BASEMENT CRAWLER’S II
“Quando agir em equipe, o mais importante é não ter medo de deixar pontos fracos.” _Marcelo Cassaro, PALADINO.
_Louvados sejam vocês, senhor Dorian, senhor Kontrek e senhorita Blair. Salvaram minha cidade dos malditos orc’s de Skadratch. Sei que são mais do que capacitados para afugentar o dragão que ameaça meu povo.
O prefeito Dincows era um homem baixo e gordo, tinha bigodes tão grisalhos quanto os cabelos. Sua imagem era de grande simpatia.
_Não se preocupe com isso senhor prefeito. É o que heróis fazem, salvam os necessitados. _Dorian colocou as mãos nos ombros de Kontrek e Elly que estavam ao seu lado e sorriu._ Agora... Fale-me deste dragão...
_A criatura diz se chamar Érebo Evergleit... É um grande dragão...
_De que cor?
_Como? De que cor, senhor Blake?
_Sim, qual é a cor da couraça do monstro? Vermelho, verde, azul...
_Negro senhor.
_Um dragão negro... Estranho... Eles vivem em pântanos e cavernas...
_Bem senhor Blake... Esta cidade foi construída num aterro. Nossos antepassados soterraram um pântano e ergueram a vila de "Flor de ida" neste aterro.
_Então parece óbvio que vocês invadiram o que o dragão considerava seu território, ele quer que vocês partam daqui...
_Mas nós não podemos...
_E não vão. Eu e meus companheiros vamos afugentar a fera para vocês.
_Oh senhor Blake! Que os deuses lhe paguem!
_Na verdade meu caro senhor prefeito Dincows, Eu tenho uma política de pagamento que me proibi de aceitar dinheiro divino, imaginário, falso e insuficiente. Como o seu se adéqua a primeira e segunda questão...
_Mas senhor Blake... Não cobrou nada por afugentar os orc's... _ O velho prefeito ficou inquieto, começou a perder a voz enquanto falava. Dorian, no entanto, continuava a se expressar brilhantemente.
_Os orc's foram cortesia. Mas um dragão não é um orc... Dragões são muito mais letais, terei que cobrar.
_Mas nós não temos dinheiro...
_Mas se bem me lembro... Os senhores haviam arrecadado quinhentas moedas de ouro para pagar Skadratch. Bem, graças a nós, ele não virá pegar tal pagamento. Pois bem, eu aceito o preço de quinhentas peças de ouro.
A população logo se aborreceu, indignados todos começaram a expressar rancor. Resmungos vinham de todos os lados. O próprio prefeito Dincows se enfureceu.
_Heróis... Vocês não são heróis... Não passam de um bando de mercenários mesquinhos e egoístas!
_Somo heróis. _Disse Kontrek se aproximando._E heróis também precisam comer, baixinho!
_Acalme-se Kontrek... _Disse Elly tocando o ombro do bárbaro, ela voltou-se então para Dincows. _Se vocês não querem nossos serviços... Tudo bem. Espero que sejam ótimos matadores de dragões. _Dito isso ela saiu a caminhar, Kontrek a acompanhou e Dorian abriu um provocante sorriso antes de se despedir e segui-los também. Sem saída o prefeito aceitou a proposta, quinhentas moedas de ouro pela morte do dragão negro. Na semana seguinte o trio de heróis começou a se preparar para a luta contra Érebo Evegleit, o terrível dragão negro.
...
Dorian Blake tinha estranhas idéias que não explicava para ninguém, a primeira delas fora a construção de uma estranha engenhoca mecânica. Ele reuniu todos os ferreiros da vila e deu explicações detalhadas de como deveria ser sua máquina, que a esta altura era um emaranhado de metal retorcido com amarras e correntes, com grandes peças de madeira rústicas e assustadoras.
_Não se preocupem rapazes, ouve uma época de minha vida em que fui um ferreiro e outra em que fui um grande engenhoqueiro... Sei o que estou fazendo...
_Senhor Blake, será que não poderia explicar o objetivo de sua máquina? O que estamos construindo? _Perguntou um dos ferreiros.
_Não será necessário saberem de nada que já não sabem, senhores. Lembrem-se apenas de ter em mente uma catapulta.
_Mas senhor Blake... Apesar de ser de fato uma catapulta... Segundo suas instruções, ela não será capaz de arremessar nada muito pesado, nem rochas, nem bolas com piche em chamas... Eu não entendo para quê ela vai servir desta forma...
_Se ela não vai arremessar nada pesado... Bem, então colocarei algo leve. O importante é que desta forma ela poderá lançar um projétil mais longe e mais rápido.
_Mas de quê vai adiantar isso se só vai poder jogar um barril de cerveja?
Os trabalhadores riram da piada. Dorian pareceu se aborrecer, mas apenas sorriu.
_Senhores, meu intelecto é superior ao de cada um de vocês somado ao intelecto do próprio dragão que combatemos. E acreditem. Ele é brilhante! Portanto tenham um pouco mais de fé em mim... Além disso, Um barril de cerveja não é a única coisa existente com sessenta quilos... Agora trabalhem...
_Sim, senhor Blake.
_A propósito, houve também uma época de minha vida em que fui um matador de dragões profissional.
...
Enquanto isso a senhorita Elly Blair estava lendo arduamente um livro. Sentada confortavelmente com as pernas cruzadas num baixo muro que circundava o cemitério da cidade. Joan se aproximou com um alegre sorriso estampado no rosto, mas parou de sorrir quando percebeu que o livro era dotado de uma estrela escura, conhecido símbolo de magia negra.
_Desculpe senhorita Blair... Eu estou incomodando?
_Não, estou apenas fazendo minha parte no plano de Dorian.
_Ler um livro?
_Aprender um novo feitiço.
_Oh sim... E que feitiço é?
_Nada demais, aliás, já terminei. _Elly fechou o livro batendo os dois lados do mesmo num baque._Você quer falar comigo?
_Oh sim... É que desde a derrota de Skadratch e seu bando eu quero comentar com alguém sobre...
_Sobre a noite alucinante que teve com Dorian Blake?
_Como sabe disso? Ele lhe contou?
_Não, todos ouvimos seus gritos naquela noite... Cheguei a pensar que Dorian estava matando você com alguma arma branca de metal...
_Bem... De certo modo...
_Já chega! Não quero saber! _Elly saltou do muro e saiu a caminhar em passos rápidos, mas Joan a seguiu.
_Desculpe senhorita Blair, não quis ofender ou provocá-la...
_Me provocar? Pela ultima vez menina, eu odeio Dorian Blake, apenas trabalho com ele, só isso!
_Se o odeia... Por que não acha outro grupo para seguir viajem.
_Digamos que não se deve mexer em time que esta ganhando. E o nosso é perfeito. O especialista em tudo, a maga arcana e o guerreiro atroz.
_Entendo...
_Sabe, vou ajudar você... Vou usar meu novo feitiço em Dorian, com certeza ele vai mudar drasticamente para melhor._Disse com um sorriso maligno enquanto caminhava para longe.
...
Kontrek estava retirando água do poço quando duas pequenas garotinhas vieram correndo até ele. As duas pequeninas colocaram os braços sobre o poço e fitaram Kontrek sorridentes.
_Olá senhor Kontrek!
_Olá. Vieram pegar água? _O bárbaro retirou o balde preso por uma corda ao poço, estava cheio de água e ele a depositou toda ela em outro balde que estava no chão.
_Não senhor, nós queremos perguntar algo ao senhor. Por que o senhor não está ajudando na preparação para pegar o dragão?
_Por que meu papel não vai ser construir bugigangas ou ler livros. Meu papel é meter a mão na fuça do monstro.
_Meu pai diz que nenhum homem pode bater num dragão.
_Seu pai nunca apanhou de mim.
As garotinhas ficaram apavoradas, abriram suas bocas como se tivessem ouvido uma palavra feia que não podem repetir. Elas se olharam e riram baixo, Kontrek não pode deixar de sorrir com a graciosidade das duas mocinhas.
_Senhor Kontrek, o senhor acha mesmo que pode vencer o dragão?
_Posso vencer qualquer coisa em que eu toque.
_Oh! _Disseram as duas sorrindo impressionadas.
_Já ouviram falar no vale das mantícoras sem asas?
_Sim!
_Quem vocês acham que arrancou todas aquelas asas? Odeio feras aladas, não posso tocar no que pode voar...
_Mas senhor Kontrek... Dragões têm asas, não é mesmo?
_SAIAM DAQUI SUAS FEDELHAS REMELENTAS!
As garotinhas apavoradas com o urro de Kontrek saíram correndo e gritando, atravessaram a cidade em berros e só pararam quando estavam em casa, em seus quartos e debaixo de suas camas.
...
Uma semana depois, todos os preparativos estavam prontos. Um mensageiro foi enviado para avisar ao dragão que um grupo de aventureiros heróicos estava o desafiando. Idéia de Dorian Blake. O mensageiro nunca voltou, mas o recado fora dado.
Naquela noite quente e até então silenciosa, as cornetas de segurança da cidade foram ouvidas. Apesar de ser noite, o que dificultava a visão. Os guardas da vila haviam avistado uma grande fera voadora vindo no horizonte. Em pouquíssimo tempo Doriam havia posicionado sua catapulta, mas ainda insistia em manter segredo sobre o que lançaria no dragão. Ele ficou olhando o céu e ao seu lado surgiu Elly. Ela colocou as mãos na cintura e fitou o dragão vindo ao longe. Dorian e Elly quase nunca conversavam olhando um para o outro. Eles permaneceram observando a aproximação do inimigo enquanto falavam.
_Você tem certeza que isso vai funcionar Dorian?
_Certeza é para covardes, minha querida. Eu tenho confiança em nossas habilidades.
_Se morrermos hoje, eu quero que saiba que fui eu quem lançou aquele feitiço que fez você ter uma crise de flatulência na frente das sacerdotisas do deus da ressurreição.
_Está me contando isso para desencargo de consciência?
_Não... Apenas para minha sádica diversão.
_Vou matá-la.
_Também te amo querido.
_Bruxa!
_Impostor.
_Calada!
Kontrek bocejou sonolento. Vinha caminhando devagar. Colocou o machado no ombro e ficou ao lado dos companheiros de combate. Olhou para o dragão chegando e sorriu.
_Finalmente... _Disse satisfeito.
_Pronto para o combate Kontrek? _Perguntou a bruxa sorridente.
_Em dez ou vinte minutos estaremos comendo a carne e vestindo o couro deste dragão negro. _Respondeu, novamente bocejando.
_ “Dez ou vinte minutos" meus amigos... _Repetiu Dorian. _ Depende de quanto tempo a fera vai demorar para chegar aqui..._Completou triunfante.
O dragão negro. O mais assustador de todos os dragões existentes. Patas gigantescas munidas de garras rachadas como muralhas antigas. Cauda longa como uma rua, serrilhada por espigões afiados que começam no pescoço. Asas de couro negro que batem medonhamente devagar, mas poderosamente o movendo para onde quer em velocidade espantosa. Olhos vermelhos, chifres pontudos e dentes escuros de onde secreções fumegantes despejam. O monstro chegou num vôo calmo e pousou calmamente nas ruas de Flor de Ida. Ao tocar o chão com as quatro patas, cujas dianteiras se assemelhavam a mãos, provocou um estrondo. Ao fitar a cidade com o olhar rubro e ardente, provocou o medo. Ao abrir a boca proferiu as mais assustadoras palavras que as testemunhas haviam ouvido.
_Primeiro findarei os guerreiros. Mulheres, crianças e velhos matarei devagar...
_Infelizmente nós não poderemos permitir isso, meu caro. _Disse Dorian com confiança.
_Então os três pequeninos diante de mim... São os bravos aventureiros que pretendem tirar minha vida. Eu já me esqueci da ultima vez que tive medo de alguma coisa... Mas bem me lembro... Foi de meu pai... E hoje meu pai está morto... EU o matei.
_Que encantadora estória familiar, agora se permite apresentar... _Dorian arranhou a garganta até conseguir o tom altivo que buscava. _Eu sou Dorian Oswald Blake, Esta é Elly Blair e meu amigo com machado é Kontrek, o bárbaro.
_Chega de tanta falação Dorian! Não precisa mais disso! _Rosnou Kontrek. _Esta é a MINHA parte do trabalho. Vocês dois podem olhar de longe.
_Esta criatura patética ousa me desafiar sozinho? Este ser diminuto e insignificante? Parece-me que nem todos são dotados da sensatez dos covardes... Pois bem bárbaro, dar-te-ei uma chance de provar tua força._ A fera aproximou a cabeçorra gigante do chão e fitou Kontrek. _Golpeie com seu machado e contemple minha couraça quebrar sua lâmina, depois disso eu permitirei que tente fugir de seu destino certo. Vamos, creia em mim bárbaro, presenteie este dragão com seu mais audacioso e poderoso golpe.
Kontrek nada disse, apenas partiu numa investida rápida e furiosa. Ergueu o machado alto e saltou sobre a face da fera com toda voracidade que um guerreiro consegue ter.
_Você não tem couraça nos olhos! Seu animal estúpido! _Disse Kontrek enterrando a lâmina do machado no olho esquerdo de Érebo. O dragão negro urrou de dor e ergueu rapidamente a cabeça. Kontrek chegou a ser erguido do chão, mas a lâmina se soltou do olho cego e Kontrek caiu de volta ao solo, rindo como um louco, num frenesi radiante.
_VOU ARRANCAR SEU CORAÇÃO POR ISSO, BÁRBARO!_Vociferou Érebo irado.
_Terá que ser mais durão que isso se quiser um pedaço de mim seu lagarto infeliz!
O dragão golpeou Kontrek com a pata imensa, mas só atingiu o chão. A fúria do monstro acabou por dispersar os trabalhadores da catapulta, Dorian pareceu furioso, mas nada disse. Elly por sua vez sussurrou algo para si mesma e simplesmente desapareceu nas sombras.
_FIQUE PARADO BÁRBARO! É MINHA VEZ DE GOLPEÁ-LO!
_Pena que não sou tão burro quanto você!_O bárbaro agora correra para debaixo do monstro e ali, onde podia ver a barriga da fera como se olhasse para o telhado de uma casa, ele golpeou. Girou o machado várias vezes no eixo do próprio corpo, movimento que quase o derrubou, mas terminou com um grotesco corte na parte inferior da criatura. O dragão se ergueu e virou-se. Este movimento de giro fez a cauda poderosa atingir Kontrek em cheio. Para a surpresa de Érebo, o golpe terminou com o bárbaro segurando firme sua cauda. Suspenso no ar Kontrek novamente enterrou o machado na couraça. Érebo tratou logo de sacudir a cauda e lançar o homem para longe.
_Você... Você não é um homem comum... Sua força se iguala a minha...
_Não diga besteiras dragão! Minha força é muito superior a sua! _Kontrek grunhiu como um animal e partiu para uma nova investida. O dragão rosnou furioso e enquanto o inimigo vinha correndo, se aproximando rapidamente, encheu seus pulmões de ar. Ele abriu a boca que estava flamejando, não com fogo, mas com um gás verde musgo ardente e ácido.
_Isso é sopro de dragão? Odeio isso! Vou fazê-lo engolir! _Golpeou a mandíbula de Érebo com a empunhadura do machado. As duas mãos juntas e firmes. Érebo mal conseguiu completar o sopro de ácido. Foi jogado para trás como se recebesse o golpe de outra fera de igual tamanho... Ou força.
_Bah! Vou esfolar você monstro! Farei um belo escudo de escamas negras!
O dragão fitou o bárbaro furioso. Levantou-se e saltou, batendo firme, as asas de couro negro. Ele alçou vôo ao céu. Logo estava acima das casas e de cima olhou furioso o bárbaro que observava do meio da rua.
_Covarde! Fique e lute! Odeio feras aladas!
Mais uma vez o dragão encheu os pulmões, tomou fôlego e sua boca começou a fumegar. Logo estava esfumaçando, um gás verde e espesso. Mas este tinha um brilho diferente do último. Parecia mais ardiloso e terrível.
_Fer- Raria Verianne-Mnet Venr-Rarr! _A criatura proferiu aquelas hediondas e incompreensíveis palavras, um terrível feitiço. Tão pungente e destrutivo como qualquer mago poderoso poderia conjurar. E todos sabem, dragões são todos, poderosíssimos feiticeiros.
Uma rajada de veneno gasoso fora disparado contra Kontrek, o bárbaro foi atingido em cheio, e ouviu-se um som de grandes lâminas rasgando sua carne. Quando a nuvem se dispersou, Kontrek estava de joelhos. Apoiado no machado e com dezenas de longos e afiados ferrões venenosos cravado por todo o corpo. Estes ferrões se estendiam também por todo chão, um canteiro de espigões negros, circundado por uma rasteira névoa verde que ardia e corroia até mesmo o metal do machado. Kontrek caiu por terra. O rosto na poeira e na névoa corrosiva, as costas com as pontas dos espigões que atingiram seu peito e trespassaram seu corpo.
_KONTREK!_Gritou Dorian Blake que finalmente conseguira ativar sua catapulta.
Dorian disparou contra o dragão nada menos que o próprio corpo. O especialista em vôo livre acertou bem no rosto do dragão. Ele agarrou no focinho da besta, mas Érebo fez um movimento rápido e o abocanhou inteiro, dentro da boca do dragão Dorian sorriu. Ele retirou de seu bolso uma seringa com um líquido transparente e cravou a agulha na língua de Érebo. Ao sentir a picada levemente incômoda, o dragão moveu a cabeça e cuspiu Dorian de volta ao chão. Blake quase atingiu o solo em queda livre, Mas duas massas de escuridão se tornaram duas grandes mãos negras e femininas, seguraram Dorian salvando sua vida. Ao ser colocado no chão, pôde ver a bruxa surgir diante de seus olhos.
_Elly... Parece que lhe devo um favor...
_E eu irei cobrá-lo Dorian... Tenha certeza. _Disse a bruxa trocando sorrisos com ele.
Érebo pousou ao chão, pareceu tentar dizer algo, mas sua voz estava estranha. A mandíbula estava aberta e a língua estava pendendo como se não tivesse mais vida. O dragão ao perceber o que Dorian lhe fizera pareceu furioso. Blake por outro lado permaneceu calmo e disse com voz firme.
_Uma vez que você não pode mais me perguntar, eu me sinto no direito e dever de lhe informar Érebo. Eu arquitetei uma estratégia precisa e bem elaborada para derrotá-lo. Primeiro eu desenvolvi este forte anestésico concentrado. Esta dose paralisaria até mesmo um elefante, num homem seria letal. Em você meu colossal amigo, apenas retarda os movimentos de uma pequena parte corpo. Claro que a agulha não pode trespassar sua couraça, mas sua língua é bem macia e vulnerável. _ Caminhando até o monstro sem demonstrar medo, Dorian parecia irritado, porém mantinha a calma.
_Primeira questão, como atingir a língua. Segunda questão, para quê atingir a língua. Respondendo a primeira, eu criei uma catapulta com pouca capacidade de peso, mas com maior força de arremesso e dando maior velocidade ao projétil, no caso, "eu", que sou leve o bastante. Segunda questão. Qual é a utilidade de imobilizar sua língua? Bem, deve ter notado que não pode falar. Portanto não pode conjurar magias e feitiços. Correto? Pois bem, isso me dá a vitória.
_Mas Dorian, ele ainda é muuuito poderoso! No que nos adianta só lhe tirar a magia? _Elly falava em tom sarcástico. Ela já sabia do plano, era apenas parte do show.
_Bem, Elly querida, uma vez que ele não pode conjurar palavras mágicas... Ele não só esta impedido de lançar uma magia, como de lançar uma contra-magia... Portanto não pode cancelar um efeito mágico que for lançado contra ele... E é aí que VOCÊ entra!
_Eu? Mas por quê?! _Elly sorriu malignamente para Érebo que ouvia as minúsculas criaturas debocharem dele. Mas apesar de estar enfrentando inimigos tão pequenos, ele estava tomado de pavor.
_Lembra-se que pedi que aprendesse um feitiço?
_Sim Dorian, eu aprendi. _Ela ergueu as mãos e vociferou as palavras mágicas, recitando o encantamento com uma expressão sádica e cruel. _DRAKORA TRANOMORFIO ETNIO IEN OTREOO KRA!
O pungente raio negro atingiu Érebo Evergleit em cheio. Uma explosão escura e gelada que não destruía nem consumia nada. Apenas transformava. A fera gigantesca começou a sentir os ossos se deslocarem, como se quebrassem para se compactar. Seus músculos se contraíram grotescamente. Ele pôde crer que seu fim chegara, estava implodindo e a dor era excruciante. Mas assim que a nuvem negra desapareceu, Ele pôde ver que estava vivo, mas agora não possuía asas, cauda ou escamas. Ele mal podia acreditar, mas era verdade, Elly Blair o havia transformado em um homem.
_Eu transformei você num ser humano, Érebo Evergleit. E sem sua língua, ou seja, sem sua magia, não poderá desfazer o feitiço. _Disse Elly extremamente feliz e maldosa.
_Meu objetivo desde o principio era transformá-lo em um homem._Disse Dorian explicativo. Elly em seguida fez questão de falar sobre seu feitiço.
_Na verdade a transformação é apenas em nível aparente... Você ainda possui sua força estrondosa e seu hálito venenoso, apenas não poderá morder com suas presas e golpear com suas garras e sua cauda... E...
_O mais importante Evergleit... _Sussurrou Dorian._ É que você não tem asas, portanto, não pode voar. Assim terá que lutar com Kontrek de igual pra igual, em terra firme. Oh sim, Kontrek está muito ferido, não é Elly?
_Felizmente eu já lancei uma cura mágica para que Kontrek pudesse enfrentar seu oponente, em completo e total desempenho e capacidade.
Ao olhar para trás, Érebo Evergleit pôde ver Kontrek, o bárbaro. Parado, de pé, com furos na armadura, mas sem nenhum dos ferimentos no corpo. Kontrek jogou o machado no chão, a arma bateu pesada no solo com um estrondo metálico. O bárbaro juntou ambas as mãos e apertou as num forte e alto estalar de dedos. Fitou o monstro agora reduzido a um homem magro de cabelos negros longos. O que ocorreu a seguir foi o que toda vila Flor de Ida passou a chamar de "o massacre de Evergleit". Kontrek nunca mais conseguiria tirar as manchas de sangue do dragão negro da armadura, Mas a fera fora poupada. Enquanto estava balbuciando sem poder utilizar sua língua, gemendo pelas dores que Kontrek lhe deixara. Érebo teve seu último e maior castigo.
_Ouça Érebo. _Disse Dorian em voz baixa enquanto Elly e Kontrek observavam. Elly sorrindo, Kontrek fazendo cara feia para o monstro. _Você não precisa morrer, basta que jure por sua palavra de honra. Jure que hoje e para sempre você será nosso escravo. Atenderá nosso chamado e intercederá por nós a qualquer hora em que precisarmos e ordenarmos. Poderá viver sua vida tranquilamente, mas terá que deixar "Flor de ida" em paz e se prostrar diante de nós três para sempre como nosso servo.
A fera fitou os três com profundo ódio, sua palavra era sua sina. Ele jamais quebraria um juramento. Mesmo um feito sobre ameaça de morte. Ele teria que escolher agora, viver sobre o domínio permanente daqueles que ele mais odiava... Ou morrer.
_Por favor, dragão... _Disse Kontrek cerrando os dentes. _ Escolha a morte.
Érebo Evergleit escolheu viver.
E até hoje os bardos cantam as canções sobre aquele valente grupo de mercenários e suas conquistas. O especialista em tudo, a maga arcana e o guerreiro atroz. Ficaram conhecidos na região e mais tarde em todo mundo como o mais bravo grupo de aventureiros da história. Heróis de verdade. Lendas. E um dia eles ainda ficariam conhecidos como os "Basement Crawler's". Antigas palavras do povo anão que na mais próxima das traduções significam "Aqueles que se embrenham nos porões"...
Por que receberam este nome? Esta é outra estória.
FIM.
terça-feira, 28 de julho de 2009
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