terça-feira, 28 de julho de 2009

BASEMENT CRAWLER’S

“Ou você acha, mas acha MESMO, que um herói decide matar um vilão apenas por que ele existe?!” _Marcelo Cassaro.

As três figuras em mantos encapuzados entraram na taverna sem nada dizer. Caminharam até a mesa mais isolada dos demais freqüentadores da taverna e se sentaram. Ninguém pareceu se importar, quando a jovem e bela garota de vestido os perguntou o que iriam querer, um deles se prontificou a falar o pedido de todos. Ele apontou para o mais magro dos três misteriosos fregueses e disse:
_Minha amiga gostaria de apreciar as mais frescas frutas vermelhas que você tiver, também gostaria de algumas uvas bem escuras e beberá vinho tinto suave...
A voz saia do manto como veludo sonoro. Suave e firme. Era óbvio, estou lidando com um nobre, pensou a rapariga mostrando sutilmente o decote. Este nobre apontou para o maior e mais corpulento, sentado a seu lado. As pernas deste gigante mal eram ocultadas pelo manto.
_Meu colossal companheiro aqui gostaria de comer javali assado, um inteiro se possível. Também é um amante das costeletas de carneiro desta região e não dispensaria uma cesta de pão e um belo e branco queijo. Quanto à bebida, ele só ficará satisfeito se tiver cerveja bem quente.
_E o senhor? O que vai querer? Posso oferecer o que o senhor quiser... _ A rapariga aproximou-se como se quisesse ouvir melhor o pedido, mas convenientemente aproximou seu decote cada vez mais do rosto de seu cliente.
_Eu não irei comer nada minha adorável atendente, mas me traga uma taça com uma mistura de três das suas bebidas mais fortes e de sobremesa deixe a porta de seu quarto destrancada esta noite.
A jovem abriu um enorme sorriso e voltou saltitando para a cozinha, ansiosa por preparar o quanto antes a parte do pedido que pudesse ser atendida durante o dia.
Instantes depois a comida e a bebida foram servidas e os três viajantes começaram a se servir. De uma mesa ao balcão de madeira velha, uma conversa entre os moradores da pequena vila acontecia.
_E quando estes malditos matadores de dragão chegarão?
_Não sei, mas ouvi dizer que eles são bons. _Respondia o dono da taverna.
_Ótimo, esta cidade nunca precisou tanto de heróis como agora. Se já não bastassem os malditos orc’s que vieram outro dia querendo quinhentas peças de ouro... Ainda temos que encarar um dragão?! Isso é um absurdo... Só espero que esses bufões sejam mesmo heróis de verdade...
O homem de capa e capuz se levantara naquele momento. Ele retirou seu disfarce e revelou de fato as roupas de um nobre, muito bem adornado com tonalidade cinza e branca. Usava anéis e mantinha no chão uma lustrosa bengala negra. Seus cabelos eram longos e ondulados, cabelos e um cavanhaque negro que se ligavam por um fio de barba nas extremidades do rosto. Seu olhar era prepotente e ardiloso.
_Pois se são heróis que vocês buscam... Parem de procurar meus queridos e respeitosos habitantes de... de...
_Flor de Ida. _Sussurrou a voz feminina para ele.
_Habitantes de Flor de Ida. Os heróis que vocês procuravam acabam de chegar.
_E vocês são mesmo bons?_Perguntou o dono da taverna.
_Se somos bons... Bem, creio que posso demonstrar a vocês. Se olharem a minha direita..._Ele apontou para o grande homem a seu lado, este se levantou e retirou o capuz. Ele tinha barba e cabelos longos, um corpo monstruosamente musculoso e usava uma armadura de couro e placas de metal. Em sua cintura repousava um imenso machado duplo.
_Este é Kontrek, o bárbaro. Kontrek é sem sombra de dúvida um dos mais poderosos guerreiros do mundo, ele já venceu hidras, minotauros, dinossauros, demônios e mantícoras...
_Mas ele já matou um dragão? _Perguntou incrédulo o dono da taverna.
_Apenas dois não é Kontrek? O azul e o branco.
_Mas Dorian... Não matei o branco...
_Mas o venceu e é isso que importa!
_Mas eu não...
_Se olharem a minha esquerda poderão ver também mais um exemplo de nosso triunfo garantido.
Ao perceber que Dorian tentava calar Kontrek, a mulher se levantou e retirou o capuz. Ao contrário dos outros dois, ela manteve a capa no corpo, mas permitiu que esta abrisse e mostrasse o corpo escultural da mulher de longos cabelos negros como a noite. Seu corpo era coberto além da capa, apenas por uma mini saia de couro apertado que mal lhe cobriam a coxas. Botas longas e escuras de cima dos joelhos até o chão e um espartilho que fartava a visão de todos com o generoso decote.
_Senhores, esta é Elly Blair. Uma poderosa bruxa. Seus poderes mágicos e obscuros são apenas superados em intimidação por seus tornozelos tortos, mesmo que ela os esconda habilmente com as horríveis botas...
_Vou matá-lo por isso Dorian, sabe que vou matá-lo. _Ela sorria para a multidão e sussurrava as palavras ameaçadoras, mas Dorian respondeu com deboche.
_Também te amo meu pudim de ameixa.
_Não durma esta noite Dorian... Não durma...
Todos na taverna começaram a direcionar olhares duvidosos para seus viajantes, ao perceber isso, o nobre Dorian tratou de resolver a situação.
_E eu senhores, sou Dorian Oswald Blake. Médico, ferreiro, cientista, curandeiro, artista circense, ocultista, ator, mágico, musico, pintor, escriba, espadachim, babá, adestrador de animais, escritor, ninja, agricultor, marinheiro, jogador, cozinheiro, advogado, estudioso e gênio... _Fez um pausa e então continuou. _Dentre outros talentos... Por que não fazemos o seguinte? Disseram que também tem problemas com orc’s... Permitam que nós afugentemos estas criaturas para vocês, assim provaremos nosso valor e prepararemos a batalha contra o dragão.
As pessoas não tinham muita escolha, além disso, o embromador as convenceu facilmente. Dentro de poucas horas eles se prepararam para o ataque dos orc’s. De acordo com o dono da taverna, eles vinham todas as semanas para saquear. A menos claro que eles pagassem um saco com quinhentas moedas de ouro, economias que fariam falta para aquela humilde vila. Eles haviam finalmente reunido as economias necessárias, mas os três heróis viajantes garantiram que eles não teriam que pagar.
Quando os orc’s chegaram, todas as portas e janelas de Flor de Ida estavam fechadas. Os orc’s eram monstros estranhos e assustadores. Seus corpos eram humanóides, mas a pele deles era cinza escura e viscosa. Seus rostos eram deformados com protuberâncias acima dos olhos vermelhos e presas salientes. O grupo de monstros arruaceiros quebrava tudo o que estava a alcance enquanto passavam. Tinham armas rústicas e primitivas. Eles urravam e gritavam profanamente.
Logo, como de costume, os orc’s entraram na taverna para recolher seu pagamento, o dono da estalagem estava sozinho.
_Oh... Vocês chegaram cedo... Perdoem... Eu não peguei seu saco de moedas ainda...
O horrendo saqueador pareceu ofendido e irritado. Aproximou-se lenta e assustadoramente do pobre estalajadeiro.
_Você está brincando conosco velho?! Não tem medo de morrer? Eu sou Skadratch, o sanguinário! Minha reputação me precede! Meu bando é o mais forte e sanguinário destas terras! Cruzar meu caminho é como cuspir num deus, uma burrice que se pune com dor e morte!_Vociferou o monstro ensandecido.
_Me perdoem, está no porão... Eu vou buscar...
Ao dizer isso o pobre senhor começou a caminhar para a escada que dava no porão, mas seus passos eram lentos e esforçados. A idade não permitia movimentos ágeis.
Skadratch não pareceu ser paciente ou compreensível com o velho senhor. Ele empurrou e derrubou o pobre ancião ao chão, passou por cima do mesmo indo para o porão por conta própria.
_Esquece seu velho, pego o dinheiro, e se eu encontrar algo mais, também é meu... É meu pagamente por ter que ir buscar eu mesmo...
O bando de seis orc’s gargalhou e acompanhou seu líder para o porão, lá eles começaram a revirar caixas a procura de seu tão estimado ouro. Lá estava Kontrek esperando, o bárbaro saiu de seu esconderijo atrás de caixas e revelou-se com um sorriso na cara e um machado nas mãos.
_O que significa isso? Aquele velho estava tentando me passar para traz? Contratou um lenhador para me matar? Sim, por que este não é um machado de combate de verdade!_ Todos os monstros apontaram para a arma de Kontrek e tiveram uma nova crise de risos.
Kontrek fitou sua arma com tristeza, ele a ergueu e jogou. Lançou o machado duplo num movimento rápido e forte. O machado voou pela sala girando e emitindo um som pesado e terrível, atingindo um dos orc’s em cheio e com a força deste golpe, o orc acabou cravado na parede.
_Eu ia matar todos vocês com meu machado... _Disse Kontrek. _ Mas vocês riram de minha arma, disseram que não era de verdade... Então... _ Ele fitou os orc’s com um olhar terrivelmente sádico. _Então eu vou matar todos com minhas mãos nuas... Socar, estrangular e esmagar... Vai demorar... E doer muito mais que o machado... _Kontrek puxou ar para seus pulmões e expeliu num urro de guerra animalesco.
_GRAAARRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!
O bárbaro avança sobre o bando, Skadratch esquiva se do oponente que continua investindo. Atinge dois orc’s com golpes de mãos abertas, bem no peito dos monstros, ambos são lançados sobre uma pilha de caixas de madeira que se parte em pilhas de entulho.
_Parece surpreso Skadratch... _Disse confiante o dono da taverna que retirava o disfarce revelando ser Dorian Blake. _ Você caiu como uma mosca numa teia de aranha, rato em ratoeira, uma borboleta presa na viscosidade de uma planta carnívora...
_Quem são vocês?!
_Bem Skadratch, eu sou Dorian Oswald Blake e o grandalhão que acaba de partir um de seus capangas em dois com as mãos nuas... É a morte.
A cidade não precisara esperar muito, logo três orc’s saíram correndo de dentro da taverna, eles gritavam e choravam. Os habitantes de Flor de Ida riram e se despediram deles com um fuzilamento de legumes podres arremessados.
Humilhados os três orc’s tentaram partir, mas a bruxa, Elly Blair aguardava por eles do lado de fora. Ela olhou para eles e sorriu. Suas mãos começaram a fumegar com chamas negras como piche. Ela emitiu cânticos estranhos e sinistros e moveu ritualisticamente suas mãos.
_Kraanius leviitav vrakoslatdanel... _Das mãos de Elly um rosto cadavérico surgiu, feito de uma energia escura e medonha, um crânio furioso e maligno. Ela ergueu as mãos e pareceu pronta pra lançar o feitiço.
_Vou fazer um acordo, o orc que matar os outros dois pode ir embora.
Imediatamente o orc do meio sacou a clava cheia de espigões metálicos e surpreendeu seus dois companheiros com a traição. Matou os dois antes que pudessem revidar. Então observou a bruxa sorrindo.
_Se eu ia deixar você ir... Por que conjurei o feitiço?
Ela atingiu o monstro em cheio com sua magia, o crânio voador devorou a vida do pobre orc o quão rápido pôde. Logo em seguida, Skadratch saiu da taverna, ele vinha caminhando furioso. Atrás dele vinha Dorian sorrindo.
_Vejam! O dragão! Salvem suas vidas! _Disse Dorian apontando para o céu e expressando absoluto pavor, Skadratch e todos os outros se voltaram para o céu, prontos a fugir da ameaça alada, mas não havia nada. O senhor Blake segurou sua bengala com as duas mãos e golpeou as pernas de Skadratch bem atrás dos joelhos. Um grito de dor do orc fez todos voltarem sua atenção para eles, Skadratch caiu de joelhos.
_Ohhh... Coitadinho do senhor orc líder de uma figa... _Dorian pousou as mãos nos joelhos e se abaixou para ver a expressão furiosa do inimigo caído. _Tá doendo Kaká? Tá? Eu sei que tá, eu bati com força, né? Vai deixar marca, sabia?
Furioso, Skadratch se preparou para atacar, mas parou quando viu Kontrek, O bárbaro, parado atrás de Dorian, observando ameaçador e com o machado em mãos.
_Nós fizemos um trato senhor Skadratch... Você pode ir se prometer nunca mais voltar e pedir desculpas a estas pessoas de joelhos... Então, não temos o dia todo.
Ele balbuciou coisas sem sentido, choramingou um pouco e rosnou antes de dizer.
_Desculpe. Prometo não fazer mais.
A população foi ao delírio, foi feita uma festa naquela noite para os valentes heróis que expulsaram Skadratch daquelas terras. Os melhores bardos da vila compuseram musicas sobre os três e cantaram na grande festa. A festa aconteceu naquela mesma estalagem, cuja taverna fora visitada pelos heróis quando chegaram. Agora estava enfeitada e adornada com bandeiras e luminárias coloridas.
Joan Valvierde, a garota que pegava os pedidos nas mesas, orgulhosa de sua função, servil a taça de vinho de Elly Blair, a bruxa.
_De maneira então que a senhorita é uma bruxa?
_Correto.
_E você gosta do senhor Blake?
_Não compreendi sua pergunta.
_Vocês dois são namorados?
_Prefiro deixar a minha cabeça numa panela de vinagre quente até ela ferver ou me afogar. O que vier primeiro.
_Então ele está livre?
_Minha querida, ele está livre sim. E há um bom motivo pra tal...
_Que motivo?
_Dorian é perdidamente apaixonado por Kontrek.
Instantes depois ela serviu uma garrafa de cerveja quente ao bárbaro Kontrek. A jovem ficou inquieta por um minuto, o bárbaro ao perceber que a jovem após servi-lo permaneceu estacada ao lado da mesa, acabou chamando-lhe a atenção.
_Hey moça! Perdeu alguma coisa? Ou vai me dizer algo?
_Oh... Vou dizer senhor Kontrek...
_Então por que não diz logo hã? Acaso o dragão comeu a sua língua?
_Não senhor, é que... Eu queria lhe perguntar sobre o...
_Dorian. O nome dele é Dorian.
_Oh... Sim... O nome dele... Bem... O senhor por acaso... Sabe se ele gosta de alguma moça... Ou rapaz?
_ O quê?
_Oh desculpe...
_Você andou falando com a bruxa não é?
_Sim senhor.
_Garota, fique longe do Dorian, ele é o sujeito mais mentiroso e sem vergonha que conheço! Um mulherengo sem jeito. Eu até acho que ele e a bruxa se encontram a noite sem me contar... E disfarçam depois com toda essa briga...
_Pelos deuses!
_Isso explicaria os sons que ouço a noite e só param quando soco a parede.
Joan chegou até Dorian trazendo consigo uma mistura das três bebidas mais fortes que encontrou na cidade, ela o serviu e segurou a bandeja com as duas mãos juntas ao corpo.
_Por que não se senta senhorita Valvierde?
_É que tenho coisas a fazer senhor Blake.
_Em primeiro lugar, me chame de Dorian. Em segundo, tudo o que ouviu sobre mim é mentira.
_O quê?
_Apesar de toda esta fofoca... Eu sei que você verá que na verdade sou o homem mais sensível e romântico de todo este mundo.
_Sério? _Disse Joan com desconfiança.
_Julgue-me apenas depois de ver meu presente. _ Dorian então retirou uma linda rosa vermelha e estendeu a Joan que a segurou como se fosse um tesouro.
_Oh... É linda...
_Não é uma rosa comum. Chama-se flor de Úrsula, dizem que quando a princesa Úrsula se apaixonou por um grande e famoso paladino... Ele lhe deu um presente, retirou seu próprio coração e o transformou numa flor, como uma rosa, mas as pétalas são mais rubras e suaves...
_Oh... E ele morreu?
_Não, Úrsula não rejeitaria o presente e não deixaria seu amado morrer, então retirou metade de seu coração e deu ao paladino para que eles permanecessem vivos juntos, com os mesmos batimentos do coração.
_Que história maravilhosa senhor Blake... Mas o que o senhor quer dizer com isso?
_Que amo você Joan Valvierde.
_Fala sério?
_Eu mentiria pra você?
Joan subiu para o quarto e prometeu esperar Dorian com a porta aberta, enquanto isso o senhor Blake afastou-se da festa e foi até a mata ali perto, lá encontrou Skadratch escondido.
_Skadratch, venha aqui idiota. Veja, aqui estão as cem moedas de ouro que lhe prometi.
_Senhor Blake, matar meu bando não era parte do acordo, vou ter que contratar novos capangas, terei que cobrar a mais...
_Nem mais uma moeda seu primitivo insolente!
_Você não disse que ia matar meu bando.
_Também não disse que não ia! Agora, fora daqui ou chamo Kontrek. Não quero ver sua cara de lama do pântano nunca mais!
_Ta bom, ta bom... Hey... Senhor Blake, eu estava espionando... Aquela história que o senhor contou sobre a flor... Era verdade?
_O quê? AQUILO? Não seja ridículo! Era apenas uma artimanha para levar aquela rapariga para a cama! Oras... Que vão dizer agora? Que a amo de verdade... Idiota... “Skadratch, o otário”...
Skadratch observou Dorian Blake voltar para a festa e para a sua atual companhia noturna, apesar de ser um orc assassino e ladrão, não pode deixar de sentir profundo desprezo.
_Maldito impostor. Como eu o odeio. _rosnou para si mesmo.

FIM.

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