FABULOPTERA.
"Extrai-se idéias de devaneios. Extrai-se idéias do tédio. Extrai-se idéias o tempo todo. A única diferença entre os escritores e as outras pessoas é que a gente percebe quando está fazendo isso." _ Neil Gaiman.
Gyz Carmel quase pegou no sono, cada palavra do professor de zoologia era como uma super dosagem de sonífero injetada diretamente na veia. Ela olhou para o caderno aberto sobre a mesa e viu-se diante do estranho desenho de uma borboleta. Nem havia se tocado de que estava copiando quase que exatamente os traços do pequeno e gracioso inseto. Lá estava ela, uma linda borboleta, preta e laranja. Havia pousado na janela da sala de aula e ninguém além de Gyz havia percebido. Curioso que a pequena estivesse ali, parada na janela, justo quando o assunto da aula era “borboletas”. Poderia ter vindo para aprender mais sobre si mesma.
_As borboletas são insetos da ordem Lepidoptera classificados nas super famílias Hesperioidea e Papilionoidea, que constituem o grupo informal Rhopalocera... Estão acompanhando nos seus livros?
As palavras do professor fizeram Gyz novamente cochilar. A jovem deixou o desenho no caderno ser contornado pelos cabelos negros e encaracolados, estes desciam conforme a cabeça dela pesava. Gyz Carmel era uma jovem adorável, seus cabelos escuros e a pele morena tornavam realista a beleza feérica da jovem. Era dona de um rosto perfeito, olhos estreitos e lábios finos e rosados, e um corpo escultural com dotes dignos de uma capa de revista vulgar. Também era uma mocinha muito inteligente, estava só começando a faculdade de biologia, mas já era autora das maiores notas, apenas o tédio lhe atrapalhava a estudar. Quem não dormiria ouvindo esse papo de borboleta? Pensou. De repente ela percebeu uma estranha sensação. Uma sensação de que havia esquecido alguma coisa importante. Tentou lembrar, mas nada lhe vinha a cabeça.
_As borboletas têm dois pares de asas membranosas cobertas de escamas e peças bucais adaptadas a sucção. Distinguem-se das traças ou mariposas, pelas antenas rectilíneas que terminam numa bola, pelos hábitos de vida diurnos, pela metamorfose que decorre dentro de uma crisálida rígida e pelo abdómen fino e alongado. Quando em repouso, as borboletas dobram as suas asas para cima.
Gyz não estava mais sonolenta. Estava tremendamente intrigada com aquela sensação. O que ela poderia ter esquecido? Não sabia. Não conseguia se lembrar. Começou a rabiscar o caderno impaciente, a obra de arte em forma de borboleta quase sumiu entre os rabiscos que acentuavam os traços fortemente.
_As borboletas são importantes polinizadores de diversas espécies de plantas. O ciclo de vida das borboletas engloba as seguintes etapas... A primeira é a de ovo ou fase Pré-larval. Esta fase segue para a larva , chamada também de lagarta ou taturana. A terceira é chamada de pupa , que se desenvolve dentro da crisálida ou casulo. Finalmente n´so chegamos ao imago, a fase adulta...
O sinal tocou fazendo com que todos os demais alunos se levantassem. O professor gritava algo sobre uma tarefa para a aula seguinte, mas ninguém deu ouvidos. Depois que todos saíram, Gyz continuou tentando se lembrar. Algo a impulsionava a isso. Deveria ser algo profundamente importante, para mantê-la ali depois da aula. Inútil, ela não se lembrava mesmo.
Uma borboleta. Aquela borboleta que pousara na janela, estava agora sobre a mesa de Gyz. Só então a menina percebeu que ficou ali parada por quase uma hora. Apressou-se em recolher suas coisas para ir. Duas borboletas. Uma segunda voava bem perto da mesa de Gyz. Estava aparentemente tentando se manter no mesmo ponto no ar, como se quisesse chamar atenção. Que desvairado absurdo, borboletas não tentam chamar atenção.
Outra Borboleta. Mais outra. Gyz viu que haviam dezenas de borboletas voando dentro da sala de aula vazia. Testemunhou uma cena única e fantástica. Borboletas multicoloridas dançando um balé aéreo de proporções fabulosas. Nenhuma seguia um padrão semelhante a outra. Cada uma era dotada de cores, combinações e traços distintos e perfeitos. A coisa mais bonita que ela já havia visto.
_Hey, pequeninas... Por Deus... _Ela sorria. Se levantou e ergueu os braços, nenhuma das pequenas acrobatas voadoras tocava a garota. Passavam estre suas curvas e desviavam de seu rosto sorridente. _ De onde vocês vieram?
_São minhas convidadas, Gyz Carmel._Uma voz pesada e sinistra veio de trás dela e congelou sua alma de medo. Ela virou-se o quanto antes e viu uma figura aterradora.
O homem que estava diante dela era uma aparição de imagem delirante. O rosto era de um homem de barbas muito longas, esta barba era completamente negra e se enrroscava em várias espirais que se moviam como se tivessem vida. Usava um manto negro que escondia todo o seu corpo. O manto se estendia pelo chão e se perdia de vista, as vezes as dobras do manto exibiam espirais ondulantes, semelhantes as da barba. A figura de cor negra predominante se mesclava com o escuro daquele canto da sala onde estava. Ele tinha os caninos estranhamente pontiagudos e orelhas longas e pontudas, mas o mais assustador eram os olhos... Não existiam... A entidade não possuia olhos. Sobrancelhas expressivas pousavam sobre duas cavidades desprovidas de olhos. Como se tivessem sido arrancados e a pele tivesse crescido por cima da ferida. Sem provas de que houvessem um dia existido.
_Oh meu Deus... _Sussurrou a jovem apavorada.
_Não sou o seu Deus, Gyz Carmel... Sou uma entidade completamente diferente do chamado “criador”... Embora as criações estejam em minha alçada... _Ele saiu do canto da sala e caminhou lentamente na direção da garota. Ela estava em chóque. Não conseguia fugir. Era como um devaneio, um sonho. O manto negro parecia hora ou outra manifestar de relance, figuras de lindas borboletas. Conforme ele se movia, as borboletas do tecido, feito aparentemente da própria noite, se manifestavam ganhando vida e alçando vôo.
_Seu olhos... Seus olhos...
_Aquele que é capaz de exergar com o saber... Não precisa deixar um sentido tão falsário quanto a visão interferir em sua percepção.
_Quem... Quem é você? _A menina estava deveras, assustada, mas também intrigada e curiosa.
_Conto. Eu sou o conto. Sou o contar de estórias em pessoa. Uma personificação fisíca do ato de criar e passar adiante fabulas e outras obras ficiticias ou não. _O número de borboletas parecia aumentar conforme ele falava.
_E o que você quer comigo?
_A pergunta correta é o que “você” quer comigo.
_Não quero nada com você! E porquê tantas borboletas?
_Borboletas são boas. São minhas mensageiras, elas sussurram os mais antigos contos em seus ouvidos. Logo vocês acabam passando adiante. É um ciclo funcional perfeito.
_Borboletas fazem oquê?!
_O que seu professor mortal a ensina aqui? Ele não instruiu esta manifestação cultural de ensino e aprendizagem com informações reais sobre borboletas? Se é assim... Porquê você e seus companheiros ainda ouvem?
_Na verdade eu não sei... _Ela meneou com a cabeça e fitou a figura bizarra por um instante. _Mas qual é a verdade sobre as borboletas então? Você pode me dizer?
Estou diante de um ser que, até agora, só consigo imaginar ser o diabo ou a própria morte, então... Porquê estou falando com ele como se fosse um amigo próximo?
_Apesar de não ser o motivo de minha intervenção neste plano de realidade... Sim. Eu vou dizer lhe a verdade sobre todas as borboletas de seu mundo e de todos os infinitos outros.
A figura fantasmagórica se moveu como se estivesse se contorcendo em baixo do manto. Moveu seu braço para trás de forma que seu corpo inclinou numa dobradura que faria qualquer espinha humana se quebrar. Tudo isso para estender o dedo extremamente longo e permitir que três borboletas vermelhas pousassem sobre o mesmo.
_ As borboletas são mensageiras confeccionadas com sonhos, devaneios e delírios. Pertencem a ordem Fabuloptera, classificados nas super famílias, super criativas, super talentosas, Especioidea e Papirucriationoidea que constituem o grupo informal Estoricera, que é o responsável por manter vivas todas as estórias.
Ele aproximou o dedo do rosto da menina de forma lenta e gentil. As três pequenas borboletas vermelhas, ainda pousadas ali, abriram e fecharam suas asas como se estivessem se exibindo para Gyz. A menina ficou fascinada.
_As borboletas tem dois pares de asas sedosas e perfumadas com a morte de um anjo, possuem também a capacidade dos mais baixos e melhor audíveis sussurros entre todas as bestas. Distinguem-se dos fatasmas, por nunca terem estado vivas, na verdade seu estado de existência transcende a idéia de vida. Em suas vidas passam por uma metamorfose que decorre dentro de uma dimensão paralela que elas podem criar e enclausurar em crisálidas, elas chamam isto de ”tatear o nada”. Elas têm o abdómen fino, alongado e extremamente sensual a quem se permite ver. Quando em repouso, as borboletas dobram as suas asas para cima e suas almas para baixo.
_O quê?! O que tudo isso quer dizer? Eu não to entendendo... Elas não são só insetos?!
_Se o seu Deus for justo, você queimará nos poços do tártaro de Lúcifer por este sacrilégio. Borboletas são criaturas sagradas/mágicas/divinas. Elas merecem seu respeito... Se não, sua adoração.
_Está bem! Desculpe! Não sabia que borboletas contavam estórias...
_Espero que seu comentário sarcástico não seja intencionado em ofensa a estas musas aladas... Mas para cada descrente, existe uma boa alma de extrema fé, disposta a fornecer uma prova milagrosa...
_Uma prova de que as borboletas contam estórias?
_Correto.
_E qual seria?
_Qual foi a primeira vez que ouviu a estória de “chapéuzinho vermelho”?
_Quando era criança, eu acho...
_Quando exatamente? Desconhece tal data?
_Não... Acho que foi na escola, minha professora contou...
_Tem certeza?
_Na verdade, não.
_Isso porquê não foi sua professora que contou, nem sua mãe e nem um amigo... Uma borboleta sussurrou esta estória em seus ouvidos...
_Deve estar brincando...
_E todas as outras estórias, fábulas, crônicas, tomos, contos, tudo que não se lembra de onde veio. Tudo foi contado pelas borboletas...
_Peço desculpas...
_Eu a perdôo por ter me interrompido. Já que o perdão pela blasfêmia, só as borboletas poderiam conceder. Felizmente são conhecidas pela benevolência. Agora eu continuarei a explicar-lhe. Cale-se e ouça.
Gyz apenas permaneceu em silêncio, pois mesmo que estivesse estranhamente se acostumando com a presença da entidade, a ponto de conversar com aquilo, ainda assim sentia certo receio. Não, era medo. Medo seria um termo muito mais adequado.
_As borboletas são importantes polinizadores de diversas espécies de contos e estórias, sendo responsáveis por levar até a humanidade e demais povos, estas estórias. Elas mantém os contos vivos... O ciclo de vida das borboletas engloba as seguintes etapas... A primeira é a de “criação”, quando eu ainda estou tecendo sua forma com idéias acordadas e adormecidas. Esta fase segue para a “palavra”, nessa fase elas são apenas a minha voz, não tem manifestação carnal. A terceira é chamada de “caixa de big bang”, que se desenvolve dentro da vontade de existir ou crisálida. Finalmente nós chegamos ao “perfeito”, a fase adulta... Quando são as infinitas deusas mensageiras das fábulas...
De repente todas as pequenas maravilhas aladas começaram a alçar vôo freneticamente, num grande ato magistral de pura beleza e divindade. “Conto” sorriu observando a jovem Carmel que estava fascinada com o espetáculo aéreo.
_É lindo... Daria qualquer coisa para estar aí em cima com elas...
_Pode ser providenciado, Gyz Carmel...
_Sério?
_Você ainda não se indagou o que eu vim fazer por você?
_Oh... Bem... Não...
_Sugiro que o faça neste instante. Você esqueceu uma estória muito importante. Eu vim aqui para lembrá-la...
_Verdade... Eu esqueci alguma coisa... Mas não faço idéia do que seja...
_Qual é a sua idade?
_Eu tenho... Vinte? Vinte e um... _Só então Gyz percebeu que havia se esquecido da própria idade.
_Não se preocupe Gyz Carmel. Vocês deste mundo contam seu tempo de vida a partir do dia do nascimento, que para vocês é quando a mãe mortal os expeli do corpo. Qual é a data de seu nascimento?
_Eu nasci... Em que ano mesmo? _Ela não possuía a resposta.
_Qual é o nome de seus pais? Qual é a sua cor favorita? O que comeu no almoço hoje? Como é sua imagem num espelho? Quem você ama? Quem ama você? Você realmente está matriculada nesta turma de biologia ou seria letras a sua área? _Ele a bombardeou com a alarmante resposta. Ela não tinha nenhuma daquelas respostas. Esquecera-se de tudo.
_Não pode ser... Eu não lembro nada... Nada... _A menina começou a chorar. Lágrimas caiam rápidas, era como se seu rosto fosse impermeável e as lágrimas tivessem pressa de tocar o chão.
_Você esqueceu sua própria estória Gyz Carmel. Eu posso lembrá-la. Este é o seu desejo? _A garota assustada apenas acenou com a cabeça dizendo que sim. “Conto” sorriu. Ele se dirigiu ao quadro negro da sala e começou a escrever algo no mesmo. Não usava giz algum. Seus dedos. Seus dedos extremamente pálidos deslizavam pela louça e descreviam uma vida inteira. As borboletas perceberam a estória que vinha pela frente e trataram logo de se sentar. Cada uma pousou num ponto diferente entre cadeiras e mesas, todas com as faces voltadas para o quadro negro.
_Prestem atenção todos vocês... Prestem atenção a estória da vida de Gyz Carmel... Pois a vida dela influencia a sua...
Gyz não entendia bem se ele estava contando para ela ou para as borboletas... Ou para todo o mundo... Desconfiava que isso fosse possível. Que “Conto” poderia transferir as palavras pra todo o mundo ao mesmo tempo. De qualquer forma, ela precisava ouvir. Então se sentou e apenas observou.
O quadro negro se distorceu e uma imagem vivida como a de uma TV tomou o seu lugar. Na imagem havia um lugar escuro... Uma casa velha e mal iluminada. Uma mulher gritava de dor e Gyz pôde ouvir o grito... Ver a mulher... Sentir o cheiro de sangue...
_Preste atenção leitor. A vida de Gyz Carmel está diretamente ligada a sua... Esta é a sua estória também...
A mulher gritava monstruosamente. As convulsões faziam seu corpo sentir os impactos do divino milagre, a criança tão frágil lutava destrutivamente para sair do ventre quente e úmido da mãe. Uma vontade de viver tão grande quanto à própria realidade. Por fim o choro triunfal do recém nascido dominou a noite. O riso majestoso do pai dançou junto com a voz do pequeno enquanto a mãe se encerrava em silêncio para sempre. A mãe faleceu sorrindo ao fitar sua filha pela primeira e ultima vez. Sua missão estava cumprida, ela estava feliz. A morte fora um preço justo pela mais valiosa de todas as vidas. Assim nasceu Gyz Carmel.
Era uma época difícil. O pai de Gyz estava desempregado, passava quase todo o dia em casa. A falta de uma ocupação descente fez dele um homem violento durante os anos. Espancava a filha sempre que algo dava errado em sua patética e deprimente vida. O senhor Carmel vivia do dinheiro que conseguia apenas por guardar material ilegal em seu apartamento, os verdadeiros donos buscavam a mercadoria regularmente, desde que Carmel ficasse calado, ele e a filha teriam o que comer. Os patrões sempre foram generosos com seu amado funcionário, ele era constantemente humilhado e feito de tolo por homens maus. A violência morava em seu corpo. Seres vis e baixos, ridículos arremedos de homens. A vida era cheia de erros... Como dito... Seu único alívio era descontar... Educar sua filha com o cinto e ocasionalmente suas lâminas de barbear. Sempre foi olho por olho e dente por dente. Até Talião concordaria que não importa de quem seja o olho... De quem seja o dente...
Gyz rezava todas as noites para que seu tormento acabasse.
“Querido Deus...
Sou eu de novo, a Gyz. Por favor, não fique de saco cheio do som da minha voz. O senhor é o único que a ouve, odiaria ter que evitar falar com meu único amigo.
Eu vou pedir algo diferente esta noite... Mas primeiro vou fazer meus pedidos de sempre, os de rotina.
Eu quero muito que meu pai tenha um emprego onde ninguém bate nele. Assim ele também não baterá em mim... Quero que ele seja escritor ou jornalista...
Eu ficaria muito grata se o preço das lâminas de barbear subisse um pouco... Assim talvez ele compre comida em vez delas... Mas não suba muito os preços, algumas pessoas precisam delas para se barbear...
Por favor, diga à mamãe que estamos todos bem e que estou ansiosa por conhecê-la. Eu fiz um presente para ela, um poema, mas não o direi ao senhor... Eu ficaria envergonhada...
Peço que alimente os pobres e os ricos e especialmente aquele cãozinho que estava na porta da escola hoje, ele me deixou acariciá-lo... Eu fiquei muito grata... Perdoe-me por não ter adotado o cãozinho. Meu pai não permitiria.
Perdoe-me por irritar papai, não quero atrapalhar o trabalho dele. Perdoe-me por ter matado mamãe. Juro que fiz sem querer... Eu só queria nascer...
Bem, o que eu tenho para pedir a mais hoje não é algo muito importante, mas eu seria uma menina muito feliz se o senhor atendesse meu desejo.
Senhor bondoso e bonito Deus, posso ser uma borboleta? Por favor?
Boa noite Deus. Tenha bons sonhos.”
Mas o tormento não acabava. Dia após dia, noite após noite. O amor paterno distorcido em brutalidade sem sentido. Ele não se tornou escritor ou jornalista. O preço das lâminas de barbear não subiu. Gyz Carmel não virou borboleta e nunca deixou de amar o pai.
Foi numa noite tão obscura quanto certos corações, que aconteceu. Aquele dia ficou conhecido para a pequena menina como o dia em que seu pai foi assassinado.
_Deixe-nos entrar Carmel. Se não abrir esta porta imediatamente, meu amigo, o senhor woolvis, terá que soprar e soprar, até cair toda a sua casinha...
Era a voz de Lars Hooks. Um maníaco sádico sedento de sangue. Trabalhava para um chefão da máfia. Ele trazia consigo, Bradley Woolvis, ex-lutador de vale tudo e atual gorila de estimação dos patrões que o pai de Gyz tinha em comum com eles.
O senhor Carmel achou que seria inteligente arrebatar uma parte da cocaína de seus mandantes para saldar as contas. Havia complementado a droga com farinha de trigo e rezou para que jamais desvendassem seu saque. Eles desvendaram.
_Carmel... Você não me ouviu? Abra a porta, porquinho... Ou meu amigo lobo mal vai esmurrar a porta até dilacerá-la e em seguida ficará feliz em devorá-lo... É claro que preferiria comer uma... “Chapeuzinho vermelho”, Não tem nenhuma chapeuzinho vermelho aí com você, tem Carmel?
A porta se despedaçou muito antes de Carmel ter dado as voltas de chave necessárias para abrir. Os dois malacafentos assassinos entraram na casa e ali mesmo começaram a agredir o pobre homem indefeso. Enquanto Woolvis transformava os órgãos internos de Carmel em lavagem para porcos, Lars Hooks se deliciava com sua fascinante conversa.
_Sabe Carmel? O senhor West não ficou feliz de saber que você roubou dele. Ele deu a permissão de virmos aqui e pedir uma explicação. _O senhor West era o grande chefe por traz de todo narcotráfico da cidade. De muitas outras na verdade. Ouvir seu nome já era motivo de escrever um testamento enternecedor. _Em vez de pedir explicações, nós vamos apenas matá-lo.
Lars colocou sua arma em cima da cama e retirou um bem curvado gancho de metal reluzente.
_Ele já não vai conseguir fazer mais nada, Lars. Eu implodi os rins e o fígado, perfurei os dois pulmões e quebrei a maioria das costelas... Ele não vai se mexer...
_Quer apostar, senhor Woolvis? Tenho certeza que depois de eu começar a rasgar a carne com meu digno gancho de combate... Ele irá se mover... Fará de tudo para isso... Para se mover... Para fugir...
_Ele nem deveria estar vivo. É um cadáver fresco que está diante de você. Ele não se moverá.
_Se está tão certo, meu derradeiro e poderoso amigo pugilista... Não se importará em fazermos nossa aposta...
_Aposto o que quiser.
_Então a aposta é o seguinte. Se eu conseguir fazê-lo se mover com minhas torturas... Eu poderei estuprar a garotinha escondida debaixo da cama. Se você vencer, estupre-a você.
_Fechado.
Os dois assassinos se viraram para a cama. Queriam intimidar a menina a ponto de vê-la defecar nas calças, mas estarreceram diante da figura pequena e inocente da menininha. Estava com a arma em punho, a arma que Lars deixara em cima da cama.
_Oh, que gracinha. Que menina destemida. Ela está armada senhor Woolvis.
_É o que parece senhor Hooks.
_Aposto que é a primeira vez que pega um berro desses nas pequenas mãos...
_Não apostaria contra você nessa, senhor Hooks.
_E aposto que não sabe onde fica a trava de segurança da pistola. A qual sem ser destravada... Impede que aja algum disparo. Não é senhor Woolvis?
_Mais uma vez. Não aposto quando sei que vou perder. Senhor Hooks.
_Eu sei como funciona a trava. _Disse a menina antes de começar a atirar.
O senhor Carmel acordou e percorreu seus olhos pelos corpos de seus agressores mortos. Baleados a esmo por uma arma de forte calibre. Viu também sua filha ajoelhada a seu lado, estava chorando e tremendo.
_Oh meu anjo... Eu sinto muito por tudo que passou... Você salvou seu velho da morte... As coisas vão ser diferentes pra nós agora querida... Eu Prometo...
O velho senhor Carmel estava mentindo. Ele sabia que voltaria a bater na menina, sabia que voltaria a cortá-la para relaxar. Carmel sabia que espancaria a filha assim que estivesse em condições e percebesse que o senhor Bernard Butchy West mandaria outros assassinos para vingar os dois mortos.
_O que você tem na mão, Gyz querida?
Naquela madrugada a casa toda emitia sons, parecia que pessoas invisíveis passeavam pela casa, fazendo o assoalho ranger. Não havia ninguém caminhando pela casa, nenhum fantasma e nenhum invasor. Gyz estava inerte observando seu pai, portanto também não andava. O senhor Carmel estava deitado no chão imóvel, ao lado de dois cadáveres de assassinos imundos. Carmel mantinha-se paralisado dentro da poça de seu próprio sangue, ele também não se movia. Estava morto.
Gyz deixou a lâmina de barbear cair no chão, era difícil segurá-la já que estava pesada, encharcada com litros do sangue quente do homem que até então ela conhecia como “pai”. Ela compreendia o que havia acabado de ser feito, sabia que tinha tirado a vida do pai, que ele nunca mais se levantaria dali. O estômago dela estava se revirando como uma máquina de lavar cheia de roupas extremamente sujas. Sua cabeça estava formigando. Seus cortes e hematomas estavam doendo, ardendo, queimando. Ele a havia espancado e torturado de novo, ela entendia o que tinha feito e não se arrependia...
_Pode parar. _Gyz falou com tom decidido e forte.
_Acaso não quer saber de sua própria estória, criança? _Conto estava sendo claramente sarcástico. Ele sabia que ela sabia. Ela sabia que ele sabia que ela sabia.
_Chega de mentiras.
_Você me acusa de compartilhar da paixão dos embusteiros e dos galhofeiros?
_Eu não preciso que me conte nenhuma estória sobre minha vida. Eu já me lembrei de quem sou. E a estória que você contou é totalmente falsa. Nunca aconteceu!
_Só por que uma estória não relata um evento que tenha acontecido, não significa que este não seja verídico.
_De qualquer forma. Eu agora me lembro de quem sou.
_Então, Gyz Carmel... Quem é você?
_Eu sou uma borboleta. Não é isso? Eu não me lembro de minha estória por que não tenho uma... Sou apenas a contadora de muitas, sem possuir uma estória própria...
_Errado.
_Errado?!
_Totalmente incorreto. Você jamais foi uma borboleta. Apesar de já tê-las criado.
_Eu sou...
_Exato.
_Sou você? Eu sou... Eu sou você.
Conto se aproximou mais da menina e sorriu. Ela sabia que era verdade. As borboletas pousaram uma a uma sobre o corpo dela, tingindo de arco-íris noturno o corpo e alma da garota. Conto fitou a menina com seus inexistentes olhos.
_Bravo. Bravo, Gyz Carmel. Você sou eu.
_Mas eu não entendo como... Você está aí... E eu aqui...
_Esqueça estas frivolidades, tempo, espaço e lógica são apenas idéias._Retrucou o ser indistinto com um tom de voz autoritário, parecia um professor que ensinava a mesma lição pela quadragésima sétima vez.
_ Ouça o que tenho a lhe dizer... _Continuou. _Há algum tempo, uma quantidade de tempo nem pequena nem grande, que não pode ser medida em padrões humanos, eu decidi que queria viver uma vida mortal. Não ser uma personificação de uma idéia e sim um dono de meu próprio destino, sem texto, sem roteiro, sem controle... Apenas ser vivo... Então criei uma vida para mim. Eu nasci, cresci e em fim morrerei. Percebi que a vida é uma idéia de existência que transcende qualquer outra experiência dos universos.
_Então eu sou uma parte de você?
_É o mais próximo da verdade que conseguirá compreender...
_E por que veio me lembrar disso?
Ela passeava entre uma densa cortina de borboletas que lutavam para agarrá-la. Esquivava do desejo de todas as entidades na sala.
_Por que minha experiência acabou. Eu pude sentir uma vida através de você, eu agradeço. Mas é hora de sermos um de novo.
_Não! Espere! Eu não quero deixar de viver minha vida!
_Não vai morrer. Não é mortal. Você vai voltar a ser uma parte de mim... Sem o fator de consciência própria.
_Mas eu não quero isso! _Vociferou a menina.
_Você “não quer”? Você é uma extensão de minha existência, extensão da minha vontade. _Conto parecia ficar cada vez mais alto, se insinuando acima da jovem Carmel.
_Você não me deu vida? Livre arbítrio? Sendo assim, tenho direito a viver!
Conto ergueu-se ainda mais. Sua voz começou a soar furiosa, tempestuosa. Em seu manto negro imagens distorcidas e quase incompreensíveis começaram a se formar, uma ilusão delirante e fantástica.
_Um homem estava dormindo nas ruas, pois não possuía moradia. Um grupo de jovens considerou que seria divertido vê-lo queimar. Atearam fogo e assistiram sua morte.
Na escuridão do denso a imagem de cor verde clara parecia formar um homem deitado no chão. Figuras estranhas e escuras se aproximam e de repente tudo se torna chamas vermelhas e imagens diabólicas, de seres sorridentes com chifres, aparecem em meio a estas chamas.
_Um pai atirou a própria filha do quarto andar de um edifício, alegando insanidade, escapou imune.
O manto desenhou em tons de rosa e amarelo a figura de uma pequena criança em queda livre, ao chocar-se com o chão, explodiu numa nuvem colorida e em seu lugar apareceu uma alcatéia de cães furiosos latindo.
_Uma menina foi estuprada e acabou grávida. Ela abortou. A igreja excomungou todos os médicos e a mãe da menina. O estuprador ainda poderá ir para o céu.
O verde e o alaranjado mostravam uma menina grávida arrancando o feto de dentro de si e lançando ao chão, em seguida, a imagem de um sacerdote com uma cruz em mãos banindo a jovem.
_Um grupo de agricultores tentou se apossar de terras desapropriadas. Foram massacrados por monstros armados e covardes.
Figuras prateadas passeiam felizes por terras verdejantes, até que são surpreendidos por disparos de luzes brancas e vermelhas que fazem os prateados se dissiparem como névoa.
_Uma garota cometeu um crime menor, foi encarcerada por suas autoridades mortais em uma cela com trinta homens, foi estuprada durante um mês até que finalmente corrigiram o erro.
Uma figura frágil e branca cercada por gigantescas criaturas roxas e violetas com garras e dentes. Quando os monstros atacam a pequena luz clara... Ela fica vermelha e borrada.
_A AIDS faz o seu povo sofrer dores imensuráveis, em vez de ajudar, a maioria das pessoas vira as costas para elas.
Pessoas vermelhas implorando com gestos sofridos, mas ignorados por altivas pessoas azuis e douradas.
_Países inteiros com gente morrendo de fome sem que ninguém simplesmente os alimente.
Agora as cores azuladas e escuras pareciam ser de muitos e muitos braços magros e esqueléticos que tentavam agarrar alguma coisa num lugar alto. No lugar alto um pequeno menino magro de barriga inchada. As mãos magras o esquartejaram e dividiram entre si a carcaça do menino.
_Senhores da guerra mandam seus meninos e meninas lutarem entre si, até a morte... Para que no final do derramamento de sangue, eles vençam.
Batalhões brancos contornados de vermelho e batalhões negros contornados de azul se encontram num campo de batalha e explodem numa bomba nuclear de cores bruxuleantes, escuras e vívidas, tudo explode em um arco-íris sem forma. O manto volta a ser apenas negro.
_Em seus olhos eu testemunhei um mundo cheio de dor e sofrimento... E este é apenas o desespero de outras pessoas, o seu sempre parecerá ainda maior. Por que quer ficar?
_Para cada descrente, existe uma boa alma de extrema fé, disposta a fornecer uma prova milagrosa...
Conto calou-se.
_Além disso...
Ela caminhou em passos delicados e calmos. Segurou o rosto de Conto com toda a delicadeza e afeto que se deve ter por si mesmo. Acariciou a face sinistra da figura fantástica e sussurrou em seu ouvido, tal qual fazem as borboletas.
_É por tudo que eu senti...
Algo aconteceu naquela sala. Duas onisciências se chocaram e se compartilharam, duas formas de saber de todas as coisas foram unidas. Não é possível para este autor descrever um evento ao qual, ele mesmo não compreende. Imploro perdão por não saber o que tudo aquilo significou, mas entendam que nós ainda não podemos conceber aquele... Evento... Situação... Ocorrência... Acontecimento... Big bang... Episódio... Fenômeno... Milagre... Mágica... Coisa...
_Eu entendo.
Conto se virou, dando as costas para Gyz. O número de borboletas pareceu, de repente, atingir o infinito. Voando violentamente de um lado para outro. Os movimentos das borboletas fizeram que uma aurora boreal de asas preciosas destruísse aquela parca versão de realidade para dar lugar à outra infinitamente mais esclarecida, porém, compactada ao tamanho de uma sala de aula. Conto virou-se novamente para Gyz e começou a recitar um texto natural e espontâneo. Uma aula de vida.
_Em cada respirar. Em cada refeição. Em cada palavra falada. Em cada palavra ouvida. Em todas as pessoas que criam e moldam você, que você chama de família e amigos. Em todas as pessoas que você pode moldar, ajudar.
_Cada sensação única. Prazer. Dor. Medo. Alegria. Amor. Tesão. Euforia. Felicidade. Tristeza. O sublime direito de sorrir e chorar. O poder de sonhar com tudo aquilo que existiu, nunca existiu, existe, não existe, existirá e nunca existirá.
_Dançar, cantar... Tocar um instrumento de cordas ou sopro... A Obsolescência do silêncio...
_Pular, correr, brincar... A jurisprudência da juventude...
_Ser aquilo que se escolhe ser. Fazer aquilo que se quer fazer.
_Arcar com toda e qualquer conseqüência de ser feliz, sem medo de errar, de fazer merda.
_Voar sem possuir asas... Seja via máquinas aéreas ou a imaginação... Tecer mundos e vidas em magníficas estórias que são passadas adiante em sussurros de borboletas que rasgam a galáxia na imensa velocidade do batimento cardíaco.
_Escrever certo em linhas tortas sem perceber que se está fazendo algo que supostamente só os Deuses deveriam ser capazes...
_Fazer amor com todos os ímpetos de satanás e trepar com toda a paixão e o respeito de Deus.
_Viver. Existir. Compartilhar tudo isso com alguém especial.
_Ou, um qualquer, que passará a ser especial.
_Morrer. O prazer de saber que se tem um fim e o anseio de não saber se haverá também um recomeço. E o saber que se tem pouco tempo, para causar a coragem de viver intensamente todos os dias como se fosse o último.
_Por que um dia vai mesmo ser.
_Viver... A adrenalina de ter um organismo funcional com uma alma possivelmente imortal, encarnada...
_A vida é uma longa estória. Você a conta como quiser, mas sempre haverá principio, meio e fim.
_Principio...
_No principio não somos nada, até então ninguém se importa.
_Fim.
_No fim, você acaba se chateando, pois quer bis e talvez não tenha.
_Meio...
_É no meio que a estória ganha vida, é no meio que tudo fica interessante, é no meio que você sente vontade de terminar a estória.
Medo. Um medo arrebatador atingiu Gyz Carmel como um projétil balístico de realidade. Atingiu direto no lóbulo inferior de seu coração. Mil calafrios incumbiram em sua espinha. Os lábios tremeram e ela retrucou com desespero.
_E se eu chegar ao meio e perceber que errei... Ou que não me interessa saber qual é o fim?
_Se isso acontecer. Reescreva.
O autor percebeu que havia dormido sobre a máquina de escrever de novo. Sua testa, que repousara no instrumento de escrita, exibia algumas letras marcadas na testa. Ele esfregou o rosto com a palma da mão e engoliu os últimos goles do café, já gelado, sem nem sentir o gosto. Olhou para frente e percebeu que havia terminado seu conto. Como posso ter escrito uma biografia de outra pessoa? Quem seria Gyz Carmel? Não importava. Havia ficado perfeito.
Ele se levantou da mesa e foi para cama. Deitou-se para reclamar seu merecido descanso na terra dos sonhos. Enquanto isso uma pequena borboleta cheia de cores caminhava pela folha de papel, subindo para ganhar altitude. Assim que julgou estar alta o bastante, a borboleta despontou ao ar, voando ilustre. Um vôo sofrido, porém destemido. O atrapalhado balé das fabulópteras, felizes em seguir em diante... Levando os contos, as estórias, as fábulas... Espalhando para cada ser vivo, a mensagem de, talvez, sua própria vida.
E por todo sempre será assim. As borboletas irão planar céleres por cada ouvido a receber sussurros. Toda estória deve ser contada, se você não conhece alguma ou se esqueceu, elas virão contar-lhe, virão lembrar-lhe. E se você se esquecer de sua própria estória... Elas terão imenso prazer em contar um conto distinto de todos os outros, uma estória inédita em detalhes vívidos e vibrantes. Jamais despreze sua vida, pois ela é dotada de uma fascinante obra literária temperada com verdade. Permita que outras pessoas leiam você, permita que outras pessoas ouçam você. Sua estória é única e se uma única pessoa quiser saber, incluindo você, valerá à pena contar… E não espere que uma borboleta tenha que carregar esta obra para outros ouvidos, faça isso você mesmo... Bem, comece...
Porque eu me interessei por seu conto de vida.
FIM?
Depende de você...
terça-feira, 28 de julho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário