terça-feira, 28 de julho de 2009

Hominis Excidium

"Acredito que logo voltarei ao trabalho e lhe enviarei um pouco mais de tripas." _Trecho de uma suposta carta de Jack o estripador para as autoridades.

O novo estripador.

Um zumbido que parecia vir de uma colméia de abelhas ensandecidas estava se ouvia no rádio. O tenente Dancan Sallaze já tivera problemas com tecnologia antes, Mas em doze anos na policia de Chicago, o rádio o irritara mais que qualquer outro aparelho eletrônico. Dancan nunca foi muito habilidoso, objetos que precisassem de mais que um apertar de botão para funcionar, o deixava irado.
Dancan é um homem na verdade bem simples. Ele nasceu em Chicago, terra dos “bull’s”, é a sua cidade, então ninguém deve fazer mal a ela ou prestará contas a ele. Junto com sua parceira, ele se sentia invencível. Dancan tinha Connely como mais que uma parceira, ela era como uma irmã... Ou prima se considerarmos que ninguém se sente atraído pela própria irmã, e não se sentir atraído por Connely era impossível. Enquanto Dancan assumia o estilo do terno amassado e gravata frouxa, Connely sempre estava perfeita, ela não se esforçava para isso, mas sempre estava perfeita. Desde criança, perfeita.
Eles cresceram em um bairro pobre da cidade. E Dancan nunca reclamou, aprendeu a viver e cresceu para tornar-se um homem, aos onze anos Dancan perdeu os pais num assalto em sua casa, o assassino levara alguns dólares e uma jóia... Um colar... Após o assalto o assassino incendiou a casa... Com os pais de Dancan dentro. Na ocasião Dancan estava numa biblioteca lendo um exemplar de "O Médico e o Monstro", aquilo o fez pensar na maldade humana, na dualidade de bem e mal, sentiu-se como um Jekyll viciado no soro que o tornaria Hyde, mas tivesse esquecido onde deixou a droga milagrosa.
Ele passaria os próximos quatro anos num orfanato quando finalmente saiu, fôra acolhido por um senhor de nome Stepan Lordon. Ele pagou seus estudos e o adotou como seu filho, mas Stephen era velho e logo faleceu. O velho partiu deixando uma quantia considerável para Dancan, o que permitiu ao jovem ingressar um dia no Departamento de polícia de Chicago. Aos vinte anos Dancan já era detetive, mas foi aos vinte e sete que ele conquistou o cargo de tenente e hoje aos trinta e dois anos Dancan Sallaze é segundo no comando do turno do dia do departamento de homicídios, um cargo no qual conheceu muita gente influente, amigos de valor, Dancan se orgulha de seu cargo...
_Vamos sua bugiganga filha da puta! Cretina!_ Disse para o walk-talk defeituoso. Nunca funcionava, mas surpreendentemente Dancan recebeu uma resposta.
_ DO QUE ME CHAMOU SALLAZE?!_ Dancan levou um susto repentino quando se deu conta que era a voz da detetive Connely Edge, sua parceira e adversária em momentos inoportunos.
Connie é como chamam quando querem esquecer que mesmo sendo uma mulher, pode dar uma surra em qualquer um no DPC (Departamento de Policia de Chicago). A detetive é parceira de Dancan há anos e ensinou tudo que ele sabe. Mais que uma parceira ou professora, Connie é sua amiga, ela sempre avisava como os cachorros quentes que ele comia com tanta voracidade eram prejudiciais a saúde. Dancan adorava a super proteção da parceira, achava encantador, mas jamais diria isso pra ela... E não disse.
Connie morava no subúrbio com sua irmã gêmea com quem dividia o aluguel, Connely é boa cozinheira e detetive e de uns tempos pra cá está percebendo que seu ex-pupilo e parceiro está se saindo melhor que a encomenda. Primeiro ele faz as ultimas sete prisões do DPC, depois é promovido a um cargo acima dela e o que virá depois? Connie ficava se fazendo esta pergunta.
_Não era com você que eu estava falando Connie! Era com esse treco, essa joça demoníaca!_ esbravejou Dancan não contente com o funcionamento repentino da máquina estúpida.
_Certo... Ótima hora pra você ficar brigando com o equipamento, me pergunto o que acontecerá quando brigar com sua arma..._ disse a detetive debochada.
_Ha, há... Muito engraçado, eu me dou muito bem com minha arma para seu governo, dona... E quanto a você, devia estar na TV, um show de piadas de “Connie Clow”, faria milhões felizes com sua irreverência! E me deixaria em paz!
_ Bobagem Dancan. Você não conseguiria viver sem mim.
_ Eu posso TENTAR.
O caso estudado por Dancan e Connie era talvez o mais importante de suas carreiras. Eles ficaram encarregados de prender um dos maiores criminosos da cidade. Era um assassino de sangue frio, um serial killer, ele ganhara o título de "Novo estripador", devido a sua metodologia sempre precisa nos assassinatos que de acordo com Dancan é uma imitação de “Jack o Estripador”.
O novo estripador já fizera três vítimas, todas elas eram prostitutas, exemplos de beleza. Dancan insistia em sua teoria, Connie dizia que ele estava assistindo filmes de horror demais. Bobagem, Dancan não assistia filmes de horror, bastava seu trabalho, assustava o bastante.
_Hey Connie, escuta só... Fiz uma pesquisa sobre o primeiro estripador..._ disse Dancan pelo rádio meio fora de freqüência, porém sendo ouvido claramente por Connie.
_Lá vem você Dancan... Não pode aceitar que é só um maluco qualquer?
_Cala boca e escuta!_ então o tenente Sallaze começou seu discurso via rádio.
_ “Jack o Estripador foi o pseudônimo dado a um serial killer não-identificado que agiu no miserável bairro de Whitechapel em Londres na segunda metade de 1888. O nome foi tirado de uma carta enviada por alguém que dizia ser o assassino, publicada nos jornais na época dos crimes. Embora diversas teorias tenham surgido desde então, a identidade de Jack o Estripador nunca pôde ser determinada."
_Impressionada... Acabou?
_ Não. "Suas vítimas eram mulheres que ganhavam a vida como prostitutas. Os assassinatos típicos do Estripador eram cometidos em locais públicos e semi-desertos; a garganta da vítima era cortada, e depois o cadáver submetido a mutilações no abdômen ou em outras partes corporais. Muitos acreditam que as vítimas eram primeiro estranguladas, para evitar barulhos. Devido à natureza dos ferimentos em algumas dessas supostas vítimas, muitas delas com os órgãos internos removidos, especula-se que o assassino tinha algum conhecimento médico ou cirúrgico, ou que até mesmo fosse um açougueiro, embora este ponto, assim como na maioria das suposições sobre o criminoso e os fatos que o circundam, seja uma questão controversa."
_tudo bem Dancan. As vitimas são prostitutas e o padrão de assassinatos confere... Mas mesmo que esse Estripador esteja imitando o tal "Jack"... No quê isso vai nos ajudar? Não diz nada. Não descobriram quem foi o primeiro maluco da faca... Então como essas informações nos ajudam?
_As vitimas.
_O que têm elas? Prostitutas. E daí?
_ Magie Newman. Analy Carter e finalmente Eleonora Sindel.
_Eu me lembro dos nomes delas "tenente"! E daí?
_Mary Ann Nichols, Annie Chapman, Elizabeth Stride.
_Pode ser mais claro?
_É a lista de vítimas do estripador. As iniciais das vítimas de nosso assassino conferem com as das vítimas de Jack o Estripador!
__...
_Connie?
_Como descobriu isto?
_Eu aprendi com a melhor!
_Não é hora de elogios Tenente Sallaze! Você chegou até onde está por mérito próprio. Agora... Qual é o próximo passo?
_ A próxima vítima na lista de Jack é Catherine Eddowes, e depois de pesquisar as prostitutas com as iniciais C. E. Acabei encontrando apenas a senhorita Carmelita Espanely. A próxima vítima de nosso serial killer.
_Por isso está mandando eu e um batalhão de policiais armados para um bordel?
_É onde carmelita trabalha... Por que mais eu faria isso?
_Sei lá... Talvez fosse seu aniversário e você quisesse dar uma festinha pra adultos.
_Não. Eu não teria convidado você.
Dancan e Connie desligaram o rádio ao mesmo tempo e sorrindo, ambos tentavam desligar na cara do outro.

Em itálico.

Em questão de uma hora depois o gigantesco clube noturno “Candles”, onde a prostituta e possível vítima do novo estripador trabalhava, estava cercado de policiais disfarçados e preparados. A operação foi liderada por Dancan e co-dirigida por Connie.
Neste momento o tenente Sallaze estava num carro do lado de fora da boate coordenando tudo, Connie não se contentou com menos que a proximidade com a possível ação, estava dentro da casa noturna para vigiar a moça.
_ “Dan”? Está ouvindo? _ disse Connie no velho walk-talk que agora funcionava perfeitamente.
_Sim Connie, estou ouvindo, parece que essa porcaria de rádio decidiu cooperar...
_Qual é a prostituta que temos que vigiar mesmo?
_ Carmelita Espanely. É a espanhola com um belo par de seios a esquerda da terceira mesa, está vendo daí?
_Sim, estou vendo... “Belo par de seios”? Vai colocar isso no relatório?
_Relatório? Pensei que quando agente se torna Tenente não precisava mais fazer relatório...
_ Ah claro! Como se fosse tão simples...
_Hey Connie...
_Se está cogitando a idéia de me pedir para fazer SEU relatório... Pode tirar seu carro patrulha da chuva!
_ Bem... Eu não ia te pedir isso, Mas sabe como sou atrapalhado com essas burocracias... Talvez pudesse me indicar uma secretária... Ou coisa assim...
_ Falou com a tira certa Sallaze! Minha irmã Clea está morando comigo e precisa de um trabalho! É... Já trampou como secretaria, é ótima! Profissional, capacitada, e tem um “belo par de seios”...
Clea Edge é irmã gêmea de Connie, embora a aparência de Connie seja a de uma policial durona e a de Clea seja a de uma bibliotecária tímida e retraída... Nunca, nem mesmo na infância, quando os pais vestiam as duas iguais, nem assim era possível confundir uma com a outra, suas personalidades conflitantes não permitiam, apesar desta imensa diferença Connie e Clea nunca tiveram uma briga que não terminasse num pedido de desculpas sem jeito e um abraço. Clea era uma moça gentil e inteligente, com certeza era a secretária perfeita pra Dancan e um dia ele saberia disso.
_HAHA... Muito engraçado! Você é hilária!_ disse Dancan em tom sério e quase rude._ Sua irmã não é gêmea?
_É.
_ Então nada feito! Já tenho que ver seu rosto por muito tempo!
_Depois eu tenho fama de piadinha de mau gosto... Sério Dancan, minha irmã é perfeita pro trabalho.
_ Ta bom! Eu vou dar uma olhada no currículo dela... Agora vamos nos concentrar.
Eles permaneceram em seus lugares por horas... Às três horas da madrugada ouve algo diferente na noite aparentemente calma. Finalmente Carmelita Espanely conseguira um cliente, ela saiu de braços dados com um Senhor De rosto sério, barba rala e feição dura, o tipo de sujeito que Dancan diria “perfil de psicopata perfeito”.
_Dan? É a Connie._ o som do rádio estava perfeito. _ suspeito levando a possível vítima para um quarto de programas... Eu vou segui-lo.
_Certo, siga, mas não tente nada sozinha Connie! Nos dê sua posição quando chegar lá.
_Afirmativo.
Connie seguiu o suspeito até que ele e carmelita entraram num quarto. Em questão de poucos minutos Connie pode ouvir os gemidos da garota, Connie não podia crer que fossem gemidos de prazer, e de qualquer forma ela tinha que conferir.
Foi exatamente o que Connely Edge fez.
_Dancan! Vou entrar!
_Não Connie! Espere reforço! Diga sua posição! Connie? Connie?! Droga!
Connely Edge sacou sua arma e colocou junto do corpo, ela deu um salto para trás e chutou a porta com toda sua força, a tranca quebrou instantaneamente. A porta se abriu revelando a cena grotesca!
_Atenção! Todo mundo pra dentro! Agora! Vai, vai, vai!_Gritava Dancan correndo para dentro da boate.
O homem de rosto inexpressivo e rígido estava em cima da jovem Carmelita Espanely, as mãos do brutamonte estavam no pescoço de Carmelita e apertavam com violência a pobre menina. Carmelita tinha as mãos nos ombros de seu agressor como se quisesse empurrá-lo. Seus olhos estavam estalados e sua boca aberta. Deveria haver um grito saindo daquela boca, pensou Connely Edge, mas Carmelita já não podia gritar ou lutar, Carmelita morreria com certeza se ele não parasse.
_Procurem em todos os quartos! Está aqui em algum lugar!_ Gritava Dancan.
_Parado! Fique onde está e ponha suas mãos onde eu possa velas! _Vociferou Connie.
Ele parou de apertar Carmelita, a distração de Connie salvara a vida da garota, e foi nessa distração que Carmelita pôde se soltar e fugir o mais rápido que podia. Abandonando Connie com o monstro.
_Você! Carmelita Espanely! Parada!Eu sou o tenente Dancan Sallaze! Você sabe onde está minha parceira! Fala!_Gritava Dancan, ele apontava a arma ameaçadoramente para Carmelita, a prostituta estava assustada, em prantos.
O homem alto apenas olhou pra ela, sem nenhuma expressão de raiva, remorsos, felicidade, nada! Nem mesmo medo.
_Estou avisando! Eu não vou hesitar em atirar se me obrigar!
_Estou avisando Carmelita! Se minha parceira morrer--_Carmelita sussurrara algo em voz bem baixa, mas Dancan pôde ouvir claramente. _Quarto 211?! VOCÊS OUVIRAM! VÃO! AGORA!
O gigante apenas saltou para frente e desarmou Connie tão fácil quanto pretendia, ele agarrou o pescoço de Connie e sussurrou em seu ouvido enquanto apertava...
_Como você se chama?_ ele agarrou o distintivo do bolso de Connely com uma das mãos sem afrouxar a imobilização e leu o nome de Connie. _ “Connely Edge”... C. E. ... QUE COINCIDÊNCIA.
_CONNIE! EU TÔ CHEGANDO GURIA! AGUENTA FIRME! _ Gritava Dancan.
Connely Edge chorava enquanto o monstro impiedoso a estrangulava... Ela já não podia lutar... Não podia agüentar... O “novo estripador” retirou da cintura uma grande faca de açougueiro. Prateada e brilhante.
_Não... _Gemeu Connie em voz sofrida e asfixiante.
_Não! _Gritou Dancan em voz sofrida e furiosa.
Um sorriso surgiu na mesma proporção em que a arma branca ganhava distância... Para um golpe mortal... O estripador por fim, estripou Connely.
_Connnn... Connely... _ Dancan já não conseguia gritar.
Connely Edge já não conseguia respirar.
Dancan chegou à porta do quarto 211 e caiu ajoelhado, já havia visto coisas horríveis em sua vida, mas nada lhe revirara o estomago assim antes... Depois de vomitar Dancan pôde olhar a cena de novo e ver algo que o fez chorar como uma garotinha.
Um profundo corte na garganta que sagrava em demasia, a mutilação do abdômen com vários órgãos internos retirados e espalhados pela cama... Principalmente as vísceras, as tripas... Os cortes brutos e terríveis nas genitais que estavam expostas com as roupas destruídas e as progressivas mutilações no rosto que quase deixavam identificável o rosto de Connely Edge.
O assassino... Havia fugido.
_C. E. , Connely Edge... Como não percebi? Deus... Como não percebi...

Um quilo e meio de carne humana, por favor.

Dancan Sallaze apurou os fatos naquela noite dolorosa. O assassino estrangulava suas vitimas e em seguida as esquartejava, retirava vários órgãos internos com eximia habilidade. Era óbvio que o assassino possuía conhecimentos cirúrgicos. Até então nenhuma das informações diferia das mortes em Londres de 1888, o caso de “Jack o estripador”. Levando em conta que estas informações nunca levaram a prisão do primeiro serial killer, como ele poderia encontrar o “novo estripador”? Qual a diferença entre ambos os casos?
_Na autópsia, o Dr. Bents me disse que apesar do assassino claramente ter conhecimentos sobre anatomia... Ele não tinha a habilidade de um cirurgião...
Enquanto divagava com o próprio monólogo o tenente Sallaze caminhou por seu quarto desarrumado. Tinha nas mãos as duas provas do crime. Claro que ele não devia estar com estas em poder, era propriedade do departamento de policia, mas sua parceira tinha morrido e ele precisava de vingança.
_Ele disse que apesar do conhecimento bruto suas mãos eram claramente brutas e desajeitadas. Seus cortes eram perfeitos para matar... Mas nunca seriam capazes de salvar uma vida...
As provas do crime eram simples. Primeiro, a arma do crime, uma grande faca de açougue bem afiada e em perfeito estado. O assassino até então nunca se descuidara antes, jamais deixou qualquer evidência, mas era claro que desta vez ele o havia feito de propósito. A faca fora deixada cravada na cabeceira da cama onde Connelly Edge havia sido encontrada, o assassino o fez para fixar uma folha de papel ensangüentada. A segunda prova era uma carta que ele havia escrito para as autoridades.

“Senhores oficiais

É com grande prazer e respeito que lhes envio esta

Minha ultima vitima foi um de vocês, mas não pensem que eu sai de minha tradição de matar apenas jovens prostitutas... Pois não o fiz...

Em breve eu os convidarei para meu próximo churrasco, pegarei uma carne de primeira desta vez... Algo de se lamber os beiços...

Desde já eu agradeço por não atrapalharem meu trabalho me prendendo...

Atenciosamente, Jack.”

_Ele é um açougueiro ou cozinheiro...
Depois desta dedução Dancan combinou algumas informações e encontrou algo nas informações cruzadas entre “grandes cirurgiões” e “açougueiros locais”. Para ele era o suspeito número um.
Sua ficha tinha tudo, Tentou a faculdade de medicina, mas fracassou quatro vezes. Foi preso há anos atrás por assassinar o próprio pai, um respeitado cirurgião do hospital geral de Chicago. Considerado insano foi parar num sanatório onde ficou por dezessete anos, quando recebeu alta. Então abriu sue próprio negócio, um açougue. Entre outras informações não lidas Dancan desistiu de continuar lendo a ficha. Ele odiava a parte burocrática do trabalho e não havia duvidas de que encontrara seu “Jack o novo estripador”, o nome do suspeito lhe dizia tudo. Jack Rivell.
Dancan pegou sua arma. Ele correu para o carro e traçou a cidade furando sinais vermelhos e ganhando montes de buzinas e gritos furiosos de outros motoristas, mas não s importou, sequer os ouvia, precisava chegar logo ao endereço do arquivo, onde ficavam a casa e o trabalho de Jack Rivell.
Ao chegar ao açougue “Rivell’s”, Dancan foi logo saindo do carro com a arma em punho. Sua expressão era firme e raivosa. Ele esgueirou-se pelo redor do açougue percebendo uma tênue luz acessa nos fundos do lugar. Onde com certeza deveria ser a cozinha. Alguém estava fazendo serão naquela noite.
A porta dos fundos estava aberta, escancarada para quem quisesse entrar. A cozinha era grande com várias mesas e grandes partes de carne bovina penduradas em ganchos, apesar de ser ladrilhada de branco, toda ela tinhas grandes machas de sangue envelhecidas.
Dancan pôde ver dentro da cozinha do açougue, um açougueiro trabalhava arduamente erguendo uma grande faca e batendo na carne que respingava sangue a cada golpe. Um homem alto e corpulento. Vestia roupas brancas de tecido grosso, botas e um avental. Terminava em uma proteção para os cabelos e uma máscara sobre a boca e nariz. Traje completo de um açougueiro.
O açougueiro tinha um detalhe peculiar, sua mão direita, onde estava a faca. Ela tremia compulsivamente enquanto ele golpeava a carne. Um defeito terrível para alguém que precisa de coordenação para o trabalho, sendo um açougueiro ou um cirurgião.
_Parado! Policia de Chicago! Solte a arma e coloque as mãos para cima!_Dancan usou a porta como cobertura e apontou a arma para o suspeito. Ao perceber que seu alvo o ignorou completamente ele voltou a gritar.
_Eu mandei largar a porcaria da faca seu animal imundo! Ou fique com ela! Eu vou adorar ter um motivo pra atirar!_O tenente vociferava as palavras, em nenhum momento se esquecia da cena de Connie estripada sobre a cama do bordel.
_Acém, pescoço, cupim, paleta, peito, costela, ponta de agulha, alcatra, filé, picanha... _Dancan enfureceu-se ainda mais ao ouvir o que parecia ser um deboche vindo do homem que teria matado Connie.
_Cala a droga da boca e solta essa faca! Agora!
_ Animela, bucho ou estômago, carne de cabeça, cérebro, coração, fígado, lábio, língua, medula, omasso, pulmão, queixada, rabo, rim, supra-renal, tendão.
_Chega! Cala a boca! Cala a boca! Vou explodir seu crânio seu psicopata filho da puta!
Dancan correu pela cozinha até ficar de frente com o açougueiro. Queria que este pudesse ver a arma apontada para a sua cabeça. Os olhos azuis penetrantes e inexpressivos fitaram o policial com calma, em seguida ele apontou a faca para a carne. Ao olhar, Dancan viu uma jovem amarrada com tiras de couro na mesa, sua perna quase fora decepada pelos golpes da faca, ela sangrava e gemia baixo através da amordaça branca encardida de sangue.
_ Mary Ann Nichols, Annie Chapman, Elizabeth Stride e finalmente, Catherine Eddowes. Muito esperto tenente Sallaze…
_Você é que não é muito inteligente. Agora mesmo esta cometendo um erro. Solte essa garota. _Dancan moveu os dedos acomodando melhor a arma entre as mãos. Uma gota de suor frio e incômodo desceu por sua testa para seu rosto.
_O problema tenente é que você parece ter deixado o lado pessoal da coisa vendar seus olhos para o óbvio... _Enquanto falava o assassino deixava a ponta da faca deslizar tremulante pelo pescoço da jovem prisioneira. _O estripador ainda tem uma vitima, seu nome é Mary Jane Kelly... Cujas iniciais me levaram a esta jovem puta de nome Marie Jo Keller. O nome mais parecido entre os que encontrei. _Não havia prazer na voz do assassino. Nem nenhum outro sentimento. Apenas a apatia constante dominava a expressão de seus olhos azuis brilhantes. A mão do açougueiro persistia em tremer perigosamente sobre o pescoço de Marie Jo.
_Solte a arma tenente.
_Depois que você soltar a faca.
_Já ouviu falar em Parkinson?
_O quê? Deve estar brincando.
_A doença de Parkinson ou mal de Parkinson é caracterizada por uma desordem progressiva do movimento devido à disfunção dos neurônios secretores de dopamina...
_Sei o que diabos é mal de Parkinson, seu maníaco!
_Então sabe que a clínica é dominada pelos tremores musculares. Estes iniciam-se geralmente em uma das mãos...
_Eu já entendi.
_ O doente também costuma apresentar uma expressão fechada tipo máscara sem demonstar emoção e uma voz monotônica, isso deve-se ao deficiente controle sobre os músculos da face e laringe. A sua escrita tende a ter em pequeno tamanho, pequeninas letras, é conhecido como micrografia.
_Eu já entendi! Você tem Parkinson! Faz sentido... Inferno!
_Solte a arma antes que a aula sobre meu mal seja a ultima coisa que a senhorita keller ouça. Já sinto minha mão armada ter uma convulsão epilética.
Dancan apenas soltou a arma.
_Chute para cá.
Dancan obedeceu. Chutou a arma que se arrastou pelo chão umido e escorregadio até chegar aos pés do estripador. Este chutou a arma para ainda mais longe e fitou o tenente Sallaze novamente.
_Agora vejamos, para que eu não abandone meu modus operandi, terei que cortar de forma que você não morra... Seja bonzinho ou podemos ter um acidente, nao se esqueça... Parkinson.
O assassino começou a caminhar em passos rápidos na direção de Dancan. Sua mão tremia como um aparelho de tortura. A faca reluzente sendo erguida enquanto o novo estripador ganhava proximidade. O tenente logo tratou de procurar uma arma, começou a lançar panelas e outros objetos inúteis contra o assassino, tentando retardá-lo enquanto procurava uma faca. O estripador no entanto não se deteve e Dancan teve que fugir pela cozinha.
_Sua Connelly sem duvida foi a melhor de todas tenente! Seus gemidos! Seus gritos!
Dancan serrou os dentes furioso. Avistou então um grande garfo de ponta dupla e correu para apanhálo, mas o chão escorregadio o fez tombar antes de alcançar a peça. Desesperado e desnorteado ele tentou se levantar e se posicionar para esperar o ataque do estripador. Confuso com a batida que deu com a cabeça no chão nem percebeu o corpuleto açougueiro atrás dele.
O golpe foi certeiro, as costas de Dancan foram rasgadas de lado ao outro. Ele urrou de dor enquanto o assassino o ergueu do chão com uma única mão, colocou de pé embora suas pernas estivessem ainda inutilizadas pela dor do corte nas costas. Jack Rivell apontou a faca para seu inimigo novamente, tentava tremer o minimo possível.
A textura do garfo de ponta dupla era áspera e fria. Dancan só teria aquela oportunidade, agarrou a arma sobre a mesa e cravou firme na orelha de Rivell. O assassino soltou sua vitima e saiu a gritar como uma besta selvagem enfuerecida enquanto segurava firme seu ferimento.
Sallaze mancou até a jovem Keller e desatou as correias que a prendiam na mesa. Ele colocou a garota no colo e saiu para deixála num lugar seguro. Ao chegar ao lado de fora ainda podia ouvir os gritos e percebeu que não podia ir ainda. Deixou Marie Jo Keller sentada num canto, já que a jovem não conseguia andar com a perna dilacerada daquele jeito.
_Escute Marie. Este é emu celular, eu acabo de discar o número da policia. Diga o que está acontecendo. Mande-os vir pra cá. Eu preciso voltar pra pegar o maldito ou ele vai conseguir fugir de novo. Você entende. _Marie Jo apenas choramingou com o celular na mão. _Certo. Não entende. Tudo bem, resolvo sozinho.
Sallaze entrou novamente na cozinha. Desta vez não teve tempo para uma luta. Assim que viu o estripador com a orelha esqueda formando uma cachoeira de sangue imóvel, ele já o agarrou. Ergueu Dancan com as duas mãos e cravou as costelas do corajoso policial num dos ganchos que serviam parasegurar grandes carcaças bovinas. Dancan tentou gritar de dor, estranhamente seus pulmões se esvaziaram mas sem emitir nenhum som.
_Você pode não ser uma prostituta, pode não ter as iniciais corretas... Mas papai terá que me perdoar por esta quebra de tradição... Eu vou estripar você tenente Dancan Sallaze!
Jack Rivell. O novo estripador. Rosnou medonhamente ao erguer a faca com a ferocidade de um predador violento e mortal. Seus olhos pela primeira vez exibiam algum sentimento, o de profundo ódio e rancor.
Três estrondos. Três explosões ecoando no açougue. Três tiros da arma de Dancan Sallaze. A atiradora, Marie Jo Keller. A jovem encontrara a arma que o assassino pensava ter chutado para longe e nunca mais ter de vê-la. Dos três tiros, apenas um atingiu o corpo de Jack Rivell. O peito perfurado jorrou um filete de sangue quente. O estripador caiu no chão com um olhar novamente vago e apático. Dancan fitou a moça com um olhar sofrido.
_Eu... Eu liguei... Mas não sei o endereço daqui... Então eu vi a arma...
A jovem largou a arma e começou a chorar cobrindo o rosto com as duas mãos que se encharcavam de lágrimas. Diante dela a cena grotesca de uma cozinha do inferno com sangue por toda parte. Um estripador caido e um policial pendurado como carne de boi.
Em pouco tempo a polícia chegou ao local do crime, todos foram levados para o hospital em estado grave. Felizmente uma equipe de competentes médicos atenderam o caso.
Marie Jo Keller infelizmente perdeu sua perna machucada, os golpes do “novo estripador” já quase havia arrancado a mesma. Marie, além de ter a perna amputada, passaria por uma terapia devido ao chóque de ser torturada, mutilada e quase assassinada.
Dancan Sallaze levou muitos pontos nos ferimentos nas costas, mas não teve nenhum problema permanente. Acabaria com uma grande cicatriz, nada mais.
Jack Rivell sobreviveu.

Entes queridos.

_O que exatamente aquele psicopata disse?
_Bom tenente Sallaze... Ele disse que se não puder falar com o senhor imediatamente... Matará a refém.
_Eu não peguei bem o seu nome Dr.
_Dr. Roger Shooter.
_Dr. Shooter. Qual é o nome da enfermeira que ele fez de refém?
_Mairah Koltraine.
_E o nome do meio?
_O que disse?
_Qual é nome do meio dela? Tem na ficha de funcionários, não tem?
_Sim... É Jules. Por quê?
_Merda.
Menos de 24 horas e o ”novo estripador”, atacava novamente. A policia de Chicago, que havia chegado ao local do crime e detido Rivell, não podia explicar como puderam deixar que ele fugisse.
Naquela noite O tenente Sallaze, A jovem vitima Keller e o derradeiro assassino foram levados a um hospital onde seus ferimentos foram tratados, horas depois, Rivell saiu de seu quarto sem que ninguém percebesse e desapareceu. Tanto Dancan quanto o resto da policia acharam que não veriam Jack de novo, no entanto, a cerca de uma hora o tenente Sallaze recebeu uma ligação do Dr. Shooter, psiquiatra chefe do sanatório George K. Siegmund, onde Jack Rivell ficou detido por seis anos em seu passado. Agora Jack voltara por conta própria para o asilo e mantinha uma jovem enfermeira como refém. Sua única exigência, falar com o tenente Sallaze.
_Onde ele está?
_Na ala médica tenente.
_Que maldita segurança vocês tem aqui Dr. Shooter?
_Nossa segurança não é ruim, tenente. O problema é que ela é preparada para manter todos aqui dentro... Nunca tivemos que nos importar tanto com alguém que quisesse entrar.
_pense nisso no futuro._Dancan parou e observou um grande duto de forma angular que seguia pelos corredores do grande sanatório. _O que é isso?
_Os dutos de ar? São para manter o ar daqui fresco.
_Foi por ali que ele entrou?
_Sim tenente.
_Então o ar lá de fora pode ser bombeado aqui pra dentro?
_Sim senhor.
_E às vezes um casual assassino serial. Não é?
_Senhor Sallaze, por favor. Vamos nos apressar.
_Estou indo o mais rápido que posso doutor, mas é difícil andar com um ferimento destes nas costas, isso dói sabe? Foi o paciente que seu sanatório deu alta que o fez. _Shooter pareceu tremendamente constrangido. Dancan não se importou. _É, eu andei pesquisando a ficha de Rivell... Diga a minha unidade aí fora que quero falar com eles antes de entrar.
_Sim senhor.
Meia hora depois Dancan desceu as escadas na ala médica do sanatório. Logo viu que Jack Rivell o esperava. Estranhamente Jack estava usando a mesma roupa de açougueiro que usava no açougue “Rivell’s”. Em vez de sua faca ele tinha nas mãos um bisturi médico que usava para manter a enfermeira sob ameaça. A enfermeira de roupas brancas tão límpidas quanto à luz estava à frente de Jack, ela tremia assustada enquanto o estripador a usava como escudo. O bisturi arranhava delicadamente o pescoço da pobre moça. O olhar de Jack era de total apatia.
_Pra quê a roupa de açougueiro Jack? Não preferiria uma fantasia de médico desta vez? _Disse Dancan se aproximando com a arma em mãos.
_Preciso da roupa se quiser mutilar alguém, tenente. Mantém-me limpo. _Disse com calma o estripador.
_Escute Jack. Vamos fazer isto terminar bem pra todos nós, ok? Vou soltar minha arma e você solta à refém.
_Não desta vez tenente. Fique com a arma. Vai precisar dela.
_Qualé Jack! Você quer um mano a mano? Ótimo! Mas deixe a mocinha ir...
_Creio que não. Ainda preciso dela.
_Pra quê? Pra quê matar toda essa gente?
Pela primeira vez Jack Rivell sorriu. Por baixo da máscara de açougueiro, Dancan percebeu claramente, o monstro estava sorrindo diabolicamente.
_Vocês sempre querem o motivo. _Sussurrou Rivell.
_O quê?
_O motivo. Vocês detetives sempre querem o motivo dos assassinos.
_Ajuda a resolver o caso.
_Nada vai ajudá-lo a resolver este caso Sallaze._As palavras seguintes, o novo estripador proferiu com um prazer profano._ Hominis Excidium.
_O quê?
_Hominis Excidium. É latim... A origem da palavra homicídio.
_E daí?
_Não percebe o quanto a soa bem... Hominis excidium... É lindo...
_Você é doente.
_Você quer um motivo? Eu lhe dou o motivo... Por que alguém mata uma pessoa?_O estripador aproximou o rosto do de Mairah. Acariciou a face clara da jovem com seu rosto bruto e deixou o bisturi passear por todo o pescoço da menina, Mairah começou a soluçar num desesperado e inútil pranto. _Ninguém tenente. Ninguém faz nada nesta vida por si mesmo... Tudo o que almejamos e conquistamos é pra outra pessoa. Quando nós amamos alguém de verdade, fazemos de tudo para conquistarmos tudo por ela... Para tela conosco ou apenas ter sua admiração e respeito. No seu caso Connely. No meu, o meu pai.
_Do que você está falando? O que diabos quer de mim ou dessas moças?
_Vamos ser mais claros e objetivos tenente. Eu vou lhe contar uma estória. Você vai ficar parado imóvel e em total silêncio ou eu mato eu puta nojenta que você tanto quer salvar.
_Não... Certo... Deixe a menina em paz e ouço o que quiser...
_Você é daqui de Chicago mesmo tenente?
_Sim. _Dancan olhou para o relógio. Fitou o assassino novamente, a mão de Jack estava começando a tremer, se o miserável não matasse a moça, o Parkinson acabaria fazendo o serviço.
_Eu nasci em Chicago Sallaze, mas o meu pai era inglês. Dr. Vincent Rivell, cirurgião respeitável e pai exigente.
Jack baixou um pouco o bisturi. A lâmina começou a arranhar superficialmente a pele de Mairah acima dos seios. A garota emitiu alguns baixos gemidos de dor, mas tentou ficar calada. O tenente Sallaze fixou o olhar na lâmina tremendo.
_Meu pai queria que eu fosse médico. Ele queria que seu herdeiro segui-se seus passos... Eu amava meu pai, tudo que sempre quis nessa vida foi impressionado, fazer com que sentisse orgulho de mim... Mas medicina...
_Qual o problema Jack? Não passava nas provas?
_Fracassei quatro vezes. Em cada uma das vezes meu pai me dava aquele olhar de esmagadora desaprovação... Como alguém pode olhar pra um filho com o mesmo afeto de quando vê um animal morto em uma estrada? Um animal morto há dias... Em decomposição... Com aquele miasma sufocante empesteando todo o ambiente com o odor fétido da morte...
Dancan se calou. Não queria provocar o assassino, apenas ganhar tempo. Jack não pareceu se importar com o comentário perdia-se em suas memórias. Cada vez que falava, sua voz ficava mais assustadora. Mairah ofegante já sentia as tonturas de um possível desmaio.
_Não me interessava tanto pela medicina. Eu queria meu próprio negócio... Meu pai dizia que era um pretexto para ser um vagabundo... Para vadiar. Ele queria tanto me ver de branco... Na quinta vez eu consegui. Em poucos anos me tronei cirurgião.
O assassino se afastou um pouco, sentou-se sobre uma maca, ainda mantendo Mairah como escudo, a garota ficou a sua frente, entre as pernas do monstro. A lâmina do bisturi ainda tremia e agora ela lentamente era introduzida na carne de Mairah. A menina gritou de dor, mas o estripador lhe sussurrou algo e ela ficou em silêncio. Dancan fez o possível para se conter.
_Quando eu descobri que tinha o mal de Parkinson... Eu tentei esconder... Tentei... Mas em minha primeira operação... Na primeira...
A lâmina do bisturi começou a cortar de um lado ao outro do peito de Mairah. Antes de gritar, a jovem foi silenciada pela outra mão do estripador. Dancan deu dois passos no principio de uma corrida, mas apenas o olhar ameaçador do assassino já o fez parar.
_Não vamos esquecer quem está com um refém. Ta bem?
_Certo Jack... Eu não vou me mover de novo... Não vou fazer besteira... Nenhum de nós vai.
_Creio que minha definição de “besteira” é diferente da sua, tenente. É simples. Eu faço o que eu quero e vocês fazem o que eu quero.
_Sim, certo...
_Bom... Eu falava sobre minha primeira operação. Uma cirurgia simples. De rotina. Uma revascularização miocárdica. Antes que pergunte, eu vou responder. É uma operação onde o cirurgião tenta refazer a circulação de um território do músculo cardíaco que está sendo mal perfundido devido uma obstrução coronariana. _O estripador parecia ter a intenção de confundir, suas palavras eram rápidas, iconpreensíveis. Não pereica esperar que alguém entendesse. _Em geral utiliza-se enxertos da veia safena ou artéria mamária, que é uma artéria que perfunde a região do osso esterno...
_Desculpe Jack... Mas eu não entendo muito de medicina...
_Mas compreende que a precisão do cirurgião pode ser a diferença entre a vida e a morte numa mesa de cirurgia não é mesmo tenente.
_Sim... Eu acho que sim...
_Então por favor, tente imaginar ter uma vida em suas mãos e saber que qualquer deslize, o menor descuido que seja pode ser fatal para sua vitima... Paciente... E imagina que você tem que fazer aquele corte preciso naquele tecido quente e macio que pulsa vitalmente dentro de uma caixa toráxica aberta. Imagine senhor Sallaze que neste momento crucial para toda a sua vida e da vida do seu paciente... _O tom mudara, Jack falava cada vez mais alto. O bisturi tremendo e ferindo cada vez mais a vitima. _...Sua mão, instrumento de cura, começa a tremer e sacudir a lâmina rasgando todo o coração de uma pessoa! _Jack gritava. Parecia possesso de profunda raiva incontida. _Rasgando e rasgando! Sangrando e desfalecendo diante de sua equipe e dos olhos impiedosos da vida que você acaba de tirar!
_Jack! Pare! Vai matar Mairah!
_Oh sim... A refém... Ainda preciso dela... _Ele tomou fôlego, pareceu tentar se acalmar. _Não me esqueço do que ela disse... Ela disse “senhor Deus, por favor guie as mãos deste médico e deixe-o fazer uma boa cirurgia”... Rezando... Se eu a tivesse salvo, meus créditos seriam concedidos a Deus? Então... Se eu a matei... Não poderiamos transferir também a culpa a ele?
_Somos responsáveis por nossos atos, Jack.
_Somos. Por isso eu perdi minha licença. Meu pai ficou furioso, pela primeira vez na minha vida, ele me espancou... Nunca o fizera enquanto criança... Durante nossa briga... Eu acabei pegando uma faca na cozinha e...
_Você matou seu pai?
_Sim. Meu primeiro assassinato, mas não rpecisa fingir que não sabe. Eu sei que leu minha ficha. Você sabe como continua não é?
_Você é julgado e considerado insano...
_E acabo passando seis anos dentro desta instituição.
_Até que recebeu alta.
_Até que recebi alta. _Jack gargalhou neste momento. A mão tremendo e ferindo Mairah, agora um ferimento sangrando perigosamente. _Quando eu sai, queria uma vida nova... Abri meu próprio negócio... O açougue “Rivell’s”... Mas não me vi livre tão fácil. Numa noite enquanto fazia a limpeza do açougue eu tenho certeza que vi um vulto do lado de fora... Um homem parado lá no escuro. De chapéu... Um chapéu igual ao do meu pai. Não tive coragem de verificar, mas não precisava, eu sei que era o meu pai e sei que mesmo lá no escuro ele com certeza estava me olhando daquele jeito! Foi quando começei a matar...
_Mas porquê? Jack... Isso não faz sentido... _Dancan olhou novamente para o relógio.
_Sabe porquê meu pai me batizou de Jack, Sallaze?
_Não... Eu não sei...
_Porquê ele era completamente fascinado pela lenda de “Jack o estripador”... Dizia que com certeza o estripador havia sido um grande cirurgião de sua época. Que ele era brilhante por nunca ter sido pego e tudo mais...
_Então você se tornou um assassino por quê achava que isso ia fazer seu pai feliz?
_Eu não achava. Eu sabia. Meu pai tinha mais admiração por aquele psicopata do que por mim. Então se minhas mãos malditas com parkinson não serviam para curar, então que fossem perfeitas para matar. O unico meio de ser algo que meu pai pudesse admirar. O unico motivo pelo qual se mata, é “por alguém”.
_Você precisa de ajuda Jack...
_Não... Eu não... Mas você...
_E depois que matar a ultima vitima? O que vai fazer? Esta é a ultima não é? A ultima na lista do estripador de acordo com as iniciais...
_Oh sim, eu copiei tudo... O estrangulamento antes, o esquartejamento depois... Selecionei prostitutas com as iniciais correspondentes com a lista de corpo do primeiro Jack o estripador... Mas não é tudo...
_Como assim? O que quer dizer com isso?
_Eu não escolhia exatamente a vitima apenas com este padrão.
_E que outro padrão seguia?
_Todas as minhas vitimas eram pessoas extremamente amadas por entes queridos. Eu não escolhia elas em si... Minhas verdadeiras vítimas eram aqueles que se improtavam com elas... Escolhi a dedo... Connely por exemplo... Foi escolhida por você.
_O quê? Seu monstro! O que quer dizer com isso?!
_Você a amava tanto... Faria qualquer coisa por ela... Seu amor por ela era tão grande que se assemelhava ao meu por meu pai... Por isso contei tudo a você... Porquê só uma de minhas verdadeiras vitimas poderiam compreender o que fiz. Só os entes queridos.
_Ela era minha parceira... Não minha parente... _Dancan não conseguiu impedir as lágrimas.
_Mas era tão querido por ela e a estimava tanto... Era como se fosse... Paretesco não me interessa. Amor, sim...
_Eu a amava...
_Faria qualquer coisa por ela...
_Qualquer coisa...
_Você morreria por ela.
_E mataria por ela.
_Você mataria.
Dancan atirou. O tiro ecoou por todo o sanatório. Um eco carregou o estrondo de pólvora incinerada num rompante, a lasca de chumbo ardente cortando o ar e atingindo a carne do alvo. Ossos estalam, sangue é jorrado, Mairah Jules Koltraine cai morta ao chão, a roupa de enfermeira ensangüentada. Jack Rivell urra de ódio como um cão infernal raivoso.
_Você não vai completar sua coleção, Jack._Dancan sussurrou as palavras com profunda crueldade.
_Você... Matou... _Jack parecia não acreditar na cena absurda que via. O policial, o mocinho previsível e honesto matou a refém antes que ele pudesse fazer.
_Eu a matei pra que você possa passar o resto da sua vida preso e sem completar sua missão de ganhar o amor do papai.
_Seu desgraçado... Sabia que eu ia matá-la de qualquer jeito não é? Por isso fez o serviço. Sabia que não ia conseguir salvar...
_Cala a boca, Jack. Eu podia ter salvado a menina... Mandei minha equipe bombear gás sonífero pra dentro do sanatório pelos dutos de gás... A essa altura nem vai levar minutos pra todo mundo cair no sono... Eu, você, quem mais estiver aqui dentro...
_O quê?
_Isso mesmo... Eu a matei por que eu quis... Por que eu realmente quero que você seja atormentado pelo fantasma da memória do seu pai na cela acolchoada onde vai passar o resto da sua vida...
Jack Rivell começou a sentir os efeitos do gás, seu corpo ficou pesado, ele mal conseguia ficar de pé, logo tombou ao chão. Ajoelhado ele tentou fixar seu olhar em Sallaze, mas teve que apoiar suas mãos no chão para não cair. De cabeça baixa e sentindo sua consciência se esvaindo, ele tentou compreender o porquê de seu precioso momento de redimir-se com o amado pai... Havia fracassado.
_Era só esperar... Se você esperasse... Ia conseguir o mesmo resultado, sem a moça morrer... Por quê? Por que matar então?
Dancan caiu deixando a arma escapar das mãos. A arma se arrastou com o impacto da queda e atravessou a sala, arrastando-se com um som de arranhão metálico, por fim bateu no bisturi sujo com o sangue de Mairah. Os corpos ficaram estendidos como se estivessem mortos, enquanto o profundo gás do sono tomava cada canto do sanatório George K. Siegmund. Cada enfermo caindo no mais profundo sonhar. Antes de perder totalmente a consciência Dancan aplacou as duvidas do estripador com palavras simples e sonolentas, mas pungentes e desesperadoras para o serial killer.
_Eu a matei... Por que agora, você vai saber que... Tudo o que sofrer por ter falhado em sua onda de assassinatos... Foi por minha causa... E vai saber, que em algum lugar... Eu estou feliz de ter ferrado com você...
_Eu vou te estripar...
_Boa noite, Jack “novo estripador de merda” Rivell...
Dancan Sallaze e Jack Rivell dormiram.

Aqui jaz, Connelly Edge, querida irmã e parceira.

No velório de Connely Edge, Dancan ouviu o discurso em homenagem a detetive e sua coragem em silêncio. Um terno preto, com a gravata tão apertada que parecia uma forca, o sufocava. Óculos escuros escondiam os olhos tristes apesar de não esconder sua dor pela morte da parceira. Ele queria, mas não conseguia chorar. Era desesperador. Fitava o caixão descer lentamente para a cova na terra, ansioso para terminar e poder jogar a rosa rubra que pesava em suas mãos.
_Sallaze... Posso falar com você? _O comissário de polícia de Chicago, Clarence Vanderson. Não só um superior, mas também um amigo de Dancan e Connie.
_Claro, chefe.
_Eu sei que devia esperar, mas... Eu estava fora da cidade ontem à noite... E não sei muito ainda de tudo aconteceu... Eu ouvi estórias mirabolantes de que você atirou na vitima para pegar o estripador...
_Atirei sim.
_E posso saber por quê?
_Eu mandei minha equipe encher o lugar de gás sonífero... Enrolei o assassino até o gás fazer efeito... Quando percebi que Mairah Koltraine ia desmaiar eu atirei nela.
_Por que diabos fez isso?
_Eu estava com munição de impacto na arma... Nunca pretendi usar força letal... Mas só por garantia não levei munição de verdade, afinal ele matou minha parceira e eu poderia sair do sério...
_Sallaze. Não me fiz entender. Eu sei que não atirou pra matar. Foi a primeira coisa que averigüei. A moça está passando até muito bem... _Vanderson caminhou em volta de Dancan como se quisesse analisar o tenente, este continuava a fitar o caixão agora sendo coberto de terra. _O que eu quero saber Sallaze... É por que você atirou na refém. Entendeu?
Dancan pareceu acordar de um sonho. Ele tomou postura em respeito a seu superior, olhou em seus olhos e não hesitou em responder claro e direto.
_Por que eu queria que ele pensasse que eu matei a ultima vitima de sua lista. Queria que ele pensasse que eu arruinei seus planos... Seus objetivos... Queria que ele passasse o resto da vida sabendo que eu o impedi de fazer o que ele julgava ser... Uma redenção com o espírito do pai.
_Foi cruel Sallaze...
_Me esforcei pra ser... Mas ele ainda me vence nesse quesito. _Ao dizer isso Dancan desviou novamente seu olhar para o túmulo. O comissário compreendeu e apenas se retirou.
_Bom trabalho tenente Sallaze.
Assim que o comissário se afastou Dancan deixou uma gota salgada e morna escorrer pelas lentes de seus óculos escuros. Sua fisionomia, sua expressão, continuou duro e sério. Ele lançou à rosa para junto da lápide de mármore cinzento. Ao ler as inscrições da lápide Sallaze franziu o semblante numa faceta curiosa e surpresa.
_Com licença, Sr. Sallaze?
_ Sim. Sou eu. _ Dancan virou-se e teve a aterrorizante experiência que Jack Rivell lhe descrevera antes. Viu diante de si um fantasma, a simples e medonha visão de Connely Edge parada de pé diante dele. Não, Connie não iria virar fantasma... Era um anjo então! Um anjo! Connie houvera virado um anjo!
_Eu sou Clea Edge, irmã de Connie, ela falava muito no senhor e bem, eu sei que está sofrendo tanto quanto eu. Só queria dizer que se precisar de alguma coisa...
_Secretária. _ ”Não era um anjo” pensou Dancan. Irmã gêmea, a irmã gêmea de Connie.
_O quê?
_A Connie havia me dito que... Você é boa secretária... Disse que eu devia contratá-la... Sei que não é boa hora Sra. Edge, mas...

Falou com a tira certa Sallaze! Minha irmã Clea está morando comigo e precisa de um trabalho! É... Já trampou como secretaria, é ótima! Profissional, capacitada, e tem um “belo par de seios”...

_Eu aceito o emprego Dancan... E me chame de Clea.
_Clea... Você pode começar amanhã?
_Oh... Sim, senhor Sallaze... Seria ótimo!
_Clea... Me chame de Dancan.
_Ta bem Dancan. _Clea riu meio sem graça. Dancan voltou a fitar a inscrição na lápide fria. Letras angulares, sérias. Ele voltou seu olhar para Clea e o sorriso da jovem moça já havia morrido tão rápido quanto nascera. Ela fitava o tumulo também.
_Clea...
_Sim?
_Você é a responsável pela inscrição na lápide?
_Sim, sou eu.
_Obrigado. Obrigado, de verdade.

Sanatório George K. Siegmund para criminosos insanos.
03h05min da madrugada.

_Faça ele parar! Por favor! Tirem ele daqui! Façam ele parar!
Os gritos eram arrepiantes, altos e sofridos, dignos de um filme de horror. Os ecos do sanatório faziam parecer que a voz vinha de todas as partes. Um homem de voz grave e forte, um pavor absurdo de quem só poderia estar sendo perseguido e torturado por forças demoníacas.
_Meu deus! O que é isso?_O jovem guarda fitou os corredores com o olhar tomado por medo. _Ouviu isso Morrison?!
_Relaxa novato. _Disse o segundo guarda com bigodes que exibiam sua idade avançada e com o tom de voz que exibia experiência. _É só o paciente da cela 503. Venha cá vou lhe mostrar...
_Por favor! Alguém me ajudeee... Façam ele parar... Tirem ele daqui em nome de Deuuussss....
_Em nome do santo Deus... Não me disseram que este lugar era tão apavorante quando aceitei o maldito emprego...
_O’brien... Você é um covarde... Veja aqui... _O guarda Morrison mostrou os monitores da mesa de segurança, a qual ele estava monitorando. Apontou para um monitor que mostrava uma cela acolchoada, lá se podia ver um dos internos. Homem alto e corpulento, amarrado numa camisa de força e encolhido num canto, parecia querer evitar a proximidade com o lado contrário da sala.
_Esse maníaco acredita que o espírito do pai está sempre na cela com ele...
_Jesus Cristo Morrison... Pobre coitado...
_Coitado nada... Ele é um psicopata...
_Não deixa de dar pena...
_Bem, eu vou ao banheiro... Você fica de olho nos monitores pra mim...
_Não demore...
_O’brien... Você é um grande covarde... _Morrison se levantou e caminhou em passos pacientes pelos corredores escuros, deixando o novato sozinho.
_Por favoooorrrr! Façam ele parar de olhar pra mim assim! Eu estou implorando! Socorroooo! Oh Deus! Oh Deus...
O’brien fitou o monitor e ficou a observar a cela 503. A imagem azulada e mal focada do monitor não deixava claro, mas O’brien teve certeza. Ele tinha certeza de poder ver um vulto no lado escuro do quarto, o vulto de um homem usando chapéu. Bem ali, no lado da cela acolchoada... Do qual o prisioneiro tentava a todo custo manter distância.
No dia seguinte o guarda O’brien largou o emprego.

FIM.

"Ama os teus pais, se são justos e honestos: caso contrário, suporta-os."_Publílio Siro.

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