terça-feira, 28 de julho de 2009

ALL STAR - Entrevista com o super vilão.

“Aquele que faz de si uma besta livra-se da dor de ser um humano.” _Doutor Johnson.

Great City. Outono de 2018.

O velho e surrado “all star” era o tênis favorito de Alphonse Stivenson. “Alphonse”, ele odiava aquele nome, graças ao senhor Jesus ele conseguiu convencer seus conhecidos, pois quase não tinha amigos, a chamá-lo de “AL”.
O all star era de fato muito velho. O preto já estava cinzento e tudo o que deveria ser branco era agora dotado de uma tonalidade empoeirada e encardida, mas Al adorava seus tênis, eram seus companheiros inseparáveis. Olhar pra eles o enchia de orgulho. Era um homem de honra, a primeira coisa que ele comprara com seu próprio suor, a mais de sete anos. Olhar pra eles quase o fazia se sentir bem naquele momento.
Ele estava com medo, hoje ia ser um dia terrível no “Daily Sky”, O telejornal onde ele trabalhava. Hoje Lucy Lantys ia entrevistar alguém que metia medo no mundo inteiro, ele ainda se lembrava de quando recebeu a notícia...
_Hey Al! Você soube?!_ James Orlend era fotógrafo amador e melhor amigo de Al.
_Soube de quê Jamie?_ Al não dera atenção, naquele dia estava ocupado organizando tudo para servir o café de Lucy Lantys, sua função favorita no jornal.
_Sabe aquele sujeito?! O Joseph Kaine?!
_Aquele maluco que sofreu um acidente numa usina nuclear?
_EXATO! O cara ficou radioativo! Super forte e invulnerável, o máximo cara! Fantástico!
_Fantástico?_disse Al com apatia.
_Claro! Fantástico!_insistiu Jamie.
_O cara se tornou o ser humano mais poderoso do planeta num estalar de dedos e usa esses poderes pra destruir cidades e matar pessoas. Ele não vale nada, é patético, um arremedo de homem... _ Al sempre teve verdadeira intolerância a pessoas de má índole. Pena que nunca teve o físico necessário para dar boas lições a tais pessoas. Magro e fraco, Al é que sempre apanhava no colégio de valentões como Joseph Kaine. Valentões. Para Al era isso que Joseph Kaine era, apenas o maior valentão da história.
_Sabe Al... Se eu fosse você não falava assim do tal Kaine...
_E por que Jamie? Ele vai me bater?_disse debochado. _A ultima vez que o cara foi visto... Foi... Na China! Destruindo a grande muralha... Ele está a quilômetros daqui...
_Adivinhe quem a Lucy Lantys vai entrevistar ao vivo no programa dela hoje?
_Como é que vou saber? Eu... _ Assim que Al percebeu do que Jamie estava falando, se calou e observou o amigo com pavor. _Joseph Kaine?!
_Joseph Kaine. _Disse Jamie com tom amedrontador.
...
Era isso, Joseph Kaine o homem que o exército de 20 países não conseguiu parar, ia dar uma entrevista ao vivo bem ao lado de Lucy Lantys. Isso não deveria preocupá-lo tanto. Claro que todos estavam apavorados, alguns pediram demissão ou afirmaram estar doentes para não ir trabalhar naquele dia, o jornal nunca estivera tão vazio antes. Ele poderia ter ido embora, mas não foi. Ele sabia que se Kaine quisesse matar todos, ele simplesmente iria, mas não podia ir e deixar Lucy. Ninguém sabia disso, nem mesmo Jamie, mas Al estava apaixonado por Lucy Lantys, perdidamente apaixonado. Sendo assim mesmo que o máximo que pudesse fazer fosse morrer tentando salvá-la, ele ainda assim tinha que tentar.
Quando faltavam cinco minutos para o jornal começar o tal Kaine já estava sentado para a entrevista, parecia gostar das câmeras, dispensou a maquiagem e graças a Deus, o café, afinal Al é que teria que servi-lo.
Lucy veio pelo corredor respirando fundo, ela estava pronta para a entrevista, trazia consigo uma caixa com um embrulho de presente, AL achou um absurdo, não era possível que o programa fosse presentear aquele assassino, o que diriam? “Senhor Kaine, uma lembrancinha para o senhor saber que o estimamos muito e que adoraríamos que não nos matasse”, por favor, era patético, humilhante. Mas Lucy tinha outros planos para a caixa, assim que passou por Al que estava abaixado arrumando os cabos das câmeras, outra de suas funções, ela se abaixou e estendeu o presente para ele dizendo com profunda gentileza.
_Sei que seu aniversário é no fim de semana, ninguém sabe, mas eu sei... Decidi lhe dar uma lembrança. Não pude esperar até o fim de semana, afinal... Talvez ninguém saia vivo daqui hoje... Feliz aniversário, Al. _ Então ela saiu e se sentou pronta para o programa começar. AL não dissera nada... Não sabia o que dizer, segurou forte a caixa de seu presente e observou Lucy com uma mistura de alegria e tristeza, como se ela tivesse revelado que o ama a beira da morte... Uma felicidade incompleta.
A beira da morte.
...
O jornal foi ao ar em horário normal naquela noite. Lucy estava exuberante, seus cabelos castanhos assumiam uma cor de mel, tonalidade que só era possível sob os refletores do estúdio. Olhos igualmente castanhos e uma pele clara e delicada acentuavam sua beleza, o terno com saia tão formais não podiam de forma alguma esconder que ela era uma beldade, uma deusa.
Joseph Kaine era um animal, o homem era tão grande quanto um dos melhores jogadores de futebol americano. Tinha o cabelo raspado e um rosto forte e apesar da aparência agressiva estava sempre sorrindo, um sorriso de deboche, um deboche a todo o mundo. Seu corpo era enorme, músculos bem trabalhados, quase um fisiculturista, ele usava uma camiseta branca levemente manchada no peito por uma substância magenta, sangue de suas vitimas talvez. Calças jeans muito apertadas com rasgos na altura dos joelhos, botas militares terminavam o estilo valentão. “Apenas o maior valentão da história”, pensou Al.
Logo que o programa começou todos engoliram seco. É claro que o mundo inteiro sintonizou na primeira entrevista com o monstro. Aparelhos de TV ligados no mundo todo. O cenário de escritório aconchegante com uma falsa janela de falsa vista pra cidade era o fundo do show de horrores. As sete câmeras apontadas para Lucy e Joseph ocultavam o emaranhado de cabos elétricos que serpenteava pelo chão em torno de vários aparelhos e os refletores luminosos. Estes pendiam sobre as cabeças de todos ou miravam seus rostos sobre pedestais, todos os aparelhos de metal negro sem vida. Admissível, um cenário digno de uma possível catástrofe, mas Lucy sempre profissional prosseguiu com o espetáculo. Estaria ela tão confiante quanto parecia... Ou ela também estava tão apavorada quanto todos os demais presentes? Quem sabe...
_Boa noite, eu sou Lucy Lantys e falo ao vivo do “daily Sky interviews”. Estamos aqui hoje para entrevistar o senhor Joseph Kaine. Kaine é uma figura conhecida no mundo todo, há seis meses o senhor Kaine foi vítima de um acidente numa usina nuclear. A radiação em vez de matá-lo, o transformou num homem super poderoso. Poderes antes vistos apenas em estórias em quadrinhos ou nos cinemas. O senhor Kaine é acusado de diversos crimes de assassinato, estupro e destruição de patrimônio público. Todos estes pontos serão abordados aqui hoje. _ela se virou para o monstro e começou a assustadora entrevista. _Boa noite senhor Kaine.
_Boa noite senhorita Lantys, é um prazer estar aqui esta noite. _Kaine sorria simpaticamente, era pavoroso.
_Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer por aceitar vir até nós pacificamente e nos proporcionar um esclarecimento por seus atos. _disse polidamente a entrevistadora.
_Não precisa agradecer Senhorita Lantys... Lucy... Posso chamá-la de Lucy? Obrigado. _após dar-se a liberdade de se dirigir a ela como quisesse ele continuou. _Eu quero esta oportunidade de mostrar ao mundo que não sou o monstro que todos tão cruelmente afirmam que sou.
Kaine sorriu juntando as mãos como um garoto bem comportado.
_Entendo... Bom... Senhor Kaine vamos começar desde o inicio, onde o senhor nasceu? Têm parentes?
_Bom Lucy, eu nasci no Brooklin, lá em Nova York. Ainda bebê, fui abandonado às portas de um orfanato, tive uma infância difícil e sofrida, as freiras que cuidavam das crianças eram deveras muito exigentes em dogmas religiosos que eu não apreciava, então era constantemente punido. Aos meus quatorze anos, eu fugi e fui adotado pelo único homem que chamei de pai, infelizmente ele também não era uma pessoa muito gentil, além de ser constantemente espancado eu também sofria diversos tipos de abusos sexuais, uma nova fuga encerrou minha estada com meu pai. Então eu decidi entrar no negócio de furtos. Todos os dias eu tinha que roubar algo pra comer ou dormir morrendo de fome... E céus... Nada é pior que deitar em lençóis de velhos jornais e sentir o estômago morrendo... Bom foi nessa fase que conheci um policial que me deu uma surra tão bem dada para me disciplinar que me deixou retardado.
_Meu Deus! Foi uma vida de fato muito sofrida senhor Kaine. Sinto muito_disse Lucy assustada.
_Pena que é tudo mentira. _disse Kaine antes que se encerrar numa profunda e trovejante gargalhada. Al ficou indignado, furioso. Deboches e mais deboches. Ele observou Lucy que parecia também irritada, mas se conteve e continuou.
_Bom senhor Kaine, se nós pudermos continuar sem mentiras...
_Me desculpe senhorita vaca repórter de quinta, não sabia que o senso de humor era um pecado capital aqui nesse lixo que vocês chamam de estúdio... Mas deviam ver suas caras... Foi impagável!_ o comportamento de Kaine mudara de repente, a besta mostrara suas garras, uma língua afiada e uma profunda falta de respeito e pudor para com as pessoas. Todos foram tomados por um sentimento de revolta, mas o que poderiam fazer? Kaine era indestrutível. As forças armadas sabiam onde era o programa, e nem eles iriam aparecer, já haviam deixado de lado a tola idéia de combater Joseph Kaine. Era como querer impedir uma erupção vulcânica com as mãos. Logo, ninguém viria ajudar, a única coisa que todos podiam fazer era respirar fundo, engolir a dignidade e continuar o espetáculo, e foi isso que Lucy Lantys fez.
_Poderia nos contar a estória verdadeira senhor Kaine?
_Não. _ disse com revoltante calma.
_E por que não? O senhor não havia concordado em dividir conosco sua estória?Pensei que tivéssemos um acordo. _Lucy olhava para as câmeras como se pedisse ajuda para aquela situação absurda.
_Não posso lhe contar, madame... Eu não me lembro, fiquei com amnésia depois do acidente, nem me lembro do meu nome! Joseph Kaine é um nome que eu mesmo inventei, só lembro do maldito acidente pra cá.
_Então senhor Kaine... _ Lucy tenta controlar a raiva. _ Por que não começamos do acidente então? Como aconteceu?
_Bem eu tinha ganhado uma promoção pela internet para uma excursão a uma usina nuclear, era uma droga de programa puta chato, mas tinha um hotel três estrelas e passagem de avião grátis, então fui ao passeio e visitei o maldito lugar. Bem quando eu estava lá houve um acidente, algum idiota derramou cerveja quente num painel de controle ou coisa parecida, e à droga toda explodiu, eu tentei sair, mas fiquei pra trás, os sacanas me deixaram pra trás... Mas se fuderam! Acabei ficando mais forte que o super homem! Aqueles merdas viram o que é bom!
Lucy sabia que ele mentia. Se ele só se lembrava “do acidente pra cá” como dizia, então como sabia que havia ido a usina por ter ganho um prêmio via internet? Kaine era ardiloso e mentiroso, mas é como dizem... O show tem que continuar.
_Bom senhor Kaine, de acordo com meus arquivos... _ela retirara uma pasta e abriu observando documentos. _ De acordo com isso o senhor foi o causador do tal acidente com cerveja quente e depois do acidente assim que percebeu seus atuais poderes... Tratou de matar todos os funcionários da usina que conseguiu encontrar.
_Eles me deixaram pra morrer. Eu fiz justiça.
_O senhor chama isso de justiça?
_Sim, lei do mais forte! É simples docinho, eu tenho poder pra fazer então por que não fazê-lo?
_Por que não falamos sobre seus poderes? O que exatamente o senhor pode fazer? _mudou de assunto antes que perdesse a paciência.
_Oras... É óbvio, eu sou super forte e invulnerável...
_O quão forte o senhor é? Pode erguer um carro?
Kaine riu.
_Posso fazer malabarismos com carros, gatinha. Eu já fiz isso... Mas foi com tanques. Já ergui uma baleia que estava encalhada, mas só de onda deixei lá, lei da natureza, ela foi burra pra atracar na areia, merecia morrer lá. Também já consegui derrubar uns edifícios com socos... Precisa de muitos golpes... Mas se atingir os pilares de firmamento eles caem rapidinho, crânios eu posso espremer como espinhas, espinhas mesmo, os cérebros parecem o pus.
_Meu Deus. _ disse apavorada.
_Não... Deus eu ainda não sou! Sua boneca burra!_ gargalhou.
_E quanto a sua... Invulnerabilidade... NADA pode ferí-lo?
_Pergunta pro exército! Eu já enfiei o pau no cu daqueles merdas trocentas vezes! Eles não são de nada. Balas eu nem sinto. Granadas são quentinhas. Mísseis são como agulhas, incômodos, mas inofensivos... Realmente, NADA até agora me feriu, nada. Na verdade eu tenho uma proposta pros cuzões da América e do mundo, lembram quando eu destruí o pentágono? _Kaine sorriu sadicamente. _Vocês ficaram putos, né? Que tal isso... Eu vou marcar um dia pra ficar paradinho num deserto pra vocês não poderem falar que se borraram por causa de civis inocentes. Bem no meio de um deserto sozinho, só eu. Daí vocês jogam uma daquelas bombas que jogaram nos japoneses, aquela atômica, se eu morrer vocês dão uma festa, fazem feriado mundial e toda essa merda... Mas se eu ganhar vocês me fazem dono do mundo! Me dão um trono e uma coroa e todas as mulheres que eu quiser foder!_ gargalhou alto como uma tempestade.
_Senhor Kaine! _Lucy parecia furiosa, mas AL fez gestos para que ela ficasse calma, a jovem se conteve e tentou prosseguir. _ Senhor Kaine, vamos falar sobre os danos que causou. O senhor destruiu a muralha da china estou certa?
_Aquela droga de muro não serve pra nada! Eu estava passando e aquela merda tava no meio do meu caminho, e aqueles japoneses chupa rola queriam que eu andasse setenta metros pra achar um portão! Que se danem aqueles merdinhas de pau pequeno. Detonei com aquela porcaria. Só depois fiquei sabendo que é a única coisa feita pelo homem que da pra ver da lua, que foda, se soubesse disso teria dado um jeito de colocar meu nome lá... Pra todo mundo ver escrito da lua... “Joseph Kaine fudeu por aqui”...
Lucy parecia prestes a perder o controle, alguns dos outros funcionários da produção tinham se retirado, provavelmente fugido, mas Al ainda estava lá, seu olhar triste e desesperado a fazia pensar, se acalmar.
_Teve também o pentágono! Eu tinha cansado de levar tiro do exército então decidi dar o troco! Quem pode me censurar? Não tinha atirado em ninguém! Atiraram em mim primeiro! Eu matei sim... Mas tiro eu não dei... Fiz aquele lugar ruir em questão de uma hora, quanto mais atiravam em mim, mais puto eu ficava e ai é que ferrava com eles mesmo! Depois daquele massacre eles parecem ter decidido que já que é inútil me combater iam me deixar em paz, esperar eu morrer de velhice talvez, se é que eu envelheço agora que sou um titã.
_Senhor Kaine... _ tentou interromper a senhorita Lantys.
_E o cristo redentor! Eu não tenho nada contra Deus! Nem Jesus! Sou católico, sempre ia à igreja nos domingos antes da minha benção super poderosa que me transformou num santo! Sim porque o que eu faço são verdadeiros milagres... Devia experimentar Lucy...
Lucy revoltara-se, não havia se preparado para ofensas pessoais, mas Al continuava ali atrás das câmeras implorando por sua calma, ela se conteve de novo.
_Sendo um homem religioso eu nunca faria isso sem um bom motivo e eu tive um excelente motivo! Um programa brasileiro de uma igreja qualquer tentou insinuar que era o anticristo! Puta merda! Anticristo é uma ofensa muito grande! Destrocei a estátua e claro, depois me confessei, fico feliz que o padre tenha me absolvido de TODOS os meus pecados e não só do cristo redentor... Era esse que me preocupava mesmo... Nos outros eu estava completamente certo...
_E porque não falamos de suas vítimas?! Quantas pessoas o senhor já matou senhor Kaine?!_ Lucy gritara a ultima pergunta, Kaine se calou por um segundo. Um segundo em que todos esperaram o pior, mas o monstro recomeçou seu discurso absurdo e cruel.
_Eu não sei Lucy, matei muita gente. Agora mesmo quando vinha pra cá eu esbarrei com uma situação desagradável, fui numa porra de lanchonete onde pedi um hambúrguer e uma cerveja. A cerveja estava boa... Gelada, exatamente como deve ser... Mas o hambúrguer... Não... O hambúrguer não estava bom, o bife estava mal passado, sabe quantas doenças se pode pegar por comer bife mal passado? Desses que sangram se você apertar entre as mãos? Tenho cara de quem quer comer sangue de boi? Eu só quero carne em meu hambúrguer! Carne! Não sangue! Carne!
_Senhor Kaine, vai me dizer que matou pessoas por causa disso?!
_Claro que não! Era só um hambúrguer... Eu reclamei e mocinha me fez o favor de me trazer outro. Estava tudo resolvido, mas o sujeito da mesa ao lado quis arranjar confusão... Veio me dizer que eu fui muito “rude” com a garçonete, eu odeio gente intrometida e metida a herói Lucy, detesto essa raça, mas não é por que ele era preto, não... Eu até acho bonito isso de tratar os pretos como se fossem brancos, acho lindo, de verdade.
Cada palavra de Kaine era como se fosse vomitada sobre todos os pilares de igualdade e justiça da raça humana, e só o que podia ser feito, era se calar.
_Mas o crioulo tinha que vir me atazanar?! Aquilo foi uma falta de respeito... Eu arranquei a língua dele com o garfo e a faca que ele tava usando pra comer um pedaço de torta, claro que ele sangrou muito eu peguei o sangue e passei no meu hambúrguer e mandei comer pra ele ver se o gosto de sangue em hambúrguer era bom! Mas o filho da puta tava sem língua! Não ia sentir gosto de porra nenhuma! Então fiz a mulher a as duas garotinhas dele comerem e elas concordaram comigo.
Houve silêncio. Al estava apavorado. Jamie acabara de vomitar litros de substâncias imundas e mal cheirosas por toda parte. Lucy olhava aquele assassino com extremo pavor, suas mãos já suadas tremiam e seus lábios oscilavam tentando proferir palavras.
_Bem... Acho que foi uma entrevista... Muito... Esclarecedora senhor Kaine... Nós vamos encerrar por aqui...
_Espere um pouco aí Lucy... Você quer que tenhamos audiência nessa joça de programa que vocês têm aqui não é? Pois então... Deixe-me ensinar uma coisa pra você, falar de meus assassinatos não vai te dar audiência alguma. SEXO é o que dá audiência hoje em dia, vamos falar sobre meus estupros Lucy.
Apavorada Lucy Lantys tentou contestar, mas já não tinha palavras. Al se sentiu profundamente angustiado, uma necessidade imensa de tirá-la dali. Jamie já havia fugido, ele nem notara sua ausência, o monstro continuou.
_Bom... Vejamos teve aquela freira em Toronto, ela passeava na rua como quem não quer nada eu passei bem ao lado. Todos já tinham me reconhecido, as pessoas abriam caminho pra mim, tiravam fotos, ligavam pra polícia, essas coisas, mas a freirinha não parecia ter me visto, ela estava com a cabeça olhando pra baixo e juro... Ela olhou pras minhas calças, eu levantei aquele vestido preto sinistro e comi ela ali mesmo na praça, foi em frente à igreja, mas novamente, pedi perdão ao padre de e ele me perdoou. Tudo bem, ele estava com medo sim, apavorado, mas pareceu tão sincero, acho que ele me perdoou de coração.
Kaine sorria alegremente ao reviver suas doces memórias. Já os demais apenas cogitavam cada vez mais a idéia de que estar ali era uma desvairada loucura.
_Claro, teve uma vez que pedi abrigo numa casa no Kansas, uma fazenda bem bonita. A dona da casa era viúva e tinha três filhinhas adolescentes, a senhora apesar de bem apanhada não era muito boa de cama, mas as mocinhas sabiam exatamente o que estavam fazendo.
Kaine gesticulava de forma obscena enquanto descrevia o que fizera com as jovens moças, Al precisou desviar o olhar.
_Mas aquela garota que limpou meu pára-brisa por uns trocados na parada do semáforo quando cheguei aqui em Great City, ela foi à melhor... Eu ofereci alguns tocados pelo serviço e ela aceitou, parecia faminta, mas isso não a impediu de ser enérgica. Barulhenta. Como eu gosto, acho que ela nunca pensou que algo tão grande pudesse entrar em algo tão pequeno! Ela devia ter só uns... Oito anos...
Lucy não podia mais agüentar.
_Seu monstro! Quem lhe deu o direito de tratar as pessoas dessa forma! Quem disse que você pode tratar todos nós como lixo?! Nos roubar, ferir e assassinar! Quem lhe deu esse direito seu porco imundo?!_Lucy perdera a calma, ela gritou furiosamente e soltou tudo que estava entalado em sua garganta desde que havia aceitado fazer aquela entrevista.
_ Por que você faz essas coisas?! Por que insisti em ser tão baixo, vil e cruel?! Por que cultiva a própria maldade com tanto orgulho seu verme?! Me diga! Por quê?!
Kaine apenas sorriu.
_Bom Lucy, veja bem, eu tenho poder suficiente pra matar todas as pessoas do planeta. Nada que eu queira esta fora de meu alcance. Tenho apenas que estender a mão e pegar, nada nunca me será negado de novo, desde que eu esteja preparado pra esquecer dessas merdas que você fala, isso que aprendeu na escola dominical. Desde que esteja pronto para usar a força, eu poderei ter tudo àquilo que desejar, se eu disser “Lucy, sente-se aqui no meu colo”_ Al ficou apavorado, Lucy chegou a tremer com a possibilidade. _ você vai simplesmente ter que sentar, pois ninguém vai vir te salvar. Nem a policia. Nem a porra do exército. Nem o viadinho que te come, seja quem for. Nem sua mãe ou seu pai. Você vai simplesmente se sentar aqui e ficar quietinha. Entendeu sua vagabunda burra e desgraçada?
Apavorada, Lucy apenas concordou com a cabeça, decidiu permanecer em silêncio a ameaça de Kaine foi o bastante pra calá-la. Al baixou a cabeça, não conteve as lágrimas, não agüentava ver a mulher de sua vida tão humilhada. A mulher com quem sonhava e queria apenas um dia chamar pra sair. Não podia vê-la ser ofendida daquela forma, na frente do mundo inteiro sem nada que pudesse fazer.
_Que bom que entendeu Lucy, agora, se sente aqui no meu colo. _A voz de Kaine foi calma e poderosa. Apavorada Lucy tentou se esquivar da situação.
_ O quê?_ suplicou.
_Mandei sentar seu rabo gordo aqui no meu colo. Agora. _ele deu dois tapas leves na própria coxa com um olhar maldoso e sério. _Ou posso ir até aí e obrigar você, aí vou te machucar de verdade. Claro, se preferir posso começar a matar gente daqui do seu trampo... E então gostosinha, vem com o papai vem... Sua vadiazinha levada...
Ele debochava sem piedade ou respeito algum, Lucy não tinha escolha.
Não.
Ela se levantou e caminhou lentamente até Kaine. Cabeça baixa. Evitando encarar qualquer um. A vergonha a estava consumindo. Quanta humilhação pode suportar uma pessoa antes de desmoronar? Não muita na verdade.
Al observou cada passo como a visão embaçada pelas lágrimas. Seu nariz escorria e sua testa gotejava suor em gotas pesadas e salgadas. Seu corpo tremia, ele não podia conter. Então Lucy se sentou no colo de Kaine. Ela sentou-se lentamente como se quisesse adiar o momento final da humilhação. Kaine se moveu para que o corpo dela ficasse confortavelmente repousado sobre suas pernas. Ele sorria como se fosse babar a qualquer momento.
_Ora, vejam só... Que macio...
Agarrou a cintura de Lucy com umas das mãos e apertou a coxa direita dela com a outra. Deu uma lambida úmida no pescoço da pobre garota e emitiu um som que parecia o grunhido de um animal. Lucy Lantys chorou sem controle algum.
_Isso mesmo minha putinha adorável. Está gostando de ficar no colinho do papai?
Al olhou para baixo, ele viu o presente de Lucy em suas mãos e a dor só aumentou. Ele afastou o presente até poder observar o velho all star, a fonte de sua força em horas difíceis. Os tênis que comprara com seu suor, que o faziam lembrar que ele era um guerreiro, um sujeito honesto e de valor, dotado de honra e orgulho, mas isso já não era verdade. Seus all stars estavam tão velhos, esfarrapados e sujos quanto a sua própria honra.
_Quer mesmo saber por que faço essas coisas? Eu posso! É simples assim! E se você pudesse também faria! Se tivesse o poder, esta ouvindo vagabunda? Se tivesse o poder que eu tenho, você também faria! Qualquer um faria. Cada filho da puta sentado na frente da televisão achando que é mais justo ou nobre que eu, todos eles fariam exatamente a mesma coisa se pudessem! Então não venham me julgar seus cretinos, fedorentos filhos de uma vaca prostituta!Eu posso! Eu vou!
Al abriu o presente.
Dentro da caixa, algo iluminou seu rosto. Um lampejo de esperança na escuridão profunda que Joseph Kaine lançou sobre o “Dayli Sky”. Um último gole do doce vinho chamado dignidade. Al viu um lindo e novo par de All Stars, preto e branco, exatamente como os velhos e surrados que vestiam seus pés, mas tão bonito quanto o seu no dia que comprou, ele retirou seu presente e simplesmente correu para longe. Afinal, ele precisava se preparar para a luta.
_Agora, por que nós não damos aos seus telespectadores aquilo que eles querem ver... _Kaine começou a deslizar suas mãos pesadas por todo o corpo de Lucy. Ela tentou lutar inutilmente, mas não conseguia se livrar daquela besta asquerosa.
Num súbito e inesperado momento, as luzes de todo o estúdio se apagaram. Kaine ficou imediatamente confuso. Enquanto ele entoava palavrões e ofensas, alguém tirou Lucy de seu colo e correu com a garota para longe do assassino, agora cego pela escuridão. Ele ouviu sons de passos ao seu redor e tão logo a luz se apagara ela também voltou a se acender revelando atrás de Kaine uma figura excêntrica e altiva.
O homem que agora estava de pé sobre uma mesa do cenário do programa usava uma mascara negra que escondia todo o rosto, deixando apenas os olhos e o cabelo à mostra. O cabelo preto desgrenhado caia sobre a testa. Seu olhar era decidido e forte.
Apesar do corpo magro, sua postura era a de um guerreiro. Um herói. Seu peito estufado revelava bem no centro da camisa de mangas curtas negra, um círculo com uma estrela cinza dentro. Usava calças jeans e um lustroso e exuberante par de All Stars.
Na mão direita ele carregava um pedestal de dois metros de altura que tinha na parte inferior um pequeno tripé para ficar no chão e na superior um grande refletor. O refletor ligado fora apontado para os olhos de Kaine que ficou ainda mais desnorteado, saindo da escuridão para ser alvejado por uma luz forte e ardente. O refletor tinha um fio que ligava a uma extensão para mantê-lo ligado. O herói mascarado saltou como um animal dando um urro de guerra. Ele acertou o refletor em cheio bem no meio do rosto de Kaine. A luz se espatifou explodindo em centenas de faíscas brilhantes. Kaine deu um grito de dor e caiu no chão segurando o rosto. Dois dentes e chumaço de sangue foram arrancados e lançados ao ar pelo golpe. Lucy, escondida, assistiu a cada momento do espetáculo e pôde ver o impossível, Joseph Kaine foi ferido! Bem ali em rede internacional! O mundo viu o monstro ser ferido!
_Escute aqui Kaine... Seus dias de terror acabaram! Eu estou aqui para fazer justiça. _disse o mascarado de tênis.
_Quem você pensa que é pra falar assim com Joseph Kaine, seu babaca?!_vociferou o gigante furioso.
_Eu sou... All Star.
_O quê?!
_ALL STAR! EU SOU TODAS AS ESTRELAS!
_Só se for estrela cadente por que vou te jogar do alto desse prédio seu viadinho, chupa rola de merda!_ os braços de Kaine se ergueram como verdadeiros colossos, suas veias pulsavam, seus músculos latejavam, e uma nuvem vermelha de raiva pungente incendiou sua mente. Ele sentia a dor dos dentes e nariz quebrados e o gosto de sangue que ele tanto odiava dentro da boca dolorida. O monstro atacou. Correu e saltou sobre All Star a fim de golpear com os punhos fechados, mas All Star era magro e extremamente ágil. Ele se esquivou do golpe rolando como quem desvia de balas e Kaine acabou por cair de rosto no chão.

Ele sangrou muito eu peguei o sangue e passei no meu hambúrguer e mandei ele comer pra ver se gosto de sangue em hambúrguer era bom! Mas o filho da puta tava sem língua! Não ia sentir gosto de porra nenhuma! Então fiz a mulher a as duas garotinhas dele comerem e elas concordaram comigo.

_Eu tenho algo para você Kaine... Um recado de milhões de mortos, feridos, estuprados, vilipendiados e massacrados... “ISSO É JUSTIÇA SEU ESCROTO DE MERDA!” _ Kaine fora atingido por um golpe nas costas, All Star atingiu-o com uma cadeira de madeira que se quebrara assim que se chocou com o corpo da fera. Kaine não podia acreditar, estava sentindo dor, o maldito era capaz de ferí-lo.
_EU MATO VOCÊ!
Um gesto rápido e violento. Kaine consegue agarrar All Star. Os dois caem sobre câmeras e se enroscam em fios. Kaine segura o pescoço do herói com força apavorante, ele aperta e aos poucos enforca o rapaz caído. Lucy assistia tudo, ela não se conteve, ela agarrou um vaso que fazia parte do cenário do programa. O vaso continha uma dúzia de rosas vermelhas que Al havia escolhido para ela. A peça de barro explodiu em estilhaços na cabeça do monstro com o golpe. Uma quantidade considerável de água que estava no vaso encharcou a cabeça de Kaine, enquanto as rosas e os cacos do vaso voaram para toda parte. É claro que Kaine ficou raivoso. Com um único golpe de mão aberta ele lançou Lucy ao chão, voltando a enforcar cruelmente All Star. O herói de repente se viu infestado com uma fúria profunda e primitiva diante da crueldade do vilão.
_Também tenho um recado... Das pessoas assistindo Kaine... As que você ainda não feriu...
Ele tentava falar enquanto arrancava um dos cabos elétricos em que eles estavam amarrados.

... Eu ofereci alguns tocados pelo serviço e ela aceitou, parecia faminta, mas isso não a impediu de ser enérgica. Barulhenta. Como eu gosto, acho que ela nunca pensou que algo tão grande pudesse entrar em algo tão pequeno! Ela devia ter só uns... Oito anos...

_DA PRÓXIMA VEZ QUE NOS AMEAÇAR... NÓS IREMOS REAGIR KAINE!
Ele acertou o fio desencapado em cheio, a cabeça de Kaine toda molhada foi um condutor excelente. A descarga elétrica fez o monstro gritar em agonia e dor, All Star não perdera tempo. Tão logo Kaine o soltara, ele já se ergueu e procurou algo pesado. Kaine ainda choramingava num canto tentando se recuperar, o choque fora bem no meio do olho direito do colosso. O mascarado logo encontrou o que procurava. Uma televisão. Era a TV pessoal do diretor, como ele já estava longe, o herói decidiu pegar emprestada. A TV ainda estava ligada, um chiado sem sinal aparecia na tela. Ele ergueu o aparelho e olhou para Joseph Kaine. O monstro observou a TV erguida contra ele com pavor.

Quer mesmo saber por que faço essas coisas? Eu posso! É simples assim! E se você pudesse também faria! Se tivesse o poder, esta ouvindo vagabunda? Se tivesse o poder que eu tenho, você também faria! Qualquer um faria. Cada filho da puta sentado na frente da televisão achando que é mais justo ou nobre que eu. Todos eles fariam exatamente a mesma coisa se pudessem! Então não venham me julgar seus cretinos, fedorentos filhos de uma vaca prostituta!Eu posso! Eu vou!

_E AQUI VAI UM RECADO MEU KAINE! VOCÊ É SÓ UM VALENTÃO! O MAIOR VALENTÃO DA HISTÓRIA, MAS AINDA ASSIM APENAS UM VALENTÃO! _ All Star deixou o aparelho de TV ligado cair em cima do rosto de Joseph Kaine. Lançado contra a face do monstro com toda sua força. Uma explosão de luzes e um som de batida grave seguido de uma explosão de vidro e fogo encerrou a luta, Kaine não se mexia... All Star havia vencido.
Lucy não perdeu tempo, tratou logo de correr até seu herói.
_Al! Você está bem?!_ Lucy sabia, aquela mascara não enganaria nem mesmo um cego em dia de nevoeiro. _Fiquei tão preocupada! Meu deus! Por que não me disse que tinha super poderes?!
_Desculpe Lucy! _ o herói tirava a mascara para revelar que era de fato Alphonse Stivenson._ Você não devia saber meu nome, droga... E quem disse que tenho super poderes?
_Não tem?! Então como fez aquilo?! Al, Kaine era invulnerável, nada era capaz de ferí-lo! Como você fez?!_disse Lucy com divertida revolta.
_E eu vou saber? Esse puto deve ser vulnerável a "all stars" novos... Ou coisa parecida... _Al olhou para o corpo do monstro que jazia ali caído no chão, estendido como um homem comum, de aspirante a divindade a arremedo de homem em um programa. É claro, o programa, teria o mundo visto tudo?
_Hey Al! _Jamie sorriu alegremente acenando de traz de uma câmera.
_Você não tinha fugido, seu Mané?_ disse Al furioso.
_Eu fui cara, mas assisti a transmissão, quando você apareceu, eu tive que voltar e me certificar que tudo seria gravado e mostrado pro mundo, cara você deu uma puta surra naquele escroto de merda! Você é meu herói, All Star!_Jamie não podia conter sua euforia e não era o único.
_É o meu herói também. _disse Lucy momentos antes de dar a Al o beijo mais fulgurante e sublime que ele poderia um dia ter sonhado em conquistar. Depois do beijo ela sorriu simpática e levemente sem graça. _Os tênis novos te fizeram muito bem "All Star".
_Fizeram mesmo... _Al fora interrompido, era o som de batidas estridentes e desorganizadas. Começava com uma salva de palmas ali no estúdio e continuava por cada sala de cada apartamento, de cada prédio, de cada casa, de cada canto da cidade... E então se estendia por cada par de mãos sonoras que cantava um som de alivio, felicidade e esperança em todo o mundo. Um número de batidas semelhante ao número das estrelas, de todas as estrelas.
Naquele mesmo dia Joseph Kaine foi preso num centro de pesquisa de segurança máxima.
...
Dois meses depois o mundo obteve uma resposta sobre o acontecido. Naquele dia Al estava almoçando com sua namorada Lucy num restaurante que deixava as mesas ao ar livre, posicionadas num gramado verdejante e abaixo de copas de magníficas árvores.
_Alphonse Stivenson, eu amo você. _ Lucy sorria com um olhar tão apaixonado quanto possível.
_Também amo você Lucy Lantys, mas me chama de "Al", tá bem?_ disse sussurrando com uma mão na frente do próprio rosto como se evitasse os olhares de outras mesas.
_Posso chamá-lo de "All Star"?_ela falou em tom melodioso, provocante.
_Mais tarde, quando chegarmos em casa... _disse em baixa voz enquanto se levantava e sobre a mesa lhe dava um beijo demorado, o beijo foi interrompido por Jamie que chegara correndo.
_AL!AL!_gritava sem medir o tom de voz, AL se assustou um pouco e voltou a se sentar, envergonhado com o amigo barulhento.
_Oi Jamie.
_AL você não vai acreditar... _ele viu Lucy e percebendo ter esquecido das boas maneiras, corrige sua gafe. _ Oi Lucy! Tudo bem? Nossa você está ótima!
_Oi Jamie, obrigada, você também parece bem, está animado?
_E como! Al saiu o resultado da pesquisa do Joseph Kaine, descobriram como você fez aquilo!
_Então fala Jamie! Não tem nada de errado comigo, tem? _Al estava assustado.
_Não cara! Com você não! Mas com Joseph Kaine, sim!
_O que quer dizer?
_Disseram que os poderes dele sumiram, parece que era um efeito temporário. Já deviam ter sumido bem antes da entrevista naquele dia, mas ele não tinha percebido, por isso achou que não precisava temer nada nem ninguém... E como todo mundo pensava o mesmo, ninguém tentava! Mas você tentou cara! E deu uma surra no verme! Em rede internacional! Não tinha como ser melhor velho, não tinha como!
_É cara... Acho que não tinha como ser melhor...
_Mas Al... Se você não tem nem nunca teve super poderes, que te deu pra encarar aquele cara? Era suicídio, você só deu sorte...
_Adoro essa estória. _disse Lucy baixinho. Al olhou Jamie com seriedade.
_Vou te dizer uma coisa Jamie, Joseph Kaine estava certo.
_O quê?!
_Ele disse que qualquer um no lugar dele faria exatamente o que ele fez... E ele tinha razão. Mesmo os melhores de nós, os mais bondosos e justos, honestos e conscientes, todos nós faríamos o que Kaine fez, afinal, ele fez simplesmente “o que ele quis”.
_AL... Como assim?
_Talvez não matasse ninguém, talvez nem machucasse ninguém... Mas todos nós com o tempo íamos acabar fazendo o que quiséssemos. Sem medo de punições ou repreensões. Todos íamos nos tornar egoístas que pensam apenas em nós mesmos, ainda bem que não existem outros como Kaine...
Al parou por um momento como se suas palavras o ferissem, tomou fôlego e continuou.
_ Nós achamos que somos muito bons. Estamos sempre idealizando nossas qualidades e pensando que somos pessoas boas. Nós não percebemos que às vezes podemos ser preconceituosos, mesquinhos, melancólicos, vis ou até mesmo se permite o termo clichê, porém exato, maus.
Al esfregou os olhos com os dedos como se eles ardessem num cansaço sonolento evitado.
_ Se pudéssemos fazer o que quiséssemos, cada um destes perigosos detalhes de nossas personalidades seria acentuado de tal forma que nos tornaríamos monstros como Joseph Kaine.
_E por que decidiu enfrentar ele daquele jeito? _Jamie parecia confuso.
_Apesar de saber que o Kaine estava certo, eu não podia aceitar aquilo como a verdade absoluta, nada é tão simples assim, nada é tão preto no branco... Ou branco no preto em contrapartida... Eu tinha que mostrar que tinha o outro lado, que podia existir alguém como Kaine e não fosse... Um animal como ele, além disso, eu tinha que devolver esperança pro mundo Jamie, viver de cabeça baixa é horrível.
_O que quer dizer Al?_ Jamie prestava atenção como um aluno obediente e estudioso.
_Eu não queria que o mundo pensasse que não havia nada a ser feito. Sabe Jamie, eu sempre gostei de histórias em quadrinhos. Nelas, existem heróis e vilões, e às vezes heróis se tornam vilões e vilões se tornam heróis. Kaine era um super vilão perfeito para uma história em quadrinhos. Precisávamos de um herói, a fantasia que vesti era um símbolo, algo em que acreditar. Ninguém daria a mínima para Alphonse Stivenson tentando vencer o monstro, mas o "All Star" era misterioso, poderia ter super poderes, poderia ter uma chance, mesmo que fosse por poucos segundos, o mundo ia ter uma esperança.
_Mas se o Kaine ainda estivesse com os poderes ele teria te matado e a esperança acabado. _disse Jamie explicativo.
_Sim, mas eles iam se lembrar de como é bom sentir esperança, iam querer sentir de novo, e pra isso iam ter que levantar a cabeça e ter a dignidade de não se curvar nunca mais pro Kaine ou qualquer outro maníaco super poderoso que possa vir a aparecer... Super vilões sempre apareceram em nossa história cara, e nós sempre os derrotamos. Hitler, Gengis Khan, Vlad Tepes, ditadores ou terroristas, assassinos e ladrões, figuras como Kaine aparecem todo dia, às vezes uma se destaca e às vezes não, mas nós sempre enfrentamos todos. Só por que Kaine era mais difícil de derrotar não quer dizer que não podíamos tentar, queria lembrar o mundo disso. São todos, um bando de valentões. Quando você os encara nos olhos e decidi lutar, eles se acovardam, apanham ou perdem o respeito próprio que só vem do medo, se não tivermos medo... Não há nada a temer.
_Entendo, mas Al... Não era sua responsabilidade. Podia ter deixado pra lá, como todo mundo. Por que você?
_por que não?
Jamie ficou obstupefato, não disse nada por minutos, na verdade todos ficaram em silêncio. Logo era noite e todos permaneceram ali a tarde toda. O clima aos poucos voltou ao normal, mas Al havia tocado a consciência deles, e ele nem havia se dado conta do bem que fizera a toda a humanidade.
À noite eles se deitaram na grama e observaram as estrelas no céu, e se lembraram do dia em que "All Star" salvou o mundo. Lembraram da cacofônica salva de palmas uníssona que quebrou o terrível silêncio da humanidade naquela noite, uma batida para cada estrela no céu.
_Todas as estrelas. _ disse Jamie com o tom de quem se enche de coragem.
_Todas as estrelas. _repetiu Lucy com o coração cheio de ternura.
_Todas... As estrelas... _ sussurrou Al esperançoso.

“O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade.” _Albert Einstein.


FIM

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