanto Patsy era deveras, muito irritante.
_pela última vez, Patsy. Eu não ouvi nada.
_Mas quando eu perguntei antes você disse que não sabia...
_Isso foi nas quinze primeiras vezes, por que eu estava com medo, mas agora estou irritado demais pra me borrar.
_Mas eu sei que estou ouvindo passos... Billy... Vamos embora...
_Se você calar sua matraca e me deixar colocar a gasolina em paz, sim, nós vamos embora.
_Você não acha que a Jenny está demorando? Devíamos ver se ela está bem...
_ótimo. Vai ver se ela está bem, se ela achou a arma ou sei lá... Qualquer coisa...
Patsy pareceu aborrecida. Magoada. Ela saiu caminhando, rápida e chorosa para dentro da delegacia. No caminho ela quase gritou por ter visto o horrível abutre negro pousado em cima do telhado. O pássaro sinistro estava observando Billy. Ela correu para encontrar logo Jenny. Billy ficou sozinho.
O galão ainda estava na metade e Billy ainda não conseguia manter firme devido ao peso. Nunca foi dotado de braços muito fortes mesmo. Enquanto se esforçava para não deixar o recipiente da gasolina cair, ele percebeu um brilho avermelhado em torno de si.
_Mas que merda é essa?
Billy viu que a luz vermelha provinha da viatura do xerife que vinha se aproximando lentamente dele. Ele ficou imobilizado pelo pavor, assistiu aquela viatura parar a uns quinze metros de distância e uma mão muito magra e retorcida sair pela janela, trazendo consigo uma arma de fogo. O xerife atirou só uma vez. O tiro não acertou Billy, nem acertou o galão de gasolina, nem mesmo o tanque da viatura. O tiro acertou em cheio o porta malas do carro, este, estava cheio de garrafas com combustível extra, caso acabasse o do veículo. O próprio Counter havia colocado lá.
Uma forte explosão. Pedaços da viatura voam por toda parte, fogo se expandindo e carbonizando tudo a volta. Billy foi tomado pelas chamas e ficou correndo de um lado pro outro, ele gritava enquanto seu corpo continuava a dançar na forma de uma bola de fogo.
Quando Jenny e Patsy chegaram do lado de fora, as chamas haviam tomado a frente da delegacia. Billy corria com o corpo totalmente tomado por chamas, mas um tiro certeiro em sua cabeça o fez parar. O xerife atravessou as chamas sem problema algum. A criatura escura e mal cheirosa avançou na direção das meninas com arma em punho. Antes de fugir para dentro de novo, Jenny viu a espingarda de um cano mais curto que o outro, presa por um coldre nas costas do monstro.
As duas correram dentro da delegacia em total desespero, atrás delas, uma rajada de balas era disparada a esmo pelo monstro pistoleiro. Os tiros pareciam não ter a intenção de acertar, atingiam o teto e alguns objetos dentro da delegacia, causando grande estardalhaço, mas felizmente nenhum disparo as atingiu.
Patsy soluçava em um choro medonho, Jenny logo a arrastou para um esconderijo. As duas entraram na ala das celas de cadeia. Dentro de uma das celas, elas se encolheram num canto e Jenny jogou um pesado e sujo pano em cima delas.
Logo elas ouviram o som de passos se aproximando. Jenny precisou quase enforcar Patsy para ela não emitir nenhum som, pois duas grandes baratas, que estavam no lençol velho, estavam agora caminhando pelo corpo das pobres meninas.
O som dos passos se afastou e só então, Jenny deixou os lábios de Patsy livres, ela se controlou e não deixou seu choro ser alto.
_Patsy, escute com atenção... _Jenny segurou o rosto da amiga com delicadeza, Patsy pareceu mais calma com isso.
_Eu estou... Ouvindo...
_Patsy, nós temos que pegar a arma dele...
_O quê?!
_Temos que pegar a espingarda que está nas costas dele. É a única coisa que pode matá-lo.
_Mas isso, quem disse... Foi aquele velho maluco... E se...
_É nossa única esperança, entendeu? É nossa única chance de sairmos daqui vivas. Então vamos fazer o seguinte...
O plano foi arquitetado.
O abutre não sabia o que fazer. Ele tentava bicar o corpo de Billy jogado no chão, mas ainda estava muito quente para a ave nojenta. A besta alada não teve escolha, desistiu de comer o garoto esturricado e olhou para a direção da delegacia. Esperando.
_COUNTER! _O grito de Jenny foi alto e valente.
É claro que o xerife Harold Counter ouviu. Quando a criatura vestida de homem da lei voltou aos corredores das celas, deparou-se com Jenny parada do outro lado do vasto corredor, que era cercado pelas várias divisões.
_Olá xerife Counter. Você me quer? Venha até aqui e faça essa sua versão distorcida e nojenta de justiça. _Disse desafiadora.
O xerife caminhou lentamente pelo corredor da prisão. Ele passou entre várias barras de ferro enegrecido de gaiolas que já prenderam todos os tipos de monstros. Sacou suas armas de fogo e as estendeu com os braços abertos, batendo as pistolas metálicas nas grades. O som das batidas o acompanhou enquanto ele marchava para cima da menina.
_Você é patético Counter. Lei e ordem? Servir e proteger? Você é uma vergonha... Senhor “Texas ranger”...
Ela não sabia se os deboches o irritavam, de fato. Ele era inexpressivo, seu rosto putrefato era composto por um olhar vago e cruel, bigode áspero e uma expressão forte e mal humorada. Às vezes um verme percorria-lhe a face.
_Eu não tenho medo de você.
Enquanto ela falava, via aquela figura se aproximar cada vez mais. Movia-se como um doente, fraco e lento. Algumas vezes, no entanto, ele exibia agilidade e destreza incomparáveis, movendo-se rápido e com eximia precisão. Atrás dele, Patsy saiu de baixo do lençol imundo e se esgueirou por traz da besta, seguindo, cada vez mais de perto, os passos do xerife.
O xerife parou, ficou frente a frente com Jenny. Um batalhão de vermes marchou da boca do morto-vivo, passando entre os dentes que se abriam num rosnar. Não era possível ver os olhos do xerife, apenas uma escuridão vagava por suas órbitas. Jenny sentiu o calafrio da morte, percorrendo sua espinha. Ela tentou continuar provocando, mas já começava a gaguejar de temor.
_E-eu... Eu... Não t-tenho... Não tenho... Medo...
Patsy aproximou-se silenciosamente e estendeu a mão para pegar a espingarda nas costas do xerife. Faltava pouco agora. Jenny se recompôs, engoliu seco e revigorou sua veia teatral.
_Isso mesmo seu monstro nojento! Eu não tenho medo de você. A melhor coisa que seu irmão fez, foi meter uma bala nas suas costas!
O xerife se virou repentinamente e agarrou o braço de Patsy. A menina deu um grito ensurdecedor. Ele sacou a espingarda das costas e firmou o cano no rosto da jovem, como se oferecesse o que ela tanto queria, a arma. Jenny gritou algo incompreensível e pulou nas costas do monstro. Por mais que sacudisse e se debatesse, o xerife não soltava o braço de Patsy e muito menos a espingarda.
_DEIXA ELA EM PAZ! LARGA ELA! LARGA ELA!
_JENNY! POR FAVOR! EU NÃO QUERO MORRER! JENNY ME AJUDA! ME AJUDA!
Batendo as costas numa das grades da prisão, o xerife consegue derrubar Jenny de cima dele. Aturdida, a garota tenta se levantar sem muito êxito. Jenny viu o xerife virar Patsy de costas com um solavanco, torceu o braço da pobrezinha e forçou-a a inclinar o corpo para frente, o rosto de Patsy quase tocando os joelhos. A camisa que Patsy vestia, apesar de ser de Austin, portanto grande para ela, não pôde esconder mais seu corpo nu. Por um segundo, Jenny achou que o xerife zumbi queria estuprar sua amiga, mas não foi o que aconteceu. O xerife, num golpe forte e rápido, desprovido de piedade alguma, enfiou quase todo o cano da espingarda no ânus de Patsy. O grito de horror mais medonho que Jenny já ouvira na vida.
_Oh Deus... Por que... Porque estamos sendo castigados assim?
É claro que o cano da arma era grande demais para o pequeno orifício de Patsy, lógico que a espingarda teve que abrir caminho rasgando o corpo da menina. O xerife Counter olhou para Jenny e finalmente revelou ter expressões, abrindo seu demoníaco sorriso.
Ela estava em prantos, mas o choro de Patsy se calou quando o xerife puxou o gatilho e a calibre 12 explodiu o ventre da menina de dentro pra fora, automaticamente matando Patsy Jones.
Jenny fugiu o mais rápido que pôde.
Saindo da delegacia, ela temeu ser alcançada, mas ainda assim não olhou para trás. Avançou por cima das brasas resultantes da explosão do carro e parou um segundo quando viu o corpo de Billy coberto de queimaduras de terceiro grau, ali jogado e com o grande abutre montado em cima, arrancando pequenos nacos de carne. Em fim ela chegou à viatura do xerife, ao verificar, constatou sua salvação, as chaves estavam na ignição. O carro roncou e levantou poeira, enquanto a jovem fugia pelas ruas. Ela ouviu alguns disparos de arma de fogo, um até acertou o vidro traseiro, o partindo em vários pequenos diamantes vitrais, mas ela continuou. Ela escapou. Isso é que importava.
Jennifer Twaine, a careta, deu o ar de sua graça, para os outros só o fato dela ter decidido ir, já era um favor. Jenny sempre foi a chata, a estraga festa, a certinha... Mas eles nunca haviam se separado por muito tempo, os quatro eram amigos desde crianças. Isso significava muito pra eles.
O xerife Counter matou as pessoas a quem ela mais amava, quem mais lhe compreendia, mas ela escapou. Isso é que importava.
Porque Jenny odeia armas?
Seis anos atrás, os quatro amigos tinham o costume de ir para a casa de Jenny quando seus pais viajavam. Eles bebiam um pouco de cada uma das bebidas do senhor Twaine, apenas uma quantidade da qual ele não fosse dar falta, fumavam um baseado ou dois e ás vezes quando a grana dava, faziam um chá de cogumelos. Naquela noite, eles estavam com grana.
Depois de estarem todos sob os efeitos de diversos tipos de alucinógenos e entorpecentes, loucos por encontrar uma forma de “curtir sua onda”... Encontraram a arma do senhor Twaine... Eles brincaram um pouco com ela e até aí tudo estava bem, então Jenny decidiu que queria vê-la disparar.
Eles foram para o quintal e escolheram um alvo, era um pássaro bem grande que pousara na grande árvore nos fundos da casa, nem sabiam se era mesmo um pássaro. Felizmente os Twaine chegaram antes de acontecer qualquer acidente.
Eles tiveram uma discussão feia e Jenny chegou a apontar a arma para a mãe, claro que não queria ameaçá-la, foi um gesto natural, como se apontasse um dedo. A mãe de Jenny não compreendeu isso, ela lhe tomou a arma e aquele pareceu o fim da amizade entre mãe e filha. Minutos depois daquela briga, a mãe de Jenny cometeu suicídio. Colocou a arma dentro da boca e puxou o gatilho.
A filha naturalmente se culpou, graças a seu comportamento deplorável, sua mãe estava morta, só havia uma coisa justa a fazer em tal situação... Jenny precisava se matar também.
Foi justamente no dia em que Jenny pôs a arma na boca e decidiu puxar o gatilho que ela descobriu o verdadeiro valor da amizade. Seus amigos foram até ela e lhe explicaram tudo...
A mãe de Jenny não havia cometido suicídio, havia sido um acidente.
Afinal, como poderia a mãe de Jenny querer morrer? Ela amava Jenny e ainda não havia visto tudo... Ela nunca havia visto sua querida Jennifer vestida para o baile de formatura, nunca tinha tomado sorvete de goiabada com queijo com ela, nunca tinha levado ela a Disneyland, nunca lhe comprara um carro, nunca fumara um baseado com ela, nunca se despedira dela...
E francamente... Como uma mãe poderia desejar a morte quando tem uma filha que morreria pela tristeza de perdê-la?
Por mais que toda e qualquer evidência dissesse o contrário, Jenny ficou convencida... Sua mãe não cometera suicídio, fora um acidente...
Jenny decidiu continuar vivendo. Eternamente grata aos seus amigos... Seus irmãos...
O xerife Counter matou as pessoas a quem ela mais amava, quem mais lhe compreendia, mas ela escapou. Isso é que importava.
Não.
Jenny fez o carro derrapar e rodopiar enquanto dava meia volta. O carro voltou ainda mais rápido do que partira. Logo ela avistou a delegacia de novo, logo ela viu o xerife. Ele estava entrando na delegacia, mas percebeu sua viatura de luzes vermelhas rotatórias se aproximando de volta. O xerife voltou para o meio da rua com largas passadas e retirou suas armas de fogo dos coldres na cintura. Ele atirou várias vezes, mas apenas os vidros eram estilhaçados, quando um pneu furou e o capô foi esburacado, causando graves danos ao motor... Já era tarde demais.
O carro atingiu o xerife Counter em cheio. O atropelamento cruel lançou o velho cadáver de distintivo por cima da viatura violentamente. Em seguida o carro derrapou violentamente, até que acabou capotando, Jenny achou que era o fim, o carro virando como um brinquedo, rolando e quicando independente de seu peso, sacudindo o corpo da menina para os lados com força terrível. Devia ter colocado o cinto.
O xerife ergueu a cabeça como se nada tivesse acontecido. Jenny se arrastou para fora do carro e viu a espingarda de um cano mais curto que o outro, a arma estava jogada bem diante de si. Ainda estava encharcada com o sangue e as fezes de Patsy. Ela segurou a arma com sua mão fraca, sorrindo. O xerife agarrou a mão da garota. Havia se arrastado até ela rapidamente, como um lagarto. Jenny firmou a mão, não soltaria a arma antes de morrer, ela rolou pelo chão com o xerife como se os dois fossem tomados por poderosos extintos de sobrevivência, ensandecidos, lutando por suas vidas. Seria isso? Counter estava rosnando e guinchando como um animal e se debatendo como uma criança porque sentiu sua existência ameaçada? Então a arma era de fato a resposta. A espingarda que o matou uma vez, o mataria de novo.
Jenny estava perdendo, o monstro estava em cima dela e rosnava bem em sua face, vermes brancos e gordos começaram a chover da boca morta e cair sobre o rosto da menina. Ela gritou de nojo em profunda aversão, mas não soltou a arma, pelo contrário, ela encontrou o gatilho.
Um disparo alto e estrondoso lançou o xerife ao ar e em seguida, este caiu ao chão, inerte.
Jenny olhou para o xerife morto. Seu corpo imóvel agora tinha um grande buraco que passava do peito às costas, deste buraco saía uma fumaça clara e fedida. Do cano da arma, saía a mesma fumaça. Do rosto de Jenny, um sorriso cansado.
O xerife se levantou lentamente. Jenny não podia acreditar. Talvez não tivesse acertado o lugar certo. O monstro ficou de pé e começou a caminhar na direção dela. A guerreira valente voltou a atirar, o disparo atingiu o exato meio do peito da besta. O buraco ficou ainda maior, mas o xerife não se deteve, ele continuou avançando na direção da garota. Ela puxou o gatilho novamente, mas desta vez não houve disparo, apenas um “clic” que indicava que a munição acabou.
A menina começou a chorar. O xerife finalmente ficou próximo o bastante para torcer o pescoço da garota, mas não o fez. Ajoelhada, ela olha para ele de baixo. Há um sorriso maquiavélico estampado na carne putrefata de sua face aterrorizante. Ele retira algo do bolso, deixa cair no chão e Jenny ouvi um som metálico. Uma bala, uma bala de espingarda. Ele lhe deu munição para a espingarda.
Jenny segurou a bala pesada por um curto período de tempo. Ela evitou a visão nefasta do Xerife Counter. Aprendeu como abrir a arma e colocou a bala lá dentro. Engatilhou e olhou para o monstro, ele fez que sim com a cabeça, movendo maquiavelicamente para cima e para baixo. Continuou sorrindo como o próprio satanás, se deliciando com o momento.
Ela baixou o rosto e colocou o cano da arma na boca, o cano da espingarda ainda estava encharcado com o sangue e as fezes de Patsy, mas Jenny colocou na boca, assim mesmo. Ela pôde ouvir o som do próprio batimento cardíaco pelos últimos segundos de vida que lhe restavam.
Por um momento, ela pensou porque não havia feito aquilo à seis anos.
Jenny puxou o gatilho.
...
O xerife Counter passeou pelo solo árido e poeirento do texas. Ele caminhou até a entrada da cidade e parou a beira da estrada. O sol havia acabado de nascer, mas já estava quente e escaldante e por isso os vermes de seu corpo se escondiam em suas entranhas. Ele cuspiu uma substância pegajosa e escura no chão e olhou para os dois lados da estrada. Parecia analisar, como se estivesse pensando se seria uma boa idéia partir, encontrar nossos lugares para... Viver... E matar...
Ele se virou e caminhou lentamente até o letreiro da entrada da cidade.
Depois das várias correções, incluindo a que os jovens visitantes haviam feito, o letreiro dizia: “Deep Hollow, população: 5”.
O xerife Harold Counter arranhou a inscrição com as próprias unhas e riscou bem abaixo, escreveu em arranhões fortes que esfolavam seus dedos.
“Deep Hollow, população: 120 habitantes
Deep Hollow, população: 119 habitantes
Deep Hollow, população: 120 habitantes
Deep Hollow, população: 1 habitante
Deep Hollow, população: 5 habitantes
Deep Hollow, população: 1 habitante”
O xerife voltou a olhar para a estrada, a estrela dourada de ponta cabeça brilhou, refletindo a luz do sol, ele pareceu novamente pesar suas opções... E para nossa sorte, decidiu voltar para sua Deep Hollow. Deixando apenas o aviso no letreiro, para quem soubesse o que quer dizer.
Um habitante. Esta era a população de Deep Hollow. E mesmo que novos viajantes chegassem, este número iria prevalecer. Um habitante. Apenas o xerife Harold Counter.
O abutre pousou sobre o letreiro de madeira e recolheu suas asas negras e medonhas. Ele ergueu a cabeça ameaçadoramente e observou o horizonte, com seu olfato próprio para rastrear carne morta, mas eficaz em outros odores, ele sentiu a aproximação de comida. Um carro vinha tranqüilo pela estrada. Seria outra noite farta.
FIM.
“Ninguém tem maior amor do que este: De dar alguém a sua vida pelos seus amigos.” _Jesus Cristo. Bíblia sagrada, João 15:13
Assinar:
Postagens (Atom)
