UNITED ZOMBIES - Parte três - A reunião dos mortos-vivos.
"fiquem mais espertos". _George A. Romero.
Penitenciária estadual do Nebraska. 01h27min da madrugada.
Celas escuras e frias. O macacão laranja dos presos era a única coisa que se destacava no escuro. Um macacão laranja em cada cela. Não há superlotação neste setor, cada detento tem direito a uma cela exclusiva. Eles não têm curso superior ou privilégios políticos, se possuem a regalia da sala particular, é por serem as pessoas mais hediondas da terra. Todo detento que foi condenado ao corredor da morte, tem uma destas celas, mas nenhum usa por muito tempo.
_Sabe quem é aquele cara?
_Quem? O negão marombado?
_É... Sabe quem ele é?
_Não. Nem quero saber.
_Ele é Charlie Buckstrong. O estrangulador da rua onze.
Os dois detentos sussurravam para não serem ouvidos pelo tal estrangulador. Um homem monstruosamente musculoso, pele escura e um rosto apático.
_Charlie quem?
_O estrangulador da rua onze! Ele matou dezoito vizinhos na rua dele.
_E daí? Eu matei vinte e sete.
_Como os matou?
_Com minha arma...
_Por que acham que o chamam de “O estrangulador”? Ele esganou todas as vítimas. Matou todos com as mãos nuas.
_Enforcando?
_Enforcando.
Passos no corredor, todo o necessário para silenciar todos da última milha. Um grupo de policiais com o diretor vinha em ritmo acelerado. O diretor da penitenciária era um homem cheio de pose, bigode preto e volumoso, charuto na boca e olhar maldoso. Ele foi até a cela do estrangulador e parou bem diante dele. Um guarda abriu a cela e o diretor deu um passo à frente.
_Vamos executá-lo hoje. Você sabe, não?
Não houve resposta. O estrangulador permaneceu em silêncio, cabeça baixa e mãos juntas.
_Você tem direito a uma ultima refeição. Algo especial. O que vai querer comer?
Ele ergueu o olhar para o fundo dos olhos do diretor.
_Cérebro. _respondeu lambendo os beiços.
...
Festa de halloween de Barbara Susanny. Londres, Reino Unido. 19h47min.
Um círculo de curiosos havia se formado em torno da garotinha, crianças fantasiadas das mais cômicas figuras, entre vampiros, fantasmas e lobisomens, entre super-heróis e personagens de filmes. Lá estava ela, uma bonequinha de porcelana.
A garotinha adorava fazer aquilo, ficava imóvel, nem mesmo respirava, desta forma ficava idêntica a uma boneca de verdade. Maquiagem pesada e um vestidinho branco representavam a linda figura de porcelana no tamanho de uma criança de oito anos.
_Não é a coisa mais fofa que vocês todos já viram? Não parece uma bonequinha de verdade? _Dizia orgulhosa a mãe da mocinha.
_Meu deus... Ela está bem? _Comentou a mãe de outra criança.
_Sim! Ela adora fazer isso... Reparem que ela nem pisca! Nem mesmo respira!
_Chega a dar um pouco de medo, né?
_Oras, é dia das bruxas! Todos temos que levar pelo menos um susto esta noite!
A iluminação condizia ao feriado de Halloween, fraca e tênue. No momento a maioria das luzes estava apagada, apenas o lustre que ficava sobre o centro do salão de festas estava aceso. Só a pequena menina estava realmente iluminada enquanto os demais ficavam imersos em escuridão quase total.
_Tudo bem querida, já pode parar, foi um truque maravilhoso! _Exclamou a mãe.
A menina não lhe deu ouvidos, permaneceu estática. Algumas crianças começaram a choramingar, pareciam assustadas com a brincadeira. A mãe preocupada com a situação deixa de lado a gentileza e usa de autoridade.
_Barbara, eu mandei você parar com isso! Pare imediatamente!
A bonequinha permanece imóvel. Comentários e choramingas correm a sala enquanto a mãe sente um calafrio inesperado, ela não contém mais seu tom de voz.
_BARBARA! PARE COM ISSO AGORA MESMO OU SERÁ CASTIGADA!
Barbara Susanny não responde.
A mãe de Barbie avança contra ela e sacode a garotinha pelos ombros com violência.
_Eu já mandei parar com essa droga! Pare agora mesmo ou vou espancá-la na frente de seus amiguinhos sua mal criada!
Todos ficam trepidantes quando a menina continua se fingindo de boneca. Aquele rostinho inexpressivo dentro da mascara feita com maquiagem, os olhinhos que pareciam duas pedrinhas preciosas negras, o cabelo perfeito sobre os ombros. Nenhuma menção de que fosse um ser humano.
_Doce ou susto! _O grito da garotinha foi jovial e alegre, mas fez todos gritarem de pavor.
Logo todos acabaram rindo com a pequena travessura de Barbie. Após o acontecido, Barbie subiu para brincar no quarto com as outras crianças, a mãe dela ficou lá embaixo, lhe Serviram um copo de água com açúcar e ela pareceu recobrar boa parte de sua cor natural.
...
Algum lugar da savana africana. Após dias de gravação de um documentário sobre a vida de uma manada de elefantes africanos.
Eles se esgueiravam como pequenos animais assustados na grama alta. Ao longe, uma manada de elefantes tranqüilos pastava como dóceis animais de fazenda. Um dos elefantes, a maior e mais velha, fixava seu olhar na direção do grupo.
_Acha que a Merrick está nos vendo, Jay? _Ela afastou o cabelo loiro dos olhos para olhar diretamente para o especialista.
_Acho que ela sabe que estamos aqui, mas não exatamente onde. _Jay sussurrou aquelas palavras com orgulho, ele admirava aquele animal.
_Qualé pessoal? É só um elefante... Ela não é tão esperta! _Era difícil para Greg, exclamar sem gritar.
_Você se surpreenderia.
_Jay, você só sabe puxar o saco desses bichos, mesmo longe das câmeras...
_Calado Greg. Já preparou o equipamento?
_Câmera pronta. _Greg Tenson, cameraman.
_Vamos rodar. _Jeena Carson, diretora.
_Quando quiserem. _Jay Savan, Apresentador e biólogo.
_Três, dois, um... Gravando.
Apesar de estarem gravando um mundialmente famoso documentário animal, eles não podiam falar alto naquele momento. Eles seguiam aqueles elefantes por toda parte há dias, e já tinham percebido que a maior era bem agressiva. “Merrick”, a elefanta que liderava aquela manada, estava agora ciente de que alguém espreitava e eles não podiam deixar que ela os encontrasse em nenhuma hipótese.
O show tinha que continuar. A câmera focou o rosto de Jay, difícil focar bem, todos ainda estavam abaixados na grama, bem escondidos.
_Bem vindos ao “Safári de Jay”. Eu sou Jay Savan, biólogo, ambientalista e seu guia nesta emocionante aventura. Há alguns minutos eu e a minha equipe tivemos que nos esconder neste matagal, parece que a líder da manada percebeu nossa presença e está nos procurando, eu diria até que ela pode estar se aproximando de nós, não podemos ver, pois espiar pode revelar nossas posições...
Jay sorria com suas palavras, para ele era realmente uma aventura. Jeena também sorria, ela sabia que aquele programa ainda ia deixá-los ricos. Já Greg morria de medo quando Jay tentava assustar os telespectadores com especulações do tipo “ela pode estar se aproximando”.
_Apesar do perigo eminente, seu guia não pode privá-los destas fantásticas imagens...
_Jay, nem pense nisso... _Jeena usou um tom autoritário.
_Greg, depois corte a voz de Jeena na edição... _Disse Jay com tranqüilidade._ Eu vou sair de meu esconderijo e vou mostrar pra vocês como a nossa estrela “Merrick” está nos vigiando de perto.
_Jay, Não!
As palavras de Jeena foram inúteis, Jay se ergueu do gramado para avistar o elefante e Greg teve que seguir o movimento com a câmera, mas eles tiveram uma surpresa desagradável.
A câmera gravou a tremida imagem de Jay se levantando e se vendo face a face com Merrick. A elefanta de fato, havia se aproximado, estava a apenas um metro de distância do grupo e tinha total visão de todos. Jay sentiu o olhar poderoso do animal o encarando de cima.
_Meu Deus... _Disse Jay com o olhar brilhando. _Você é a coisa mais bonita que já vi na vida... Dá tanto medo ver você de perto garota...
O elefante emitiu um som que parecia um rugido abafado vindo da garganta, ele assumiu um olhar vago e ignorou o grupo de invasores, dando as costas e se afastando lentamente.
_Não somos uma ameaça... Ela não nos considera uma ameaça... Nunca estive tão feliz na vida...
...
Consultório odontológico da Dra. Atsume. Odaiba, Japão. 14h25min.
Três meses antes ela se esqueceu da peça de teatro da filha mais jovem. Dois meses e meio, esqueceu da entrega do prêmio do filho. Anteriormente esquecera-se do aniversário de quinze anos da filha mais velha. Há sete semanas ela se esqueceu de avisar ao marido que conseguiu marcar para ele a operação de catarata que ele tanto almejava. Ele perdeu a consulta e ainda está enxergando muito mal.
Cabelos negros lisos e lustrosos que mal se notavam quando estavam tão bem amarrados. A máscara branca escondendo o rosto e o jaleco branco escondendo o corpo lhe dava certa feição de seriedade. Um estreito olhar oriental fitava o pequeno paciente.
Seis semanas atrás seu marido foi embora e levou os três filhos com ele. Ele deixou um bilhete dizendo que ela não se importava com a família.
Ela segurou delicadamente o aparelho. Parecia ser uma broca de dentista convencional, mas não havia fio algum que ligasse a broca a qualquer outro lugar. Sem fio, muito mais prático. Um grande avanço no ramo da odontologia, tecnologia digna do Japão, mesmo assim, o aparelho emitia um som terrível que apenas por ser ouvido, já fazia o dente doer.
Há duas semanas ela ligou pra família. Falou com o marido, os filhos não queriam falar com ela. Ela pediu desculpas e prometeu melhorar.
A criança choramingou quando a broca começou a perfurar seu dente, apertando forte o estofamento da cadeira macia, porém desconfortável. Amedrontada com a frieza da dentista. A dentista não demonstrava compaixão, nem mesmo piscava, parecia aérea... Pensando longe...
Semana passada a família sofreu um acidente na estrada. Eles estavam voltando pra ela. O marido não estava enxergando bem. Todos morreram.
Um grito horrível. Sangue espirra da boca da criança. A doutora se distraiu, a broca atingiu a gengiva. Os pés da criança sacudindo na cadeira, a broca emitindo seu som infernal, a Dra. Atsume cobrindo o rosto com a mão, sem saber o que fazer.
A Dra. Atsume perde seu emprego. Era tudo que ela tinha.
...
Necrotério do hospital da Santa Cruz. Brasil. 1h55min da madrugada.
Rogério S. Heverton é médico legista, há uma hora ele foi tirado da cama por um telefonema do hospital onde trabalha e requisitado a fazer uma autópsia imediata, ele ficou furioso, mas deixou suas merecidas horas de sono para depois e foi trabalhar. Quando chegou ao necrotério deparou-se com seus dois assistentes, eles estavam tirando fotos do cadáver, um colocava a fita métrica no pé do defunto e o outro registrava os cinqüenta e dois centímetros de uma ponta a outra do pé de tamanho abissal.
_Isso é um pé?_Perguntou o Dr. Heverton com tom sério.
_Da pra acreditar nisso Doutor?! Cinqüenta e dois centímetros de pé!_Disse um dos assistentes animado.
_Por isso mandaram o senhor vir tão rápido Dr. Heverton. Temos uma celebridade aqui, este é Jorge Atanásio, ratificado pelo livro “Guinness World Records” como a pessoa mais alta já medida no planeta!
_Me tiraram da cama por causa de um corpo que podia esperar até amanhã? Ele nem tinha nenhum compromisso, tinha?
_Ora Dr. Heverton, ele é famoso, seu cliente mais importante.
Heverton não deu ouvidos, apenas ficou fitando o pé gigantesco que estava fora do lençol branco que cobria o corpo.
_Você disse que o pé tem cinqüenta e dois centímetros?
_Sim Doutor...
_Jesus... _Exclamou o médico.
_São cinqüenta e dois de pé, trinta e nove centímetros de mão e... Cuidado pra não cair pra trás Doutor... Dois metros e oitenta e seis centímetros de altura!
_Jesus cristo! Como o colocaram na maca?!
_Na verdade Doutor Heverton... _Os dois ajudante se entreolharam um instante. _nós tivemos que usar duas macas. Apenas as posicionamos uma a frente da outra, antes disso, as pernas dele haviam ficado pra fora, as pernas são realmente muito longas...
_Entendi...
O legista caminha do lado dos pés de Atanásio até próximo ao tronco, ele sente como se tivesse que fazer uma jornada de uma ponta a outra do cadáver. Heverton levanta o lençol e olha para seu “paciente”, sua feição é de curiosidade, um contido espanto.
_Ele era corcunda?
_Tinha muitos problemas por conta da altura Dr. Heverton. Disseram que desde os quinze anos de idade ele já começou a ter este problema de coluna. Sabe? Mesmo sem contar a curvatura da coluna ele já detinha o título de homem mais alto do mundo.
_Agora é apenas o cadáver mais longo do mundo e vai ser tratado como tal, apenas mais um cadáver, nenhum respeito a mais... E é claro, não vou tolerar nenhuma falta de respeito também. Dê-me essa câmera.
_Doutor... Eu...
_Agora.
O assistente apenas obedeceu, entregou a câmera e assistiu o legista apagar toda a memória.
_Ele é um homem, não uma aberração num circo de horrores, eu devia denunciar vocês, mas vou apenas devolver essa porcaria sem o arquivo das fotos extremamente impróprias.
O médico devolveu a câmera ao assistente desapontado, em seguida pegou uma prancheta com o prontuário do falecido. Após colocar os óculos e forçar sua visão a focar o papel, ele leu com profunda atenção o conteúdo do documento.
_Ele tinha graves problemas com os pés, por ter pernas muito longas... Havia pouca circulação e isso lhe limitava o tato nessa região...
O médico foi até os pés do gigante e examinou cuidadosamente.
_Não há nenhuma lesão grave, se houvesse ele poderia ter morrido apenas por não perceber um mal deste tipo... Como ele morreu?
_Bom Dr. Heverton, disseram que ele estava na igreja e no meio da missa começou a se queixar de fortes dores no abdômen, em seguida ele teria vomitado uma grande quantidade de sangue. Quando chegou aqui no Santa cruz, já estava morto.
Mais uma vez os olhos do médico correram o prontuário. Entre vários problemas decorrentes da estatura exagerada de Atanásio, parecia claro para o médico que era um problema completamente diferente que o tinha levado a morte.
_Ele tinha Úlcera péptica, essas mutações nas células podem vir a causar o câncer no estômago. Não tem outro jeito, vamos ter que abrir o pobre coitado. Pegue os instrumentos cirúrgicos necessários.
_Sim Doutor.
_Vamos ver que pedra matou nosso Golias pós Davi.
...
Penitenciária estadual do Nebraska. 03h52min da madrugada.
O estrangulador estava na cadeira. Fivelas de couro bem amarradas o impediriam de cair ou se soltar quando as convulsões começassem. Sua cabeça foi raspada e uma esponja molhada posta em sua cabeça. Eletrodos foram colocados em certas partes do corpo, na cabeça lisa e numa parte inferior do tórax. Tudo para ajudar a eletricidade a matá-lo mais rápido, e assim, terminar logo com seu sofrimento.
O padre se aproximou com cautela, parecia temer a proximidade com o estrangulador. Ele fez o sinal da cruz e uma oração curta antes da execução.
_Deus perdoe você por seus pecados meu filho, e que o Senhor seja piedoso para com sua alma._Disse o padre com voz trêmula.
_Idem._Respondeu o estrangulador com voz firme.
A cadeira é ligada e o estrangulador começa a se sacudir fortemente, contido pelas amarras e urrando como um demônio. Ele urina e evacua no macacão laranja enquanto sente as tensões elétricas de mais de 20.000 volts.
A eletricidade é desligada. Um médico verifica os batimentos cardíacos.
_Ainda está vivo._Diz para o pavor de todos.
A cadeira é religada. O show de horrores recomeça. Fumaça escura emana da cabeça gritante. Seu crânio frita nas chamas elétricas da morte. O corpo parece inchar com o esforço de se manter vivo, esforço inútil.
O médico verifica novamente. Ele demora um pouco, mas se vira para o diretor e os guardas fazendo um sinal positivo. Charlie Buckstrong estava morto.
Todos pareceram aliviados, mas o sossego não durou muito.
Um som estranho se ouviu vindo do estrangulador morto, um gemido. O médico jurou que não havia batimentos cardíacos, mas Charlie estava gemendo. O diretor ordenou ligar a chave mais uma vez. Novamente, a carcaça de Buckstrong é eletrocutada. Agora o homem que deveria estar morto grita mais do que antes, ele rosna e vocifera como um animal, até o ponto em que começa a se soltar. Quando a primeira amarra se arrebentou e deixou o grotesco braço do estrangulador livre, os guardas não puderam deixar de fazer orações silenciosas. “Jesus Cristo” eles sussurraram em uníssono.
...
Festa de halloween de Barbara Susanny. Londres, Reino Unido. 20h35min.
Barbie subiu as escadas correndo com passos velozes e alegres, logo ela chegou ao topo de seu destino, onde esperavam três de suas amiguinhas. Uma fantasiada de supergirl outra de pirata e a outra, a bruxa má do oeste, de “O mágico de oz”. A bruxa não gostava muito de Barbie, achava que ela era “uma boboca metida”. Brigas entre as duas eram normais, a bruxinha e a boneca de porcelana não se davam bem.
_Que truque idiota foi aquele de se fingir de boneca! _Provocou a menina mais velha, vestida de bruxinha.
_Não foi idiota nada! Todas vocês ficaram com medo! _Respondeu Barbie.
A duas meninas assistindo riram com a discussão, enquanto Barbie e a mais velha continuaram a discutir.
_Eu não tenho medo de nada! Você é que devia ter medo...
_Medo de quê?
_Barbie, você não sabe? Estão dizendo por aí que sua mãe visita o Sr. Elm durante a noite... Acho que ela vai te abandonar...
_Como assim? Minha mãe nunca sai à noite...
_Ela espera você dormir. Depois ela sai e vai pra casa do senhor Elm.
_Minha mãe nem é amiga do senhor Elm!
_Amiga? Você é retardada? Não entendeu? Sua mãe está transando com ele!
As garotas se assustaram com a ousadia da bruxinha, mas Barbie não ficou assustada, apenas irritada.
_Mentirosa!
_Mentirosa, eu? Mentirosa é aquela vadia da sua mãe que diz que foi pra cama dormir e sai pra dar aquele rabo pra homem na rua!
_Retire o que disse!
_Não. Sua mãe é uma piranha, prostituta e vagabunda, ponto final!
Barbie avança contra a menina mais velha, determinada em agredi-la fatalmente, ela salta como um animal sagaz atrás da presa. É então que o acidente acontece.
A bruxinha é empurrada por Barbie e cai sentada, mas a pequena Bárbara acaba se desequilibrando e cai na escada, ela rola escada a baixo batendo seu pequeno e frágil corpo nos degraus. Os ossos da pequenina se partem como gravetos com os impactos, ela quebra vários pontos do esqueleto antes de terminar sua decida mortal. No fim da queda ela repousa no salão de festas, onde todos os convidados apavorados se perguntavam se era outra brincadeira da menina, mas logo constataram a piro das hipóteses, a pobrezinha estava realmente morta.
...
Algum lugar da savana africana. Dois dias depois da última gravação de “safári de Jay”.
A manada de elefantes caminhou satisfeita para um raso lago formado pelas raras chuvas da savana, e outra chuva parecia estar se aproximando, nuvens escuras cobriam o céu e clarões de relâmpagos distantes podiam ser vistos.
_Olá pessoal, aqui é Jay Savan. Parece que nosso grupo de paquidermes decidiu parar para uma ducha. Já faz dois dias desde que Merrick parece ter aceitado nossa presença nas proximidades da manada e eu estou muito feliz sobre isso...
Greg quase caiu no chão quando aquele urro alto e medonho gritou no lago. Quando conseguiram se recuperar do susto e olhar pra manada, eles testemunharam uma raridade que faria seu documentário mundialmente famoso. Merrick estava lutando ferrenhamente contra outro grande elefante.
_Meu Deus! Filma! FILMA ISSO!
_TÔ FILMANDO PORRA!
Os elefantes engajavam suas presas de marfim e faziam movimentos arrebatadores, como se tentassem erguer ou derrubar o outro. Urros poderosos afastavam a manada e patas gigantescas esparramavam a água pra todos os lados.
_Estão lutando pela liderança do bando! Merrick está defendendo sua liderança da fêmea mais jovem! Meu Deus é magnífico!
No momento crucial da batalha os dois titânicos paquidermes derrubam um ao outro violentamente no lago. Água jorra por toda parte, a desafiante de Merrick chega a rolar violentamente na queda. Terminada a luta, a jovem fêmea se levanta e caminha para dentro da manada. Merrick permanece deitada por algum tempo, faz força com as patas feridas, se esforça e quando finalmente se levanta, se afasta da manada, caminhando sozinha, a manada segue seu rumo e Merrick o dela.
_Na verdade, é incomum que uma fêmea tão velha comande a manada por tanto tempo... Merrick lutou bravamente e não existe vergonha em sua derrota...
Jay parecia prestes a chorar. Apesar de ser absurdo todo grupo ficou triste com o acontecido. Depois de discutir o assunto eles tomaram uma decisão, seguir Merrick e fazer daquele um documentário sobre ela e não sobre a manada. Jay ficou muito feliz com a decisão, mas a felicidade não durou muito, logo Jay percebeu o que estava acontecendo.
Quando um elefante deixa a manada, significa que ele sente que a morte está próxima e parte para morrer sozinho.
...
Residência da Dra. Atsume. Odaiba, Japão. 18h41min.
Katsuo era amigo dela e ela gostava dele. Trabalhou anos no consultório com ela e eles nunca tiveram uma briga. Ele sabia o quanto o trabalho era importante para ela agora que havia perdido o marido e os filhos, e sabia o que poderia acarretar a perda deste emprego.
Fazia quinze minutos que ele espancava a porta e ela não atendia.
A doutora nem tinha tirado o jaleco ainda, havia se sentado no sofá e observava a broca de dentista em sua mão, não entendia porque havia trago a broca para casa. Ouvia Katsuo batendo na porta, mas o ignorava.
Ela se levantou e caminhou em passos pesados para o banheiro, onde ela havia deixado a banheira enchendo de água quente. Desligou a água, segundos antes de ela transbordar e antes que pudesse pensar em se despir, ela se olhou no espelho.
Katsuo arrombou a porta com um golpe de ombro e acabou caindo violentamente no chão. Um grito provou que a dor que ele sentira era a de um ombro deslocado.
A Dra. Atsume ficou parada diante do espelho olhando-se nos olhos. Ela ergueu a broca bem perto do rosto e ligou. Aquele som que causa calafrios nos dentes, começou a atormentar seus ouvidos. Ela parou um instante pra pensar que jamais conseguiria sorrir de novo. A vida já não valia à pena.
Katsuo arrastou o próprio corpo se escorando nas paredes, caminhando o mais rápido que a dor permitia. Ele gritava o nome da amiga, mas a Dra. Atsume não respondia seus chamados.
A broca era extremamente afiada e sua rotação fazia dela perfeita para perfurar dentes, foi fácil rasgar o pulso com ela. Assim que o corte começou a sangrar, ela começou a chorar. Ela não queria morrer, então porque fez aquilo?
Quando Katsuo chegou ao banheiro, o corpo da Dra. Atsume estava caído no chão. A cabeça e os braços na verdade estavam mergulhados na água da banheira de águas vermelhas. No chão a broca gritava aquele som estridente e incômodo aos dentes.
Quando correu para socorrer a amiga, Katsuo se surpreendeu. Ela pareceu morta, mas isto não impediu que ela se levantasse e lhe arrancasse o olho com aquela broca.
Depois de comer o bastante da carne de Katsuo, a Dra. Atsume saiu para comer fora.
...
Necrotério do hospital da Santa Cruz. Brasil. 3h17min da madrugada.
O legista costurou o longo abdômen cuidadosamente, o cadáver do homem mais alto do mundo agora tinha uma abertura no tórax em forma de “T”, mas logo estaria fechado.
Ao abrir o estômago do falecido gigante, o Dr. Rogério Heverton descobriu que a causa da morte era justo o que ele suspeitava, a úlcera péptica havia lhe presenteado com um tumor maligno. Câncer de estômago.
Mais um instante de pontos e ele poderia fechar o buraco no estômago que fizera e o Dr. Heverton mal podia esperar para reparar o esquartejamento que fizera na barriga de Jorge Atanásio. Por algum motivo, o médico estava profundamente incomodado e só queria ir logo pra casa.
_Onde Ricardo foi?
_Foi fazer a esterilização dos materiais que usamos Dr.
_Ótimo, vou terminar de costurar nosso recordista aqui e poderemos ir pra casa dormir o sono dos justos.
_Dr. Heverton...
_O que foi rapaz? Enjoado? Há quanto tempo trabalha com isso?
_Não é isso Dr. Heverton, é que... Eu tive a impressão de...
_O que foi?
_Eu pensei ter visto ele se mover.
_Você sabe que alguns movimentos involuntários são perfeitamente normais, já viu muitas vezes.
_Mas ele lambeu os lábios.
As luzes se apagaram de repente.
Longe dali um defeito na usina de força e luz causou um blackout. O apagão não só escureceu o hospital da Santa cruz, mas como também toda a cidade. Toda a cidade mergulhada em escuridão, justo no único momento em que aquilo faria a diferença entre viver e morrer para o legista e sua equipe.
No necrotério do Santa cruz, um barulho alto assustou o legista e o enfermeiro assistente, o som de materiais de metal caindo e se espalhando pelo chão da sala ao lado.
_Ricardo?! Tudo bem?!
_Sim Dr. Heverton! Eu só derrubei os instrumentos com o susto, mas já recolho.
_Esqueça rapaz! Quando a luz voltar, nós arrumaremos tudo, agora venha pra cá.
Um novo som desviou a atenção do médico e seu assistente, vinha da maca, um ranger, como se alguém estivesse mexendo no cadáver.
_Ouviu isso Doutor?
_Ouvi sim.
_Doutor... O senhor tem certeza que o Atanásio estava morto, não é?
_Não seja ridículo moleque, eu nem terminei de costurá-lo, está com a barriga toda aberta. É mais provável que alguém esteja aproveitando pra roubar o corpo.
_Roubar? Pra quê Doutor?!
_Ele não é o homem mais alto do mundo? É um cadáver valioso nas mãos de criminosos? Podem vender ou sei lá...
A sala tinha certo eco, agora que dependiam mais da audição do que da visão pra orientar-se, ficava mais fácil de notá-lo. O eco enviava ao médico e ao enfermeiro o som da voz de Ricardo, muito abafado, tentando sussurrar alguma coisa na outra sala, mas parecia amordaçado. Logo a voz de Ricardo sumiu.
_Ricardo? _Chamou o Doutor, em vão.
Um novo som estanho ecoou pelo necrotério. Era um ruído execrável e alto. O som que se ouvi quando o corpo humano processa alimentos na digestão e esses alimentos, que logo estarão se transformando em bolo fecal, viajam pelo intestino grosso. Um som gosmento e repugnante. O som se aproximava e a essa medida também se ouviu o som de algo molhado e nojento caindo no chão.
Foi então que eles viram um vulto passar pela janela, a luz do luar permitiu enxergar a silhueta de quem era, era uma pessoa magra e alta, com dois ou três metros de altura.
_Oh meu Deus!_Gritou o enfermeiro que correu imediatamente diante daquela visão aterradora, o rapaz acabou sendo pego pela escuridão, tropeçou em alguma coisa e caiu, batendo fortemente a cabeça na quina de uma mesa.
O médico ficou imóvel, sem saber como reagir. A criatura avançou rapidamente na escuridão, na direção do som que ouvira, a próxima imagem que passou pela luminosidade da janela foi o enfermeiro. O rapaz estava gritando de pavor e sendo erguido pelo calcanhar por uma mão grande e magra, porém, forte o bastante para levantar o homem sem nenhum esforço. Em seguida, o médico ouviu os ossos do enfermeiro quebrarem e sentiu o sangue jorrar em cima dos seus sapatos.
O médico abriu atravessou a porta o mais rápido que conseguiu e aos tropeços foi seguindo pelos corredores do hospital, ele sentia um medo amplo e vil crescendo em si, a ponto de fazê-lo abandonar aquelas pobres pessoas com seja lá o que fosse que estivesse lá.
Em seu intimo o Dr. Heverton sabia de três coisas:
Primeiro. Os enfermeiros estavam mortos.
Segundo. Foi Jorge Atanásio que os matou.
Terceiro. Atanásio ainda estava vindo atrás dele.
Ele sentiu os trinta e nove centímetros da mão agarrarem sua cabeça, dedos magros e fortes se fechando em volta de seu rosto e o puxando de volta para dentro do necrotério. O legista foi lançado para dentro daquela sala profana e fúnebre. Caiu na metade da sala, mas por escorregar numa poça de sangue e cérebro acabou deslizando até a parede do lado oposto ao da porta de saída.
O vulto de dois metros e oitenta e seis centímetros veio dando passos grotescos e repletos de movimentos irregulares e assustadores, uma caminhada dançante e sem nenhum padrão de movimento.
O som repugnante e gosmento voltou a ser ouvido, o doutor pode ver Atanásio mordendo um braço decepado de um dos enfermeiros, ele mastigava a carne com visível apetite e engolia vorazmente sua refeição, o som gosmento vinha do percurso da comida por sua garganta.
Algo asqueroso caiu ao chão e o Doutor Rogério Atanásio percebeu que tudo que o monstro estava comendo, caia em seguida ao chão, passando pela abertura que ele fizera em seu estômago.
_Oh meu Deus... Eu não terminei de dar os pontos...
Não terminou de dar os pontos.
Não terminou de dar os pontos, portanto, se era por fome que o morto-vivo estava devorando as pessoas a sua volta, ele jamais saciaria tal fome e jamais pararia de comer.
...
Penitenciária estadual do Nebraska. 05h33min da madrugada.
O estrangulador se sacudia violentamente há horas e a eletricidade não parecia conseguir detê-lo. Os fusíveis da cadeira elétrica já haviam queimado e aparentemente ninguém conseguia argumentar com Charlie, ele não respondia perguntas ou manifestava consciência. Charlie Buckstrong parecia um animal selvagem acuado, enraivecido com seu cativeiro, era questão de tempo até ele soltar-se. Os guardas estavam apavorados, o diretor meramente inquieto.
_Diretor? O que vamos fazer quando ele se soltar? Já arrebentou uma das amarras, vai sem dúvida sair daí logo...
O diretor sacou a arma e engatilhou.
_Ele foi condenado à morte. Deveria estar morto. Deus é minha testemunha que este homem não é mais humano. Ele sangrou e queimou, cagou e mijou nas calças enquanto sua cabeça pegava fogo. Jesus... Eu posso sentir o cheiro daqui...
_Diretor? O senhor não vai...
O diretor atirou seis vezes. Os disparos assustaram todos a volta, muitos saltaram e se jogaram no chão, mas os disparos atingiram apenas o corpo do estrangulador. Finalmente o monstro se calou. O corpo ficou lá sentado, imóvel para o alivio de todos. Seis pequenos sangramentos tingiam filetes vermelhos no macacão laranja.
_Acabou. _Disse o diretor caminhando até o corpo.
_Deus, o que aconteceu aqui diretor? Como esse homem pode não morrer com tudo aquilo?
_Está morto agora, isso é que importa. Morto.
O estrangulador se levantou rápido e forte. Arrancou as fivelas de couro que o prendiam com um único puxão. Os braços poderosos agarraram o pescoço do diretor com força inigualável. Enquanto os guardas fugiam, o diretor sentiu seu pescoço se partir e o ar faltar em seus pulmões.
A porta foi trancada. Ninguém tinha peso na consciência de ter abandonado o pobre coitado com o estrangulador lá dentro. Todos se armaram e esperaram os sons do assassinato terminar.
Dentro da sala o estrangulador ergueu o corpo de sua vitima acima da cabeça como se nada pesasse. Aproximou do rosto e mordeu o abdômen do diretor, arrancando um grande naco de carne, o ferimento grotesco fez jorrar sangue e deixou escapar as vísceras da presa abatida.
Sons de batidas na porta fizeram os guardas sentirem um calafrio correr a espinha. Eles mantiveram as armas apontadas na direção da ameaça e rezaram para ele não conseguir sair.
_Contanto que ele fique trancado na sala de execução, não haverá problema algum.
A porta foi arrancada para o lado de dentro com uma violência assombrosa. Um rosnado gutural veio de dentro da sala escura e passos fortes e lentos acompanharam a evolução do volume do som medonho.
_Chamem reforços. Agora.
_E que Deus nos ajude...
Todos aqueles guardas, os reforços e alguns detentos foram devorados naquela madrugada.
...
Festa de halloween de Barbara Susanny. Londres, Reino Unido. 21h13min.
A casa estava uma bagunça, a festa havia se transformado num pandemônio quando a pequena Barbie Susanny estragou sua fantasia de boneca de porcelana rolando escada a baixo. O acidente deixou todos em pânico, uma ambulância havia sido chamada, mas já era tarde, Barbara já havia morrido.
O corpo de Barbara estava jogado no chão, do jeito que terminou de descer as escadas letíferas. Um braço embaixo da cabeça, virado para o lado como se não houvesse ossos dentro, o mesmo acontecia com as pernas, ambas viradas pra cima como uma boneca de pano jogada no canto. A fantasia de boneca de porcelana nunca pareceu tão assustadora como agora.
Alguns convidados tentavam acalmar a mãe de Barbie, a mulher estava incontrolável, a beira de uma crise. As crianças fantasiadas choravam enquanto os mais velhos reclamavam e gritavam, amaldiçoando a ambulância que não chegava, mas era tarde demais, Barbie estava morta.
_Deus! Ela moveu a mão!
Gritou o pai de uns dos garotos enquanto apontava pra menina. Todos se mobilizaram, umas dez pessoas ficaram em cima da menina para constatar a veracidade da informação e socorrê-la se estivesse mesmo viva.
_Saiam de cima dela! Deixem-na respirar!_Berrou a mãe para a multidão.
Um rosnar animalesco saiu do meio da multidão em torno da bonequinha. Gritos assustadores e terríveis acompanharam a multidão que se afastava da menina. A mãe de Barbie desmaiou quando viu sua filha com os olhinhos negros abertos e boca cheia de sangue, no chão estava um rapaz vestido de fantasma, seu lençol branco estava encharcado de sangue e ele estava encolhido no chão tremendo e choramingando. Os olhos diabólicos e vagos corriam o salão de festas analisando tudo.
Todos ficaram em silêncio. A menina era como um animal acuado e ninguém queria provocá-la, especialmente quem a viu morder o ombro do menino de fantasma e arrancar um pedaço, mastigar e engolir.
A menina começou a se mover, ela arrastou os braços e pernas como se estivessem dormentes, movimentos impossíveis para quem havia quebrado tantos ossos, de fato os membros faziam movimentos livres de qualquer limitação de articulação. Quando terminou a boneca de porcelana estava apoiada com mãos e pernas no chão, joelhos e cotovelos arqueados fazendo uma posição parecida com a de uma aranha, no entanto, era a barriga que estava posicionada para cima.
Ela pareceu não se importar com a posição, deu uma volta completa, batendo mãos e pés no chão e observando todos. Ninguém disse nada, nem se moveu, estavam paralisados por aquela cena digna de “o exorcista”. A boneca de porcelana terminou sua análise e fitou o alto das escadas, viu as pálidas faces de supergirl, da pirata e da bruxa má do oeste. A cabeça da menina então girou no eixo do pescoço, cento e oitenta graus aterradores, um rosnar de dentes sujos de sangue com os cabelos encobrindo os olhos negros e vibrantes.
A boneca de porcelana, mesmo naquela posição desengonçada, subiu as escadas se arrastando em considerável velocidade. As três meninas no alto da escadaria gritaram em extremo horror.
Quando chegou ao fim da escada a boneca de porcelana saltou como um predador em cima da bruxa má do oeste. Envolveu a vitima com os braços e pernas, como se fosse uma lula. Barbie aplicou então possantes mordidas nas costas da bruxinha, dilacerando sua carne e insistindo na forçosa tentativa de arrancar parte da coluna. A menina vestida de bruxinha no desespero acabou se jogando escada a baixo, mas isso não a livrou da boneca zumbi.
De volta ao salão de festas, a boneca de porcelana largou o corpo morto da bruxinha e lambeu os pequenos dentes enquanto se deliciava com o gosto da carne humana. A noite se seguiu como um pesadelo sem precedentes, algo que deveria apenas existir nos filmes de terror. Todos souberam da chacina daquela festa, mas poucos conhecem a verdade. Os outros convidados da festa foram quase todos devorados, os poucos que fugiram acabaram trancados num manicômio com suas loucas estórias sobre a boneca de porcelana zumbi.
O corpo de Bárbara Susanny nunca foi encontrado.
...
Algum lugar da savana africana. Uma semana após Merrick deixar a manada.
Os três caminharam por entre ossadas de grandes animais, esqueletos gigantescos que só poderiam pertencer mesmo aos maiores animais terrestres da terra. Um cemitério de elefantes.
_Quando um elefante sente que sua hora chegou, ele se afasta da manada e vai para um lugar, não se sabe como escolhem este lugar, mas é aonde eles vão para morrer. A nossa volta vocês podem ver vários esqueletos de elefantes, é realmente um cemitério de elefantes...
Primeiro a câmera saiu de cima de Jay e mostrou os ossos gigantes e em seguida, mostrou Merrick parada entre estes ossos, fazia movimentos muito lentos, parecia estar esfregando sua tromba em um crânio de outro elefante que um dia foi ali para falecer.
_Como vocês podem ver, Merrick está acariciando... O crânio de um elefante que um dia fez esta mesma jornada que ela fez... Isso é muito comum, ela pode estar demonstrando carinho pelos antepassados ou lamentando a perda deles, não se sabe o porquê disso... Talvez seja apenas um cheiro característico que a leva a isso, mas se me perguntarem... É carinho.
Três horas depois, Merrick se deitou e pareceu adormecer. Jay foi até ela e a tocou pela primeira vez. Constatou que a elefanta estava morta. Jay chorou.
Um dos olhos de Merrick se abriu de repente. Ela já estava morta, mas isso não impediu o olho castanho escuro com um ponto branco no meio de se abrir. É claro que Jay e os outros se assustaram quando o imenso animal que já estava morto se levantou lentamente e atacou mortalmente os três.
Era o fim. Então a estória do elefante não teria um final feliz.
A câmera caída no chão gravou o massacre do gigantesco animal, imagens turvas e desfocadas, mas claras o bastante para entender as cenas bizarras.
Greg caído no chão e Merrick se erguendo nas patas traseiras, ficando praticamente de pé. Em seguida, o monstruoso elefante pisa fortemente nas pernas do homem com as patas dianteiras.
Jeena sendo atingida no peito pela presa esquerda da elefanta, após perfurar e trespassar o corpo de Jeena com a presa, Merrick sacudiu o corpo da mulher com tanta força que acabou arrancando algumas partes, mas o tronco, o braço direito e a cabeça continuaram presos no marfim.
Jay foi agarrado pela tromba extremamente forte e erguido durante um urro enfurecido. Erguido e como se fosse um fruto, Merrick levou o corpo dele até a boca, onde ela mastigou e engoliu cada bocado de carne que o coitado tinha. Mordida por mordida a elefanta devorou seu maior admirador e atual único amigo.
Após este assassinato em série, Merrick partiu a procura de sua manada, ela encontrou, mas devorou apenas a jovem fêmea que a havia desafiado, os outros, ela perseguiu e forçou a saltar para a morte num desfiladeiro.
...
Vizinhança da Dra. Atsume. Odaiba, Japão. 19h06min
As roupas e jaleco branco estavam sujos de alguma coisa escura e avermelhada. Ela estava tropeçando a cada passo que dava. Desnorteada, seus pensamentos eram distantes, quase nulos...
Comer. Pobre Katsuo. Comer. Minha família morreu. Eu morri. Comer carne. O senhor Juuchigatsu está vindo em minha direção. Comer carne humana. Senhor Juuchigatsu é feito de carne humana. Comer. Comer. Comer. COMER.
A Dra. Atsume cortou a garganta do senhor Juuchigatsu, seu vizinho. Um corte preciso da broca elétrica do consultório odontológico. O sangue jorrou em dois pequenos jatos do pescoço do pobre homem, ele tentou estancar a ferida com as mãos, mas não teve êxito.
Diante daquele assassinato brutal todas as pessoas entraram em pânico. Amigos de Atsume tentavam argumentar com ela em gritos e ameaças, mas ela não ouvia. Seu olhar era bizarro, branco e sem vida.
Ela puxou Juuchigatsu para si e mordeu com força o pescoço do homem, arrancando um pedaço de carne diante de todos próximos. Dois homens tentaram detê-la, ela rosnou como uma fera selvagem e arremessou seus agressores para longe com fortes empurrões.
Pareceu insatisfeita diante da pequena quantidade de carne que comera e com um puxão ela arrancou parte do próprio rosto, rasgando a carne por cima da mandíbula. Um monstruoso sorriso deformado e sangrento tomou sua face e agora ela conseguiu morder um pedaço três vezes maior de sua vítima.
COMER. COMER. COMER. COMER. COMER. COMER. COMER...
Eles não eram mais seus vizinhos, amigos e parentes... Eram aperitivo, prato principal e sobremesa.
Aquela pequena comunidade foi quase que completamente devastada, não só pela terrível dentista zumbi, mas também por suas vítimas que momentos depois de morrer voltaram da morte compartilhando da fome de seu algoz.
...
Necrotério do hospital da Santa Cruz. Brasil. 3h45min da madrugada.
As luzes se acenderam novamente, não em toda parte, o hospital da Santa cruz tinha um gerador de emergência. Antes não tivesse voltado a ficar claro, agora o doutor Heverton teria que encarar a visão macabra diante de si.
Jorge Atanásio era uma coisa muito magra e alta, tudo nele parecia mais longo e fino do que nas outras pessoas, fossem braços, pernas ou até seus dedos. Ele era um homem aparentemente velho, rosto cadavérico, olhos fundos e escuros. Um queixo largo, mandíbula grande. Entre as pernas, em meio a escuros e volumosos pêlos pubianos, o pênis fino e retorcido meneava de um lado para o outro.
Em seu tórax podiam-se ver os pontos que o Dr. Heverton deu, costuras que acompanhavam as clavículas até se encontrarem no meio do peito e em seguida desciam até a parte inferior do abdômen. Os pontos não estavam terminados, o estômago de Atanásio ainda estava aberto, uma massa de carne humana mastigada e engolida escorria pela abertura que só era mais grotesca pelo grande tumor cancerígeno que expelia uma substância amarelada para fora.
O Dr. Heverton não conseguia parar de pensar naquilo, ele poderia ao menos ter terminado o procedimento e os pontos estariam completos, talvez aquela coisa já tivesse matado a fome se quem ele come não escapasse pela abertura.
Quem ele come. Atanásio estava comendo outras pessoas depois de morto. Insano, assombroso, mas real.
Heverton engatinhou para longe da ameaça, mas encontrou outra, viram os dois assistentes se arrastando pelo chão, eles estavam embebidos em sangue e seus olhos eram esbranquiçados e confusos. Eles rosnaram para o médico e começaram a se arrastar mais depressa, dentes prontos pra morder.
Quando o legista viu que o mal de Atanásio se espalhara por funcionários antes leais, ele não teve dúvidas de que morreria. Três maníacos canibais se aproximando para liquidá-lo. Ele pensou em desistir, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Ao tentar ficar longe o médico acabou chutando um pesado armário de metal, este quase caiu, e foi isso que o legista tratou de fazer, deixá-lo cair. Um empurrão com as duas pernas e pronto, o armário despencou em cima dos dois enfermeiros mortos e causou um som alto de crânios sendo quebrados.
O zumbi mais alto do mundo ainda estava lá.
Atanásio se aproximou do médico com a boca aberta e uma baba avermelhada gotejando da mesma. Os passos desengonçados, porém firmes do gigante morto-vivo estavam levando ele pra perto e o médico sabia o que ele queria, o médico sabia que seria devorado.
_Fique longe de mim!
O legista atirou em Atanásio a primeira coisa que encontrou, era um dos instrumentos metálicos que usara na autópsia. Pequeno e leve, o objeto apenas bateu no corpo do monstro e voltou ao chão.
_Não se aproxime! Estou avisando! Não se aproxime!
A seguir, uma lixeira, também de metal é lançada com toda força contra o morto-vivo. Apesar de atingi-lo com força no rosto, aquele objeto também não ameaçou o interesse que aquilo tinha em sua próxima refeição.
_Por favor! Em nome de Deus, eu estou pedindo! Pare! Fique longe! Fique longe!
O médico se levantou e puxou uma das macas rapidamente, ele a fez correr a sala até se chocar com Atanásio, mas a maca foi esbofeteada para longe. O tempo que a criatura levou para afastar a maca de seu caminho foi o necessário para Rogério Heverton pular pela janela.
O legista caiu do terceiro andar em cima de uma ambulância estacionada. Sua queda estraçalhou as luzes vermelhas tremulantes e quase quebrou sua coluna, a dor paralisou seu corpo e tudo a volta pareceu estar mergulhado em óleo, uma alucinação perfeitamente normal.
Enquanto ouvia Jorge Atanásio emitir um urro demoníaco, o médico perdeu a consciência.
Quando acordou, o Dr. Heverton estava deitado numa maca com amarras de couro contendo todo o seu corpo, não podia mover nada além de seu pescoço e até isso era doloroso. A maca estava no meio da rua, a luz parecia ter voltado aos postes e havia pessoas por toda parte. Uma equipe médica estava em volta de Heverton, mas ninguém lhe dava atenção, estavam compenetrados na situação que ocorria no hospital da Santa Cruz.
Dentro o hospital, podiam-se ouvir estranhos sons. Parecidos com gemidos agonizantes.
_Parece que algumas pessoas enlouqueceram, estão atacando qualquer um, funcionário ou paciente. _Disse uma enfermeira ao lado da maca de Heverton.
_Atacaram? Quantos baderneiros têm lá dentro?_Perguntou o motorista da ambulância.
Rogério Heverton ouvia a conversa atentamente, apesar do som dos gemidos no hospital atrapalharem... Não por serem altos, mas por serem perturbadores.
_Primeiro eu soube que tinha um maluco... Depois disseram que eram sete. Em seguinte já eram boatos de vinte e seis loucos quebrando tudo e machucando as pessoas.
_Parece que aos poucos eles foram reunindo novos seguidores!_Disse o motorista em tom sarcástico.
“Um. Sete. Vinte e seis” pensava o Dr. Rogério.
_Eu morri de medo e saí... Mas ficou muita gente lá dentro do hospital...
_Você ouviu aqueles gritos ainda há pouco?
_Claro que ouvi homem! Foi horrível, parecia que todo mundo lá no Santa cruz estava...
_Morrendo menina, parecia que estavam todos morrendo.
Um. Sete. Vinte e seis.
Havia um barulho muito alto de um homem gritando, era o megafone do delegado rasgando outros sons noturnos e fornecendo mais informações do que ocorria, mas na mente do Dr. Heverton, só uma informação o fazia raciocinar.
Um. Sete. Vinte e seis.
_Nós não vamos repetir! Saiam com suas mãos na cabeça!_Gritou o delegado da policia no megafone.
Um. Sete. Vinte e seis. O número em ordem crescente. Contagioso. O que estava lá, se espalhando, era contagioso.
O hospital estava logo à frente e uma ambulância do corpo de bombeiros estava logo atrás. Rogério Heverton rezou para ser colocado logo na ambulância, não queria ficar perto do hospital. Não importava quantos médicos, bombeiros ou policiais tivessem ali, ele não estava seguro. Ninguém estava.
_Este é o ultimo aviso! Se não se entregarem nós iremos invadir!_Insistia o delegado.
_Parem! A esta altura já deve ter se espalhado! Estão doentes! Doentes!_O Dr. Heverton pareceu possesso de fúria, se sacudia na maca que o aprisionava.
_Doentes? Como assim?_Perguntou o delegado.
_É um tipo de doença! Algo novo! Está se espalhando, é altamente contagiosa...
_Como sabe disso?
_Sou médico! Eu estava lá dentro, eu vi tudo acontecer!
_O que exatamente você viu?!
_É uma doença... Não sei... Deixa o enfermo agressivo, com impulsos canibais...
_Canibais?!
_Sim, eles comem carne humana.
_Santo Deus, eu vou invadir.
_Não! Se arrombar aquela porta eles vão sair! Tem que isolar este prédio! Tem que por todos em quarentena!
O delegado apenas ignorou e deu a ordem. Uma tropa de choque correu com escudos e cassetetes na direção da porta do hospital. Eles fizeram manobras padronizadas até chegarem ao ponto, arrombar a porta e entrar de uma vez.
Eles permaneceram lá por poucos instantes antes de ouvir-se um grunhido coletivo. Parecia que uma multidão tinha rosnado fortemente, como animais enraivecidos. Depois disso ouve silêncio. Silêncio que durou por um ou dois longos minutos.
Eles marcharam para fora do hospital da santa cruz aos tropeços, uma multidão de funcionários, pacientes e familiares, todos ensangüentados e ensandecidos. Uma dinastia de zumbis, um batalhão de mortos-vivos, uma horda trôpega e faminta.
Ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo e não houve tempo para pensar sobre o assunto, pois os zumbis atacaram ferozmente todos a volta, se espalhando como uma nuvem de gafanhotos sobre uma plantação desprotegida. Eles devoravam tanto quanto conseguiam. Homens, mulheres, velhos ou crianças, sem distinção alguma, aquele que não era um morto-vivo, era logo devorado por um...
O que era realmente medonho era o fato de que todos os devorados aos poucos voltavam à vida. Vítimas renascidas para se tornarem assassinos canibais. Nem vivos, nem mortos.
O Dr. Rogério S. Heverton começou a chorar como uma criança, o medo lhe corroia os ossos. Ele podia ver o princípio do apocalipse acontecendo e estava amarrado a uma maca no meio de tudo, situação mais desesperadora... Era impossível.
Jorge Atanásio, o zumbi mais alto do mundo, atravessou a chacina em linha reta, passava sobre pessoas e outros mortos-vivos como se fossem apenas insetos, estorvos.
Ele vai me devorar.
O gigante cadáver se aproximou da maca do Dr. Heverton e parou diante do médico amarrado, fitou-o intensamente.
Ele vai me devorar.
O médico sentiu calafrios estarrecedores, o pavor estava dominando sua mente. Aquela figura alta e macabra olhando pra ele.
Ele vai me devorar.
A criatura estendeu a mão magra e grotesca na direção do legista imobilizado. Um gesto ameaçadoramente sinistro.
Oh Deus, ele vai me devorar.
Atanásio vociferou um conjunto de sílabas que nada significavam. Um urro diabólico com os braços abertos e face voltada para o céu, como se clamando alguma força superior. O brado fez todos os mortos-vivos interromperem o banquete e voltarem suas limitadas e confusas mentes para o mais alto de todos os defuntos.
O urro parecia expressar maldade, fome e uma conquista. Após todo aquele tempo perseguindo o médico legista, o predador finalmente alcançou sua presa.
Atanásio agarrou as amarras e arrancou todas, livrando o corpo de Rogério S. Heverton. Ele ergueu o corpo do médico como se fosse um brinquedo e babou observando sua refeição, mas por algum motivo, o monstro hesitou por um momento, o legista estava imóvel e não demonstrara nenhum medo de seu algoz.
Rogério S. Heverton morrera de um ataque cardíaco no momento em que o culminante e falecido Atanásio havia urrado aquela palavra bizarra.
Mesmo percebendo que Heverton estava morto, Atanásio o devorou.
...
“Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a Terra”_Dawn of the Dead, 1978.
Mensagem à Deaf City.
Esta mensagem é para todos os habitantes da cidade de “Deaf City”. É estranho que esta cidade tenha sido escolhida para o que está por vir, talvez seja pelo trocadilho fúnebre, “Deaf/Death”...
Vocês são habitantes desta pequena cidade canadense que é cercada de exuberantes montanhas, florestas vastas, maravilhosos lagos... Vocês vivem num pequeno paraíso de menos de dez mil habitantes.
Eu conheço o senhor Sherman da fazendo com aquela plantação exuberante de milho, conheço aquele velho e seus “Larrys”, aqueles bonecos que ele faz com os sabugos de milho e tenta vender para as crianças na cidade... Tolo homem, as crianças morrem de medo daqueles pequenos espantalhos.
Conheço a madeireira que emprega tantos lenhadores bravos e honestos e seus problemas com a guarda da reserva florestal que os impede de avançar um pouco em seu território.
Conheço a prefeita Deacon com suas tortas de amora esfriando na janela, empesteando a vizinhança com aquele aroma divino de dar água na boca de um camelo. Mulher gentil e dedicada a cidade que ama, aliás, que todos amam!
Conheço as crianças que brincam no parque com aquele velho vira-lata marrom... Que cão simpático! Sempre deitado perto do balanço, esperando algum garoto bondoso vir para dar-lhe um biscoito e brincar com ele. Qual era mesmo seu nome? Chocolate ou Caramelo?
Sim, eu conheço bem o Drive - in aonde vocês vão para assistir aos grandes sucessos do cinema e é claro, para namorar ou rever os amigos... Reuniões...
Em breve vai estrear o remake de meu filme favorito...
Eu conheço você também!
Sim, eu já fui um habitante desta amistosa comunidade. Por isso a escolhi para minha experiência, por isso vou matar todos vocês.
A grande experiência.
Ha alguns anos eu fiz uma grande descoberta, desenvolvi uma fórmula para reativar as funções vitais do corpo humano após a sua morte. Sim, isso mesmo, eu posso reviver os mortos.
Quem esperava isso de um caipira, hã?
Eu escolhi cinco cobaias pelo mundo e sem que elas soubessem, as infectei com meu soro. Usando equipamento sofisticado e uma equipe bem treinada, eu pude monitorar estas pessoas por meses e meses, no final eu acabei me deparando com a morte de Cada uma delas por meios diversos, mas o milagre veio em seguida.
Todas retornaram da morte.
Neste estágio seus corpos conseguiam desempenhar as funções vitais básicas, mesmo que estivessem combinando células vivas e mortas ao mesmo tempo, o único termo que posso pensar para definir o estado de existência atual de minhas cobaias é... Mortos-vivos.
Sim, exatamente como os zumbis de George A. Romero. Eles são apenas versões torpes e toscas do que foram um dia, reduzidos ao instinto básico de sobrevivência, comer.
Por algum motivo as minhas criações se tornaram extremamente agressivas para conseguir alimento e aparentemente tornaram-se exclusivamente carnívoras. Eles perseguem e devoram qualquer coisa que se mova... Até mesmo pessoas.
Mas não as julguem como canibais, parece que seu comportamento é simples, eles devoram qualquer coisa que se mova, exceto outro deles, portanto, acredito que se reconhecem como uma nova espécie, e todas as outras estão no cardápio.
O mais impressionante é que quando eles mordem um ser vivo, o soro contido na saliva deles é compartilhado com a vítima, que em pouco tempo se torna um deles. Como uma doença se espalhando.
Capturei cada um de meus primogênitos e suas crias, planejando diferentes formas de utilizá-los, cheguei à conclusão que sua maior utilidade é...
Arma biológica.
A minha primeira fase teste será deixar meus mortos-vivos devastarem completamente Deaf City.
Vocês conseguem imaginar o pesadelo pelo qual vão passar? Eu duvido muito.
Devem estar se perguntando por que eu faria isso.
Bom, talvez eu seja meramente vil.
Em breve eu estarei no topo da lista dos mais procurados da América, não sei se o Canadá tem uma... Hmmm... Em breve eu estarei na lista negra do mundo inteiro...
Chamar-me-ão de terrorista, genocida, servo de satã. Serei tachado de tudo, menos cientista. Serei tachado de tudo, menos sonhador.
Logo, nomes como Osama Bin Laden ou Saddam Hussein serão lembranças mais felizes para a humanidade, serei o homem mais odiado do planeta... Mas isso não importará, pois pouco tempo depois serei também o homem mais rico, poderoso e temido de todo o globo.
Então, eu posso estar fazendo isso por poder, por dinheiro...
Quando eu mostrar ao mundo o que houve com Deaf City, como minhas hordas de zumbis puderam devastar rapidamente uma cidade... Bem, muitos irão de fato me caçar, mas muitos vão pagar caro para possuir minhas armas em mãos.
Armas biológicas.
Os resultados desta experiência de campo em Deaf City serão relatados a todos os líderes mundiais e eu oferecerei uma promoção camarada ao primeiro que comprar amostras de meu soro.
A esta altura, devem achar que sou louco.
Será isso? Eu estou fazendo isso por simples niilismo? Sou um demente fascinado pela morte?
Não é longe da verdade.
Veja bem, a morte tem cinco diferentes facetas divididas em duas naturezas, a morte natural e a não natural.
Entre as não naturais temos o assassínio (Quanto terceiros tiram a vida de outro), o incidente (Quando eventos acidentais causam a morte) e o suicídio (Quando alguém decide se matar), e entre as naturais estão... A velhice (Quando à hora simplesmente chega) e a moléstia (Doenças e outros problemas de saúde).
Todas as formas de morte se encaixam numa destas facetas. Não é interessante? Não? E se eu disser que entre minhas cinco cobaias... Cada uma morreu de uma faceta diferente da morte. Isso sem nenhuma influência minha ou de qualquer parte. Você passaria a considerar a morte mais meticulosa?
Assassínio
Primogênito de codinome “Macacão laranja”, ele era um psicopata que foi condenado à cadeira elétrica. Quem são os homens para condenar outro homem? Isso não passa de assassinato. A execução aconteceu, mas macacão laranja é que foi o executor.
Incidente
Primogênito de codinome “Boneca de porcelana”, ela era uma linda garotinha em sua festa de dia das bruxas. Suas amiguinhas a provocaram e ela acabou rolando escada abaixo, quebrando todos os ossos do corpo. Preciso dizer qual era a fantasia dela?
Suicídio.
Primogênito de codinome “Ha-Isha-chan”, palavra japonesa para “Dentista”. Uma dentista de fato, estava muito chateada com problemas familiares. Quando foi despedida acabou tendo um surto e cortou os pulsos com sua broca de obturação.
Velhice.
Primogênito de codinome “Merrick” é um grande elefante africano. Liderava a manada, mas acabou ficando velha demais e encontrou uma morte triste e solitária. Tudo registrado por cinegrafistas de um programa sobre a vida animal.
Moléstia
Primogênito de codinome “Atanásio”, Tido como o homem mais alto do mundo. Ficou famoso por essa estatura assustadora e apesar de ter vários problemas de saúde por conta desse corpo... Foi um câncer de estômago (sem nenhuma ligação com sua altura) que encerrou seus dias de glória.
Não conseguem enxergar a beleza nisso?
...
Esqueçam.
Apesar de eu estar fascinado pela morte, interessado em vender minha descoberta como arma biológica e porque não dizer... Por ser vil...
Eu tenho motivos ainda maiores, um sonho muito superior a toda essa futilidade.
Sou um homem religioso. Eu acredito em tudo que está na bíblia, exceto um livro. Sei que não deve um cientista crer em Deus, mas não posso evitar, eu acredito na bíblia (exceto um livro) totalmente.
Minha passagem favorita é a de Lázaro. A forma como Cristo o fez ressuscitar milagrosamente após quatro dias de morte, me fascina. Eu invejo Lázaro... Quer dizer, eu o invejei...
O único livro da bíblia em que não acredito é o “apocalipse”. Creio que se Deus quisesse abortar o mundo, ele já teria feito. Nem mesmo nos tempos do dilúvio o mundo esteve tão decadente, vocês matam, roubam, estupram, traem, se vendem, fornicam... Estamos infestados com dementes, gays, democratas e outras aberrações do espírito humano... E ainda assim estamos aqui.
Acredito que ele mudou de idéia. Que Deus quer que fiquemos aqui para sempre e para sempre é exatamente o tempo que quero realmente ficar por aqui.
Quero ser imortal.
A imortalidade é a fronteira final. O verdadeiro objetivo de meu estudo. O soro que reviveu os mortos e criou exércitos de zumbis é apenas um protótipo para um soro da vida eterna!
Eu estou cada vez mais perto de recriar os milagres de cristo, e mais... Estou perto de superar o filho de Deus, criando uma forma de tornar a morte apenas uma opção jamais escolhida.
Enquanto minha empreitada para obter a eternidade em mãos não houver terminado, eu continuarei a reunir fundos para minha pesquisa, vendendo os hodiernos frutos de meu trabalho.
É uma pena que não poderei ir ao Drive - in de novo...
Para vocês de Deaf City, vocês todos que vão morrer... Antes que suas vidas acabem tão desesperadoramente... Vão assistir ao filme...
United Zombies - parte três – A reunião dos mortos-vivos.
Meu filme favorito. É sobre zumbis. Assistam com quem vocês amam... Vão adorar...
É um filme muito educativo.
terça-feira, 28 de julho de 2009
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