A noite do xerife.
“Eu acredito que tudo que não te mata, te deixa mais estranho.” _Coringa. Batman -The dark knight.
A lenda de Harold Counter.
_O maldito conseguiu me acertar... Acertou o tiro no lugar que ele sabia que me mataria mais devagar... Maldito...
O carro cortava as estradas do deserto escaldante em rítimo acelerado. A estrada se estendia em linha reta até o horizonte. A visibilidade era parcialmente prejudicada pela poeira, que entre certos intervalos de tempo, era soprada pelo vento, cobrindo a área de visão dos jovens aventureiros por períodos de perigosos segundos. Quatro jovens barulhentos quebravam o silêncio da árida paisagem do Texas.
Ha um mês a viagem era apenas uma idéia, finalmente os quatro amigos decidiram que estavam prontos para esta aventura. Billy Nelson, o nerd, ficou encarregado de pegar o carro do pai emprestado, ninguém acreditou quando ele disse que conseguiu. Austin Miles, o rei da popularidade no colégio, garantiu que conseguiria dinheiro para qualquer emergência, ele era quem mais queria fazer esta viagem e nunca disse como arranjou a grana, mas o pai de Austin era rico o bastante para sustentar o filho na faculdade e nas loucuras, era óbvio. Patsy Jones, a mentirosa, conseguiu convencer o pai de Jenny que não haveria garotos na viagem. Jennifer Twaine, a careta, deu o ar de sua graça, para os outros só o fato dela ter decidido ir, já era um favor. Jenny sempre foi “a chata”, a estraga festa, a certinha... Mas eles nunca haviam se separado por muito tempo, os quatro eram amigos desde crianças. Isso significava muito pra eles.
Tinham o dinheiro, o transporte, à vontade e a loucura para passar uma semana longe de casa nos confins de um vasto deserto repleto de paradas em cidadezinhas monótonas. Claro que não era bem este o plano, eles estavam atrás de algo que julgavam ser realmente emocionante e exótico. Procuravam uma das famosas cidades fantasmas texanas...
Texas, a estrela solitária dos estados. Sem duvida uma boa opção para viajantes que buscam hospitalidade. 22 milhões de habitantes gentis e de boa índole, e uma população crescendo rapidamente devido à imigração, o Texas possui mais habitantes do que qualquer outro Estado americano, com exceção da Califórnia. Uma excelente escolha para quem queira viajar para fazer novos amigos, até mesmo a palavra Texas deriva de Tejas, uma palavra indígena que significa "amigos”. Claro que como em qualquer parte do mundo, é preciso ser um bom e respeitoso visitante e ir aos lugares certos... E definitivamente eles estavam procurando o lugar errado.
No rádio uma canção monótona incomodava os passageiros inquietos.
_Oh não! Música country, não! Desligue Billy! _Jennifer Twaine estava sentada no banco do carona, gostava de sentir o vento no rosto quando colocava a cabeça pela janela, além disso, não querida atrapalhar o casal namorando no banco de trás.
_Ora, vamos Jenny! Vamos entrar no clima do interior. _Billy Nelson não conseguia evitar, sempre que olhava para Jenny acabava perdendo o olhar no decote da camisa. Para quem nem sempre tem o hábito de dirigir, isso poderia ser perigoso... Mas ele não podia evitar, sempre havia um botão aberto naquela camisa.
_Perdeu alguma coisa aqui, Billy?
_Oh Não! Desculpe... Eu só…
_Só estava olhando pros meus peitos... Tudo bem. Esqueça… _Jenny ajeitou o chapéu de cowboy do qual seus longos cabelos negros escorriam. Um presente de seu pai. O velho insistia que ela tinha que caracterizar-se... E ele conseguiu. A camisa branca com o jeans, tudo bem. Até mesmo as botas podiam se confundir com a moda atual, mas o chapéu fez tudo parecer parte de uma perfeita fantasia de “cowgirl”.
_Não sei por que esta olhando pra mim Billy. Não com este show erótico aí no banco de traz...
Billy olhou pelo retrovisor e viu Austin e Patsy se enroscando no banco de traz, um tentando ficar em cima do outro, a mão de Austin em baixo da saia dela, aparentemente massageando as nádegas da garota.
_Oh nossa! Vocês querem que paremos num motel para ficarem mais a vontade ou vão fazer aí mesmo?
_Pra mim... Aqui está ótimo... _Disse Patsy olhando nos olhos do namorado da forma mais sensual que conseguia.
_Você ouviu esquisitão, tente não passar sobre pedras e buracos na estrada. Já vai ficar muito turbulento aqui. _Ao dizer isso, o sujeito de cabelos curtos e porte atlético arrancou a calcinha da namorada por baixo da saia e jogou para os bancos da frente. Billy não conseguia evitar, estava quase babando. O rapaz tentou afrouxar a gola da camisa inutilmente. Jenny suspirou e desviou o olhar com desdém, deixou seu rosto recebendo o vento pela janela, aproveitando enquanto não aparecia uma nuvem de poeira.
_Cara... Como isto está molhado... _disse Billy pegando a calcinha que caíra perto dos pedais do veículo. Ao fazer isso precisou abaixar-se e nem mesmo notou que se aproximava perigosamente de alguém que caminhava no encostamento da estrada.
_Billy! Cuidado! _Jenny gritou tão alto quanto pôde.
O carro derrapou e acabou parando fora da estrada. Uma nuvem de poeira encobriu todo o veículo. Dentro do carro Patsy gritava e chorava, Austin tentava calar a moça, mas ela estava em choque.
_Qual é seu problema Billy?! Catando calcinhas em vez de dirigir! Idiota!_Jenny saiu do carro em meio à poeira para encontrar o quase atropelado.
_Hey! Pega leve! Não havia ninguém na estrada por quilômetros!
_Então tudo bem se atropelar alguém agora, não é?!
Jenny ignorou Billy e continuou a procurar o viajante. Logo pode avistá-lo, um homem velho com roupas esfarrapadas e uma grande mochila de viagem nas costas. Ele parecia cansado, mas determinado em avançar em seu caminho. Usava também um chapéu que escondia a expressão exausta e o olhar vago.
_Desculpe senhor... O senhor está bem? _a garota pareceu preocupada.
Austin e os demais desceram do carro e começaram a se aproximar, mas pareciam hesitantes e assustados, especialmente Patsy que ficava atrás de Austin o tempo todo.
_Senhor... Está me ouvindo?
O velho viajante ignorou a menina e continuou caminhando sem se preocupar com o fato de quase ter sido atropelado.
_Senhor... Nós quase o atropelamos...
_Dá um tempo Jenny! Ele nem percebeu! _Gritou Austin irritado.
_Ele é louco... Ou está completamente bêbado... Deixa ele ir e vamos embora, ninguém atropelou ninguém mesmo! _gritou Patsy de traz do namorado.
_Mas podíamos ter atropelado! Temos que fazer alguma coisa! _Jenny voltou para o velho e percebeu que ele havia parado e agora olhava fixamente para ela.
_Vocês estão indo para alguma cidade? Preciso de carona, tem merda em minhas calças.
_Oh não! Nada de caronas! Ouviu o que ele disse! O cara se borrou todo! Nem o conhecemos e está sujo! _disse Patsy.
_Agente nunca conhece caroneiros de estrada Patsy, ninguém conhece, por isso precisam de carona. _Billy cruzou os braços e olhou o velho com um profundo nojo, para não dizer medo. _mas concordo sobre a bosta. Não vou enfiar esse velho cagado no carro do meu pai.
_Senhor... Vamos visitar um ponto turístico, uma cidade fantasma, mas podemos levá-lo a uma cidade antes, se quiser. _disse Jenny com tom cortês.
_Hey Jenny, não faça promessas em nome de todos!
_Vocês estão indo para Deep Hollow? _o velho sussurrou as duas palavras como se apenas a pronúncia pudesse levar as almas de todos para o inferno.
_Isso mesmo senhor! Estamos indo para Deep Hollow. Poderia nos ajudar... Estamos no caminho certo?
_Eu não chamaria de “o caminho certo” dona. Eu acabo de passar por lá e não volto para aqueles lados nem morto, fodido e arrastado... E vocês também não deviam ir... Tem estórias sobre aquelas bandas que fariam vocês todos se mijarem de medo.
_Ótimo. _disse Austin se aproximando. Patsy o acompanhava, agarrada a manga de sua camisa. Billy vinha mais atrás com um olhar desconfiado. _estamos procurando justamente estas estórias. O senhor poderia contar?
_Escute aqui seu saco volumoso e pesado cheio de estrume de vaca... Eu não deveria perder meu tempo com um bando de veadinhos de merda e vadiazinhas de estrada como vocês, mas eu vou contar por dois motivos... O primeiro é por que vocês têm que saber o que tem naquela porra de lugar...
_E o segundo, senhor simpatia? _disse Austin com deboche.
_O segundo eu conto depois. Agora cale essa sua boca imunda e preste bastante atenção verme. Deep Hollow é a próxima cidade que vão encontrar a frente, na placa vão ver um letreiro velho e quebrado que diz “Deep Hollow, 120 habitantes”...
_Mas não é uma cidade fantasma?
_E você já ouviu falar de uma cidade fantasma onde nunca viveu ninguém, seu bosta? Pra ter fantasma, tem que ter tido gente... E em Deep Hollow tinha 120 habitantes...
_Legal. E daí?
_O número de habitantes foi riscado e um 119 foi escrito em cima...
_Sinal de que alguém morreu.
_ Mas não é tudo... Este 119 também foi riscado... O número 120 foi recolocado.
_E por que isso? _perguntou Jenny que parecia começar a se interessar pela estória.
_Depois parece este novo número 120 foi novamente riscado e o número 1 foi posto no lugar...
_Isso quer dizer...
_Quer dizer que um habitante morreu. Depois um novo habitante tomou seu lugar e este... Ele matou todos os outros... Ficando sozinho.
_Legal, um serial killer do Texas! Espero que diga que ele matou todos com uma serra elétrica! _Disse Billy animado.
Austin começou a rir e imitar um maníaco com uma serra elétrica imaginária nas mãos, fazendo o que ele julgava ser o convincente imitar do som de uma moto-serra. _Reeenenenenenenene...
_Tiros seus moleques idiotas. Ele matou todos com tiros.
_Tiros?! Que comum...
_Não havia nada de comum naquela chacina... O homem que morreu em Deep Hollow e o novo habitante que matou todos... são a mesma pessoa. _ele recitou aquelas palavras como se estivesse tentando torturar os quatro jovens.
_A mesma pessoa? Quer dizer que foi um pistoleiro zumbi?! Um cowboy morto-vivo?! Isso é demais! _exclamou Austin.
_”The ghost rider”! Finalmente a estória ficou boa! _Billy agora imitava um pistoleiro usando os dedos como armas, ele e Austin estavam se divertindo, mas Patsy estava apavorada e Jenny estava séria, um olhar acusador para ambos. O velho por usa vez, também parecia extremamente irritado. Um olhar mordaz por traz da sombra do chapéu parecia tentar fulminar os jovens tolos.
_Quem era esse pistoleiro? Qual era o nome dele? _perguntou Austin entre seus risos.
_O nome dele é Counter... Harold Counter...
_Harold Counter. _repetiu Jenny para si mesma.
_Harold Counter saiu do seu tumulo e matou cada homem, mulher, velho e criança daquele lugar. Dizem que ele era odiado por toda cidade e armaram uma cilada para ele. No dia da morte, Harold foi atingido pelas costas com uma espingarda de calibre 12, não teve chance de sobreviver. Ninguém achou que Harold fosse voltar do inferno para se vingar de cada filho da mãe daquela pocilga.
_Quando isso aconteceu?
_Uns vinte anos atrás...
_Apavorante.
_Não moça. Apavorante é o fato de que Harold Counter ainda está lá.
_Como assim?
_ Se vocês vão até lá, precisam saber... Só tem um jeito de matar o monstro de verdade... É com a arma que o mataram da primeira vez... A espingarda de cano duplo que arrebentou as costas dele... Ela é inconfundível, tem um dos canos mais curto que o outro...
_Vamos nos lembrar disso “senhor calças cheias”. _disse Austin antes de rir compulsivamente.
_Hey, qual era seu outro motivo pra nos contar isso? Disse que eram dois motivos... _Billy fez a pergunta sem esboçar sorriso algum. Para ele a graça da brincadeira havia acabado no momento em que ele começou a sentir medo.
_Esqueça...
Depois de dizer isso o velho pareceu voltar a seu estado de delírio. Ele saiu a caminhar e ignorou os jovens completamente. Apesar de tudo, decidiram que iriam para Deep Hollow. Ninguém percebera que o velho estava ferido. O ferimento a bala continuou sangrando dentro das vestes pesadas, o velho não caminhou mais muito tempo e acabou caindo à beira da estrada.
_Bando de maricas fodidos, Piranhas nojentas... Vocês vão todos morrer... Este é segundo motivo seu cretininhos... Gente como vocês... Merece morrer... E o xerife Counter vai matar cada um de vocês...
O velho Henry Counter sangrou até a lenta e dolorosa morte.
Deep Hollow.
_Isto é Deep Hollow? Achei que era uma cidade do velho oeste…
_Não seja ridículo Billy. Ele disse que a estória era de vinte anos atrás...
_Verdade...
Um arbusto seco rolou pelo quarteto decepcionado. A cidade de Deep Hollow era tão parecida com qualquer outra cidade quanto possível. A única coisa que surpreendia os jovens era que a cidade era extremamente pequena. Poucas ruas com casas comuns, apenas alguns prédios com no máximo cinco andares. A maioria das ruas era pavimentada, com exceção de algumas poucas de uma área da cidade onde tudo parecia inacabado.
A placa de que o velho na estrada havia falado estava lá. Dizia exatamente como ele contara ao grupo. Os números da população riscados e corrigidos. Agora o letreiro dizia “Deep Hollow, 1 habitante”.
_Hey, vejam a tal placa! _Disse Austin apontando para o letreiro. _O velho não mentiu.
_Olha isso... _Jenny passou a mão no letreiro como se examinasse sua veracidade. _ Aqui diz que ainda tem um habitante...
_É. Harold Couuuuunteeeeerrrrr... _Austin começou a imitar um zumbi. Billy e Patsy não resistiram e riram da piada. Jenny permaneceu séria.
_Qualé Jenny... Não esquenta com aquela estória, ta? _Billy sacou um canivete suíço e começou a riscar o letreiro.
_O que você ta fazendo?!
_Calma garota. Só estou fazendo uma pequena correção. _Ele fez seus últimos reparos e mostrou triunfante aos amigos. _Pronto!
O letreiro agora dizia “Deep Hollow, 5 habitantes”.
_Por que cinco? _Perguntou Patsy com curiosidade.
_Nós quatro... E nosso querido Harold Counter. _Billy sorria enquanto guardava seu canivete.
Os quatro passearam pela cidade deserta ainda dentro do carro. Casas vazias com portas e janelas abertas. Carros abandonados no meio das ruas. Marcas visíveis de acidentes de trânsito e arrombamentos. Brinquedos e roupas espalhados, objetos pessoais diversos. Marcas de sangue em quase tudo.
Austin passou por uma velha pensão com um letreiro sujo e enferrujado. O letreiro dizia “Albergue. Temos vagas”. Austin começou a rir e apontou seu dedo para a placa.
_Vejam isso pessoal. Eles têm vagas! Como se algum lugar aqui não tivesse vagas!
_Podemos passar a noite ali! Ainda deve ter camas macias! _Billy recebeu um olhar repreensivo das duas moças.
_Nem morta eu durmo nesse pulgueiro! _Patsy abraçou Austin buscando seu apoio, mas ele não discordou de Billy.
_Hey boneca! Onde quer dormir? No carro?!
_Bem… Eu…
_ É uma ótima idéia dormir no albergue. Depois nós voltamos aqui. Agora vamos dar uma olhada naquela área inacabada.
Casas não embolsadas, sem pintura e sem portas ou janelas. Um bairro inteiro sem acabamento. Nenhum sinal de que alguém tivesse morado naquelas residências, mas havia algo que chamava atenção. A delegacia era a única construção que tinha certo acabamento. Não havia pintura, mas sinais de que chegou a funcionar. Dois velhos carros patrulha estavam estacionados na frente da delegacia, ambos pintados de preto e branco e com uma luz vermelha em cima do capô. Um tinha a inscrição “xerife” dentro de uma estrela nas portas dianteiras.
_Vamos dar uma olhada... Esta delegacia deve ter alguma coisa legal... _Austin pareceu animado, Billy demonstrou compartilhar de sua empolgação.
_Podem ter distintivos! Talvez uniformes... Legal...
_Armas! _Exclamou Austin para o amigo, Porém, ele houvera dito uma besteira.
_Hey! Nada de armas! Viemos pra nos divertir, não para nos matar, OK?!_Jenny pareceu extremamente irritada. Austin parou o carro e ela foi a primeira a descer. Assim que Jenny saiu, Austin recebeu um tapa de Patsy bem no meio da nuca.
_Idiota! _Disse a garota com a voz rosnada.
_Não falei por mal, gente... Nem pensei...
_Da próxima pense seu babaca! _Billy perdeu repentinamente seu senso de humor. Fitou Jenny se distanciar do carro se contornando com os próprios braços como se sentisse frio. _Estúpido, esqueceu que foi uma maldita arma que matou a mãe dela?! Esqueceu como aconteceu?!
_Não cara, não esqueci... Só não pensei que ela fosse se importar... Não queria chatear ela!
Os dois olharam Austin com escárnio. Depois de censurá-lo mais um pouco, todos desceram do carro. Enquanto Austin e Patsy entraram na delegacia, cujas portas estavam escancaradas, Billy foi até Jenny e acabou conseguindo convencer a garota a deixar a besteira de Austin de lado. Todos acabaram se encontrando dentro da delegacia.
Corredores que davam em celas vazias. Salas empoeiradas e folhas de papel e documentos amarelados espalhados por toda parte. Banheiros que eles não conseguiram abrir devido ao forte cheiro pútrido que escapava até pelas frestas da porta.
_ Venham ver o que encontrei! Vocês vão adorar isso aqui! _A voz de Austin vinha da sala do xerife. Já haviam passado por ali, mas como a porta estava trancada, eles ignoraram a mesma. Agora Patsy, Billy e Jenny seguiam a voz do amigo até a sala escura.
_O que foi Austin? _Foi então que Jenny viu. _MEU DEUS! QUE COISA HORRÍVEL!
Patsy e Billy entraram logo atrás dela e também viram a abominável figura sentada na cadeira do xerife. Um cadáver de um homem alto e magro. Parecia ser um velho com bigodes ásperos que escondiam os lábios decompostos. Um uniforme marrom indicava que se tratava de um policial. A estrela dourada de cinco pontas terminadas em pequenas esferas indicava que se tratava do xerife da cidade. O corpo estava despojado na cadeira como se tivesse dormido ali antes de morrer.
_O que é isso? _Perguntou Jenny cobrindo a boca com uma das mãos.
_Um cadáver... Um xerife cadáver... _Austin não fora bem sucedido na piada. O clima ficara repentinamente pesado, assustador. As meninas caminhavam lentamente dentro da sala escura. Apenas Austin parecia se divertir com o achado.
_Céus... É assustador... Será que todas as casas têm cadáveres?
_Talvez Patsy... O tal do Harold Counter matou todo mundo, não é?
_Isso é besteira... Não acredito que você acreditou naquela estória, Austin.
_Então do que ele morreu, “Jenny sabe tudo”?
_Não sei... Mas não tem ferimento de bala alguma. O que me diz disso?
_Bah! Está escuro... Deve estar em algum lugar...
_Vai procurar?
_Quando eu tiver comigo minhas luvas especiais de mexer em corpos putrefatos... Ai sim, talvez.
A mesa do falecido xerife estava bagunçada. Papéis antigos cobriam quase toda, além de alguns utensílios de escritório, como canetas e grampeadores. Havia também uma garrafa de tequila fechada com uma rolha e havia um copo de vidro ao seu lado, ainda sobre a mesa estava uma arma de fogo, uma pistola prateada suja e enferrujada.
Ao perceber a arma Jenny assumiu uma expressão séria. Ela aproximou-se calmamente e pegou a pistola com a ponta dos dedos, como se sentisse nojo da peça. Billy fixou seu olhar na mesa naquele momento, por algum motivo ficou preocupado, felizmente ninguém percebera. Jenny moveu sua mão com leveza e delicadeza, levou a arma até fora do alcance da mesa e deixou cair dentro da lata de lixo do escritório do xerife.
_Vamos dar o fora daqui...
_Jenny?! Não vamos nem tirar uma foto com ele?
_Austin, eu vou fingir que nem escutei essa merda que você falou.
_Pessoal? _Austin estava determinado, ficou mostrando a todos sua câmera. Todos o ignoraram e saíram da sala. Desistindo ele acabou saindo apressadamente, tanto que acabou derrubando um cabide de casacos com alguns sobretudos velhos e surrados. Austin olhou pra todos com uma feição marota ao pegar do chão um chapéu de abas largas e colocar na cabeça.
_Austin. Deixe isso aí. _Jenny usara novamente seu tom imperativo, mas desta vez não fora ouvida.
_Ora, vamos Jenny! É só um chapéu! O “Texas ranger” ali não vai mais precisar!
Jenny não respondeu. Apenas saiu caminhando em passos largos para fora da delegacia, seguida bem de perto por Patsy que não via mais a hora de sair daquele lugar macabro. Austin, vitorioso, saiu com seu chapéu de cowboy, mas antes de deixar a sala Billy lhe parou com um olhar sério.
_Você também vai encrencar por causa do meu novo chapéu?!
_Dane-se o chapéu cara... Não percebeu nada estranho?
_O quê?
_Quando a Jenny tirou a arma da mesa...
_Se você disser que o cadáver se moveu, eu chuto sua bunda cara!
_Cala a boca Austin! Tinha poeira em baixo da arma!
_O quê?
_Presta atenção. _Irritado Billy retira o copo de cima da mesa e mostra ao estúpido amigo que há um circulo exatamente do tamanho da base do copo, onde não havia poeira alguma. _Entendeu? Não era pra ter poeira onde estava a arma também… Mas se você der uma boa olhada… Tem.
_O que cê quer dizer com isso cara?
_Que a arma foi colocada ali recentemente...
Quando o sol se pôs naquele horizonte vasto e árido fora da cidade, os garotos presenciaram a lenta queda do astro nas montanhas e areia do deserto. O céu ficou tingido de tons gradientes de vermelho sangue e laranja vívidos. Este espetáculo natural não durou muito tempo, logo a noite havia caído sobre o crepúsculo com seu manto escuro. O céu negro salpicado com pontos brilhantes tão numerosos quanto possível, uma meia lua com o corpo branco brilhante tomado de sombras em metade de seu corpo. Uma linda noite. Decididamente linda.
Austin e Patsy foram ao albergue para procurar quartos que estivessem em condições de servi-los de repouso e outras atividades menos tranqüilas. Jenny e Billy saíram para uma caminhada ao luar, passavam pela cidade agora escura.
As casas de portas e janelas abertas ficavam realmente apavorantes à noite. Dentro das residências só se podia ver um breu completo, era inevitável a estranha sensação de que se houvesse alguém observando de dentro daquelas casas, este alguém estaria completamente oculto pelas trevas.
_Este lugar é apavorante... Eu não devia ter vindo... _Sussurrou Jenny para o amigo.
_Jenny... Não fica assim. Olha, se você não viesse, não teria a mesma graça.
_Não teria a mesma graça Billy? Eu só reclamo o tempo todo e fico cortando o barato de vocês...
_Não me venha com essa. Você corta o barato de Austin, mas alguém tem que fazer isso! O barato dele sempre nos mete em encrenca!
_É verdade... Lembra quando nós fomos ao aquário em Nova York?
_Se me lembro?! O Austin cismou que queria ver o tubarão comendo alguma coisa e tentou levar o poodle da Patsy pro maldito jantar!
_E o segurança pegou agente justo quando ele jogou o coitadinho na água... A patsy ficou furiosa!
_Achei que eles iam terminar naquele dia!
_Ainda bem que era o tanque das focas. O cãozinho nadou e latiu junto com os bichos, foi uma guerra para tirá-lo de lá depois.
Os dois começaram a rir com suas lembranças. O clima pareceu melhorar repentinamente. Enquanto caminhavam, suas risadas ecoaram pelas casas vazias, o eco que resultava destes risos dava a impressão de que alguém ria de dentro das casas. Assim que os dois perceberam este estranho fenômeno pareceram perder a graça de suas piadas, ficaram sérios novamente. Assustados.
_Você acha melhor nós voltarmos pro albergue?
_Eu não sei de você Jenny, mas eu não vou conseguir dormir com o barulho que aqueles dois vão fazer à noite...
_Tem razão... Quando eles fazem... Bem, parece que estão se matando.
_É... Você não tem curiosidade de...
_Hey! O que é aquilo?
Jenny caminhou em passos mais rápidos, nem percebeu que havia deixado Billy como uma expressão tola enquanto percebia que sua cantada fora deveras muito fraca. A garota foi seguida pelo derrotado até o que parecia ser um vasto cemitério. Lápides se estendiam por toda uma área. Um muro não terminado, com falhas de vários metros de comprimento, se estendia em torno do cemitério.
_Legal, um cemitério. _Disse Billy se aproximando com os olhos cheios de curiosidade. _Vamos dar uma olhada?
_Eu não sei...
_Ora, vamos! Só tem gente morta aí? O que podem fazer?!
_Tudo bem... Vamos dar uma olhada...
No albergue, Austin e Patsy estavam mais uma vez em sua frenética batalha para decidir quem fica por cima. Os dois já estavam completamente nus e se entrelaçavam de uma forma que era difícil dizer onde começava um e onde terminava outro. A cama do albergue não era a mais limpa do mundo, mas o lençol branco que eles haviam forrado sobre o coxão marrom acinzentado parecia melhorar as coisas.
_Austin, Austin... Eu estou com medo...
_O quê?! Medo de quê?! Não me venha com essas desculpas...
_Não é isso... Esse lugar dá medo... Não consigo me concentrar...
_Vamos fazer o seguinte... Feche os olhos e deixe-me fazer o resto... Garanto que em cinco minutos você vai estar com tanto tesão que nem vai ligar pra essa cidade fantasma idiota!
_Hummm... Vou querer ver isso... _Patsy fechou seu olhos ansiosa pelo que estava por vir, ela esfregou as pernas uma na outra sentindo a antecipação do que Austin faria.
Repentinamente, Patsy sentiu Austin agarrá-la pela cintura e erguer seu corpo para colocá-la de quatro, mãos e joelhos na cama, ela sorriu sabendo o que aconteceria, mas não foi exatamente o que ela esperava. Austin montou na garota, mas não como ela esperava, ele sentou em suas costas, ergueu o chapéu de cowboy que saqueou do velho xerife cadáver e começou a balançar o mesmo, gritando e sacudindo como se fosse um peão de rodeios em seu cavalo arisco.
_Yee-Haa! _Gritou Austin em sua patética fantasia. Patsy assumiu uma expressão de surpresa, não era apenas estranho, era ridículo. Embora Austin achasse aquilo muito excitante, Patsy havia acabado de se tornar frigida.
Enquanto isso, Jenny e Billy estavam prestes a descobrir um segredo.
O cemitério estava em ruínas. A falta de manutenção do lugar lhe dera um aspecto decadente. Jenny e Billy passaram entre túmulos e algumas velhas árvores desfolhadas.
_”Elizabeth Newman”... “Amada esposa e mãe”. O que diz esta aí? _Disse Billy apontando para a lápide ao lado de Jenny.
_”Simon Rogers”... “Descanse em paz”... Puxa, que original... _Jenny sorrira. O s dois estavam fazendo aquilo há alguns minutos, já haviam lido dezesseis lápides. Era a vez de Billy.
_”Eric Tools”... “Querido por todos”… Sei o que quer dizer. É tudo extremamente clichê... Previsível... Nenhuma destas lápides tem frases interessantes.
_Parece que é de propósito. É como se ninguém se importasse muito com essas pessoas...
_Ou suas famílias não tinham muita criatividade, não é? Veja esta aqui, Jenny. “Amanda Muller, uma boa pessoa”. Uma boa pessoa?! Por favor!
Um som muito peculiar se ouviu naquele momento. Era o pio baixo e sinistro de uma ave que estava pousada sobre o galho de árvore. A árvore seca e retorcida estava completamente desprovida de folhas, galhos se estendiam aos céus como mãos munidas de garras, mãos que tentam agarrar alguma coisa. A ave era grande e negra. Suas patas se agarravam ao galho e suas asas eram eriçadas acima da cabeça, um pescoço torto terminado numa cabeça disforme e um bico curvo e afiado.
_Olha só... Um abutre! Não é louco? Que enorme...
Os dois se aproximaram um pouco mais. A ave mal se moveu, parecia estar empalhada. Apenas ficou imóvel e fitando seus visitantes.
_Esta esperando nós morrermos... _Disse Billy observando o pássaro monstruoso.
_O quê? Como assim?
_Eles fazem isso, sabe? Ficam espreitando e esperando viajantes e alguns animais no deserto serem mortos pelas condições do clima, falta de água ou comida... Depois pousam nas carcaças e comem a carniça...
_Nós não estamos num deserto... Estamos na cidade. Não é possível que ele ache que nós vamos morrer...
_Bom, ele espera que nós morramos... Daí ele nos almoça...
_Isso é nojento... Bom, a menos que ele ou outra pessoa nos mate... Vai ficar com fome.
Jenny observou que abaixo da arvore retorcida havia mais um túmulo. Uma lápide um pouco maior e mais adornada nas extremidades. Tinha entalhado na superfície cinza e escura uma estrela de cinco pontas terminada em pequenas esferas, exatamente como o brasão que viram na delegacia, símbolo da força policial da cidade.
_Meu Deus. _Jenny foi tomada por um grande pavor. A lápide tinha uma inscrição que a deixou terrificada.
_O que foi? _Billy não teve resposta. Ela apenas continuou olhando para a lápide de pedra com aquele olhar estupefato. Billy foi até ela e observou a inscrição.
“Aqui jaz
Xerife Harold Counter
O gatilho mais rápido de Deep Hollow
E o braço de ferro impiedoso da lei”
Billy pareceu congelado agora. Seu rosto imitou o de Jenny, um medo irracional do que deveria ser uma tola estória de terror, um devaneio de um velho viajante que por acaso esbarrou neles na estrada.
_Harold Counter. É o nome da estória daquele velho... Não é Billy?
_É sim...
_Ele não disse que Counter era o xerife da cidade...
_Não Jenny, ele não disse...
_Billy... Se têm um túmulo para o xerife... Por que o corpo dele estava na delegacia?
_Bem... Ele é um bom policial...
_Por que ta dizendo isso?
_Bom Jenny... Ele não descansa em serviço... _Billy apontou para frente da lápide. Havia um buraco grande e escuro para o fundo do tumulo. A terra não se espalhava para os lados, apenas para dentro do buraco. Era como se tivesse sido feito de dentro pra fora.
_Não descansa em serviço?
_É... Ele... Voltou ao trabalho...
Um repentino bater de asas assustou Jenny e Billy. O abutre alçou vôo e pousou sobre a lápide do xerife. Soltou um pio alto e voltou a ficar imóvel. Permaneceu a observar atentamente os dois jovens. Esperando pacientemente por sua próxima refeição.
Tempestade de chumbo.
Ele subiu as escadas com passos lentos e firmes. Suas botas emitiam um som de um baque seguido do ranger das tábuas. Austin e Patsy não podiam ouvir os passos se aproximando, seus gemidos e gritos de prazer não permitiam. Patsy cruzou as pernas a fim de manter o corpo de Austin junto do dela, Austin parecia decidido a fazer movimentos fortes e dolorosos. Patsy não reclamaria, eles a muito não tinham uma noite tão inspirada.
Billy e Jenny saíram do cemitério o mais rápido que puderam. Os dois estavam assustados, apavorados. Billy agarrou a mão da amiga e saiu a apresá-la. Jenny tentava acompanhar seu passo, mas nem mesmo conseguia andar, ela precisava parar e respirar ou acabaria vomitando.
_Espera Billy! Espera... _Jenny parou de andar e Billy voltou-se pra ela com irritação.
_Vamos Jenny! Vamos chamar Austin e Patsy e sair logo desta droga de cidade!
_Espera aí Billy, isso é loucura... É só uma lenda urbana. Não é real...
_Não quero nem saber Jenny! Você viu o túmulo! Alguma coisa saiu de dentro daquele túmulo! E o cadáver do xerife estava no escritório dele! O mesmo xerife Counter que aquele velho doente da estrada disse que voltava do inferno pra matar as pessoas!
_Ouça a si mesmo! Não pode ser verdade, Billy!
_Não importa! Quero sair desta cidade. Agora! Eu vou levar o carro do meu pai pra longe daqui e vocês precisam de carona, então todos vem comigo!
_Está bem... Está bem... Vamos buscar os dois...
Ela gemia com cada vez mais prazer, Patsy sabia que estava prestes a chegar ao orgasmo, mas algo a perturbou. Havia um grande pássaro pousado na janela. A ave gigantesca estava observando os dois. Um grande abutre de penas negras e longas garras que o prendiam a madeira da janela.
_Austin... Austin! Para... Tem um pássaro...
_Que pássaro? _Austin olhou pra trás e viu a criatura horrenda pousada na janela. Ele se levantou rapidamente da cama e enrolou-se no lençol. Patsy por sua vez vestiu a camisa de Austin que nela era quase do tamanho de um vestido.
Austin caminhou até a janela e sacudiu o chapéu de cowboy na frente do pássaro como se fosse golpeá-lo. A ave fugiu dando um pio e sumiu das vistas do casal.
_Bem, agora sem mais interrupções. Vamos voltar ao rodeio! _Disse Austin balançando o chapéu acima da cabeça.
O som de um uma arma sendo engatilhada. Austin e Patsy ficam estacados. Confusos, eles olham um para o outro. Patsy percebe então, um homem de sobretudo cinza escuro parado na escuridão do quarto. O estranho tinha uma estrela brilhante e dourada presa a roupa com a inscrição “xerife”, bem a altura do peito, esta estrela destacava-se na escuridão por seu brilho e estranhamente, estava posicionada invertida, de cabeça para baixo. Não lhes restaram dúvidas de que se tratava do cadáver do xerife, que agora caminhava e ameaçava. Apontava uma pistola para Austin. Ao virar-se, Austin viu o louco que estendeu a outra mão como se pedisse algo.
_Oh, oi amigo? Hã? Eu não sabia que você morava aqui... O que quer? O chapéu? _Assustado, Austin entrega o chapéu ao estranho. Tentava se enganar de que era só um velho, mas sabia quem ele era. A mão magra e cadavérica agarra o chapéu e o coloca na cabeça, ele da um passo a frente, seus olhos ficam encobertos pela sombra da aba do chapéu. Seu rosto torna-se visível. Um rosto magro e retorcido. Abaixo do bigode desgrenhado, um sorriso de dentes amarelados e estranhamente mais pontiagudos que o normal. A carne aparentemente decomposta empesteia o quarto com o cheiro de podridão. Das órbitas no crânio, nariz e entre os dentes amarelos um exército de vermes começa a marchar para fora, gotejando e fugindo pelo chão a fora.
Patsy grita desesperada e foge do quarto, ela rola escada abaixo e machucada começa a mancar para longe do pesadelo. Austin ainda sob a mira do monstro permanece parado e com as mãos para cima.
_Hey cara... Por favor... Não me mate... Eu to implorando... _Austin começou a chorar. Ele cobria seu sexo com as mãos, uma estranha e desnecessária timidez. O monstro começou a abaixar a arma e isso devolveu a esperança aos olhos de Austin, mas apenas até ele perceber que ele não havia baixado a arma e sim apontado para o meio das pernas do rapaz. Antes que Austin pudesse implorar novamente o monstro sádico atirou.
Um disparo. Um estrondo rápido de pólvora queimando e explodindo, um projétil de chumbo rasgando o ar e a carne de Austin. As mãos são perfuradas pela bala. Sangue e dois dedos decepados caem no tapete do quarto sem emitir som algum. O pênis do rapaz é destruído pelo disparo, torna-se nada além de carne estraçalhada que respinga junto com a grande quantidade de sangue por toda parte. Austin tenta gritar para desabafar a profunda dor que sentira, mas seus pulmões não têm ar para emitir nenhum som além do choramingar quase inaudível.
O xerife sorri satisfeito. Ele caminha até Austin que se ajoelhara no chão. Agarra o garoto colocando a mão dentro da boca do rapaz. Segurando a mandíbula do pobre menino ele sai a arrastá-lo para fora. Desce as escadas sem se importar com o bem estar de sua vítima e o solta do lado de fora. Austin permanece em posição fetal, chorando, rezando, tendo como companheiro apenas a sua dor.
O xerife retira outra arma e aponta ambas para Austin. O sorriso macabro ainda está lá no cadáver. Austin percebe que ele faz um gesto com as armas para que ele se levante. Lutando contra a dor, ele obedece a ordem. O xerife atira novamente, desta vez atingi o chão bem perto do pé de Austin, que salta pra trás pra não ser atingido. O xerife sorri novamente. Ele começa a repetir os disparos no chão obrigando o jovem a praticar uma estranha e bizarra dança para não ser atingido. Quando os disparos cessam, Austin fita o xerife morto-vivo, não estava mais sorrindo.
Ao longe Jenny e Billy puderam ouvir os muitos disparos. Dezenas de tiros sendo disparados sem parar. Um tiroteio alto e ensurdecedor. Depois dos disparos, tudo ficou em absoluto silêncio.
_Deus... Foram tiros?
Nos minutos seguintes os jovens fizeram uma nova caminhada entre as sinistras casas abandonadas. Mais uma vez se encerravam em um mórbido e perturbador silêncio. Silêncio que foi quebrado quando avistaram Patsy. Assim que ela viu os amigos partiu em direção a eles. Ela saltou sobre Jenny e deu-lhe um forte abraço. Chorando e soluçando ela não conseguia contar o que havia acontecido. Balbuciava coisas incompreensíveis sobre o xerife e Austin estar morto. Jenny e Billy chegaram à conclusão de que era melhor partir imediatamente, mas não sem encontrar Austin. Havia uma chance de Austin estar vivo e de qualquer forma, eles precisariam ir ao albergue para pegar o carro.
O xerife Counter arrastou o corpo que colocara dentro do lençol com apenas uma mão. Enquanto arrastava o corpo de Austin o lençol branco ficava vermelho, tingindo em grande velocidade com os sangramentos. Dentro do lençol, o corpo mais parecia um punhado de lixo. Não se detectava os traços da fisionomia humana, não havia volume de braços, pernas ou cabeça. Havia apenas uma massa triturada e esquartejada, talvez pelos tiros ou pelas mãos do monstro.
Ele abriu a cela número 1 da cadeia da delegacia de Deep Hollow. Lá dentro, ele despejou tudo que sobrou do jovem Austin Miles. Braços e pernas divididos em pelo menos cinco pedaços cada, nenhum corte, tudo quebrado a mão. Nacos de carne que parecem ter sido rasgados por mãos extremamente fortes. Órgãos internos espalhados pelo chão, as vísceras se enroscando em todos os outros, como se as tripas tivessem sido usadas para amarrar um no outro.
Faminto, levou sua mão até estes órgãos e arrancou do cacho feito com as tripas um fígado escuro e sangrento. O velho xerife morto-vivo mordeu o fígado como se fosse um fruto. Ao mastigar o mesmo acabou deixando escapar parte daquele suco viçoso entre seus lábios e através de feridas abertas em suas bochechas, alguns vermes começaram a cair da boca asquerosa, misturados aquela massa. Mastigou até parecer ter certeza que tinha feito uma boa escolha e voltou a comer o resto do delicioso órgão.
_Ele atirou nos pneus! Maldição! O desgraçado atirou no pneus! _Billy estava furioso. Tudo o que eles queriam era ir embora. Principalmente depois de encontrar o que poderia ser um pedaço de Austin no meio da rua. Quatro pneus furados, o xerife fez questão de atirar em todos os pneus do carro.
_Você tem estepe?
_Sim Jenny... Eu tenho estepe! Mas tenho UM estepe! Ele atirou em quatro rodas! Nós vamos morrer aqui! Vamos todos morrer! _Billy gritava enquanto caminhava de um lado para o outro. Patsy acabou chorando agarrada em Jenny.
_Billy, calma! Temos que ficar calmos! Se pensarmos direito, nós vamos conseguir sair daqui! Mas temos que ficar juntos e pensar direito, ok? _Ela sabia que se não tomasse as rédeas da situação todos iriam à loucura, então foi o que Jenny fez, tomou as rédeas da situação.
_Certo. Vamos pensar Billy. Não podemos mais usar o carro do seu pai e precisamos sair daqui. Tem as viaturas que vimos perto da delegacia... Pareciam em bom estado, talvez se levarmos gasolina nós possamos...
_Você ficou maluca?! Jenny! Foi o xerife zumbi que fez isso! Foi ele que matou o Austin! E nós vamos roubar carros na delegacia? Na delegacia dele?!
_Eu sei que é arriscado, mas viu como estão os outros carros da cidade, as viaturas são as únicas que parecem estar em condições de rodar...
_Podemos andar... Se aquele velho maluco que nos mandou pra esse inferno pôde... Nós também podemos... Vamos ir andando pra casa...
_Billy... Sabe quantos quilômetros faltam pra próxima cidade? Billy... Precisamos dos carros... Precisamos roubar uma viatura...
_Ele atirou no Austin... _Patsy sussurrou as palavras delirantes com lágrimas escorrendo o rosto. _Ele atirou um monte de vezes... Fez ele em pedacinhos com as balas... Depois arrancou mais pedaços... Eu vi... Eu me escondi e assisti o Austin ser esquartejado...
Jenny olhou pra Billy com seriedade. O rapaz entendeu o recado e tentou se controlar.
_Certo... Vamos pegar um pouco de gasolina do carro do meu pai... E o que mais for útil... _Disse Billy em voz baixa e forçando-se a manter a calma, viu que estava recebendo um sorriso de Jenny como resposta. _Nós vamos pegar um carro, por nossas coisas, gasolina se precisar... E ir embora. Bem rápido.
_Bem rápido. _Respondeu Jenny com tom destemido.
Os três serpentearam em volta da velha viatura de policia, uma única viatura, a outra havia desaparecido. A delegacia parecia um grande mausoléu, velho e decadente. Eles tentaram enxergar dentro da construção decrépita, mas com as luzes apagadas era impossível.
Billy colocou no chão o grande galão cheio com o combustível que tirou do carro do pai. Jenny se adiantou um pouco mais para averiguar se o xerife não estava por perto. Os três jovens ficavam encolhidos, abaixados atrás da viatura, como pequenos animais acuados por um predador.
_Jenny, eu vou entrar no carro e ver se funciona. _Sussurrou Billy.
_Mas e se ele estiver lá dentro?! Vai nos ouvir! _Patsy exclamou aflita.
_Fiquem quietos. Eu vou até lá ver se tem algum sinal dele. Enquanto isso você prepara o carro, Billy.
_Ficou louca menina?! Vai lá dentro? E se ele estiver te esperando?
_Olha, eu não acho que ele esteja lá dentro, e pode haver armas pra podermos usar.
Billy ficou assustado, Jenny odiava armas, devia estar realmente apavorada para recorrer e este método de defesa.
_O que te faz pensar que ele não está lá dentro?
_Um dos carros sumiu. Justo o carro do xerife! É óbvio que a viatura não saiu daqui sozinha!
_Que seja! Não importa! Mesmo que esteja certa... Que arma pode matar um maldito xerife morto-vivo...
Foi então que Billy se deu conta do que acabara de dizer. Jenny sorriu ao perceber que finalmente se fez entender. Havia sim uma arma capaz de matar o xerife Counter. O velho na estrada lhes havia confessado em seus delírios. Claro que era só uma hipótese incerta. Algo dito por um mendigo bêbado na beira da estrada, mas a esta altura, qualquer centelha de esperança de sobrevivência era bem vinda.
_A espingarda de cano duplo...
_Que tem um cano mais curto do que o outro.
_Certo Jenny, vai logo. Quando eu conseguir ligar o carro, eu buzino, grito ou sei lá...
_Eu já volto.
Jenny entrou na delegacia em passos lentos e cautelosos, examinando cada centímetro daquele lugar assustador. Conforme passeava pelos corredores, ela se convencia cada vez mais de que o xerife não estava ali. Finalmente, ela entrou na sala do xerife.
_Onde está esta maldita arma... _Sussurrou para si mesma enquanto revirava armários e gavetas.
A mesa do xerife estava forrada com jornais. Jornais amarelados pelo tempo, antes não estavam ali, era como se o próprio xerife tivesse estendido todos os papéis daquela forma. Se tinha sido o zumbi a ter colocado os jornais lá... Jenny percebeu o “por que”.
Os jornais estavam organizados em ordem de datas, todos eram de vinte anos atrás e todos eram manchetes sobre o xerife Counter.
“TAXA DE CRIMINALIDADE CAI DRASTICAMENTE EM DEEP HOLLOW. Xerife Counter afirma: Eu limpo esta cidade em três tempos, basta fazer uso da pena de morte.”
“HAROLD COUNTER: HERÓI OU AMEAÇA? Xerife Counter é acusado de maus tratos aos detentos e de fazer uso abusivo de sua autoridade.”
“XERIFE PODE SER AFASTADO DO CARGO. Harold Counter pode perder o emprego devido a sua má conduta, o povo afirma estar farto de sua violência.”
“ASSASSINATO DESNECESSÁRIO. Hoje o xerife Counter atirou e matou três suspeitos de roubo sem motivo aparente. A cidade chora as mortes e exige que o xerife pague pelo crime.”
“XERIFE VOLTA A MATAR. Harold Counter é suspeito do assassinato de cinco jovens que teriam pichado os muros da delegacia de polícia de Deep Hollow.
“CHACINA NA CADEIA. O xerife Harold Counter assumiu a responsabilidade pelo massacre de todos os detentos da delegacia de Deep Hollow. ‘Alguém tinha que fazer’, disse o xerife aos jornais.”
“A NOITE DO XERIFE. Hoje à noite, o xerife Harold Counter foi morto com um tiro de espingarda nas costas, o assassino foi o próprio irmão de Harold, Henry Counter. ‘Alguém tinha que fazer’, disse Henry aos jornais.
Só então Jenny percebeu. A foto de Henry Counter. O irmão do xerife era o velho que haviam visto na estrada.
Ela se apressou para sair e contar a Billy, mas antes de sair da sala do xerife foi surpreendida pelo som de uma forte explosão vindo de fora da delegacia. Quando estava quase na saída ela trombou com Patsy que vinha em sua direção.
_O que houve Patsy?!
_O abutre! Eu vi o abutre! Ele tava olhando o Billy!
Ela não devia ter voltado.
Minutos antes.
Billy já havia constatado que o carro podia funcionar. Agora ele se concentrava em virar o galão de gasolina para encher o tanque da viatura, no entanto Patsy era deveras, muito irritante.
_pela última vez, Patsy. Eu não ouvi nada.
_Mas quando eu perguntei antes você disse que não sabia...
_Isso foi nas quinze primeiras vezes, por que eu estava com medo, mas agora estou irritado demais pra me borrar.
_Mas eu sei que estou ouvindo passos... Billy... Vamos embora...
_Se você calar sua matraca e me deixar colocar a gasolina em paz, sim, nós vamos embora.
_Você não acha que a Jenny está demorando? Devíamos ver se ela está bem...
_ótimo. Vai ver se ela está bem, se ela achou a arma ou sei lá... Qualquer coisa...
Patsy pareceu aborrecida. Magoada. Ela saiu caminhando, rápida e chorosa para dentro da delegacia. No caminho ela quase gritou por ter visto o horrível abutre negro pousado em cima do telhado. O pássaro sinistro estava observando Billy. Ela correu para encontrar logo Jenny. Billy ficou sozinho.
O galão ainda estava na metade e Billy ainda não conseguia manter firme devido ao peso. Nunca foi dotado de braços muito fortes mesmo. Enquanto se esforçava para não deixar o recipiente da gasolina cair, ele percebeu um brilho avermelhado em torno de si.
_Mas que merda é essa?
Billy viu que a luz vermelha provinha da viatura do xerife que vinha se aproximando lentamente dele. Ele ficou imobilizado pelo pavor, assistiu aquela viatura parar a uns quinze metros de distância e uma mão muito magra e retorcida sair pela janela, trazendo consigo uma arma de fogo. O xerife atirou só uma vez. O tiro não acertou Billy, nem acertou o galão de gasolina, nem mesmo o tanque da viatura. O tiro acertou em cheio o porta malas do carro, este, estava cheio de garrafas com combustível extra, caso acabasse o do veículo. O próprio Counter havia colocado lá.
Uma forte explosão. Pedaços da viatura voam por toda parte, fogo se expandindo e carbonizando tudo a volta. Billy foi tomado pelas chamas e ficou correndo de um lado pro outro, ele gritava enquanto seu corpo continuava a dançar na forma de uma bola de fogo.
Quando Jenny e Patsy chegaram do lado de fora, as chamas haviam tomado a frente da delegacia. Billy corria com o corpo totalmente tomado por chamas, mas um tiro certeiro em sua cabeça o fez parar. O xerife atravessou as chamas sem problema algum. A criatura escura e mal cheirosa avançou na direção das meninas com arma em punho. Antes de fugir para dentro de novo, Jenny viu a espingarda de um cano mais curto que o outro, presa por um coldre nas costas do monstro.
As duas correram dentro da delegacia em total desespero, atrás delas, uma rajada de balas era disparada a esmo pelo monstro pistoleiro. Os tiros pareciam não ter a intenção de acertar, atingiam o teto e alguns objetos dentro da delegacia, causando grande estardalhaço, mas felizmente nenhum disparo as atingiu.
Patsy soluçava em um choro medonho, Jenny logo a arrastou para um esconderijo. As duas entraram na ala das celas de cadeia. Dentro de uma das celas, elas se encolheram num canto e Jenny jogou um pesado e sujo pano em cima delas.
Logo elas ouviram o som de passos se aproximando. Jenny precisou quase enforcar Patsy para ela não emitir nenhum som, pois duas grandes baratas, que estavam no lençol velho, estavam agora caminhando pelo corpo das pobres meninas.
O som dos passos se afastou e só então, Jenny deixou os lábios de Patsy livres, ela se controlou e não deixou seu choro ser alto.
_Patsy, escute com atenção... _Jenny segurou o rosto da amiga com delicadeza, Patsy pareceu mais calma com isso.
_Eu estou... Ouvindo...
_Patsy, nós temos que pegar a arma dele...
_O quê?!
_Temos que pegar a espingarda que está nas costas dele. É a única coisa que pode matá-lo.
_Mas isso, quem disse... Foi aquele velho maluco... E se...
_É nossa única esperança, entendeu? É nossa única chance de sairmos daqui vivas. Então vamos fazer o seguinte...
O plano foi arquitetado.
O abutre não sabia o que fazer. Ele tentava bicar o corpo de Billy jogado no chão, mas ainda estava muito quente para a ave nojenta. A besta alada não teve escolha, desistiu de comer o garoto esturricado e olhou para a direção da delegacia. Esperando.
_COUNTER! _O grito de Jenny foi alto e valente.
É claro que o xerife Harold Counter ouviu. Quando a criatura vestida de homem da lei voltou aos corredores das celas, deparou-se com Jenny parada do outro lado do vasto corredor, que era cercado pelas várias divisões.
_Olá xerife Counter. Você me quer? Venha até aqui e faça essa sua versão distorcida e nojenta de justiça. _Disse desafiadora.
O xerife caminhou lentamente pelo corredor da prisão. Ele passou entre várias barras de ferro enegrecido de gaiolas que já prenderam todos os tipos de monstros. Sacou suas armas de fogo e as estendeu com os braços abertos, batendo as pistolas metálicas nas grades. O som das batidas o acompanhou enquanto ele marchava para cima da menina.
_Você é patético Counter. Lei e ordem? Servir e proteger? Você é uma vergonha... Senhor “Texas ranger”...
Ela não sabia se os deboches o irritavam, de fato. Ele era inexpressivo, seu rosto putrefato era composto por um olhar vago e cruel, bigode áspero e uma expressão forte e mal humorada. Às vezes um verme percorria-lhe a face.
_Eu não tenho medo de você.
Enquanto ela falava, via aquela figura se aproximar cada vez mais. Movia-se como um doente, fraco e lento. Algumas vezes, no entanto, ele exibia agilidade e destreza incomparáveis, movendo-se rápido e com eximia precisão. Atrás dele, Patsy saiu de baixo do lençol imundo e se esgueirou por traz da besta, seguindo, cada vez mais de perto, os passos do xerife.
O xerife parou, ficou frente a frente com Jenny. Um batalhão de vermes marchou da boca do morto-vivo, passando entre os dentes que se abriam num rosnar. Não era possível ver os olhos do xerife, apenas uma escuridão vagava por suas órbitas. Jenny sentiu o calafrio da morte, percorrendo sua espinha. Ela tentou continuar provocando, mas já começava a gaguejar de temor.
_E-eu... Eu... Não t-tenho... Não tenho... Medo...
Patsy aproximou-se silenciosamente e estendeu a mão para pegar a espingarda nas costas do xerife. Faltava pouco agora. Jenny se recompôs, engoliu seco e revigorou sua veia teatral.
_Isso mesmo seu monstro nojento! Eu não tenho medo de você. A melhor coisa que seu irmão fez, foi meter uma bala nas suas costas!
O xerife se virou repentinamente e agarrou o braço de Patsy. A menina deu um grito ensurdecedor. Ele sacou a espingarda das costas e firmou o cano no rosto da jovem, como se oferecesse o que ela tanto queria, a arma. Jenny gritou algo incompreensível e pulou nas costas do monstro. Por mais que sacudisse e se debatesse, o xerife não soltava o braço de Patsy e muito menos a espingarda.
_DEIXA ELA EM PAZ! LARGA ELA! LARGA ELA!
_JENNY! POR FAVOR! EU NÃO QUERO MORRER! JENNY ME AJUDA! ME AJUDA!
Batendo as costas numa das grades da prisão, o xerife consegue derrubar Jenny de cima dele. Aturdida, a garota tenta se levantar sem muito êxito. Jenny viu o xerife virar Patsy de costas com um solavanco, torceu o braço da pobrezinha e forçou-a a inclinar o corpo para frente, o rosto de Patsy quase tocando os joelhos. A camisa que Patsy vestia, apesar de ser de Austin, portanto grande para ela, não pôde esconder mais seu corpo nu. Por um segundo, Jenny achou que o xerife zumbi queria estuprar sua amiga, mas não foi o que aconteceu. O xerife, num golpe forte e rápido, desprovido de piedade alguma, enfiou quase todo o cano da espingarda no ânus de Patsy. O grito de horror mais medonho que Jenny já ouvira na vida.
_Oh Deus... Por que... Porque estamos sendo castigados assim?
É claro que o cano da arma era grande demais para o pequeno orifício de Patsy, lógico que a espingarda teve que abrir caminho rasgando o corpo da menina. O xerife Counter olhou para Jenny e finalmente revelou ter expressões, abrindo seu demoníaco sorriso.
Ela estava em prantos, mas o choro de Patsy se calou quando o xerife puxou o gatilho e a calibre 12 explodiu o ventre da menina de dentro pra fora, automaticamente matando Patsy Jones.
Jenny fugiu o mais rápido que pôde.
Saindo da delegacia, ela temeu ser alcançada, mas ainda assim não olhou para trás. Avançou por cima das brasas resultantes da explosão do carro e parou um segundo quando viu o corpo de Billy coberto de queimaduras de terceiro grau, ali jogado e com o grande abutre montado em cima, arrancando pequenos nacos de carne. Em fim ela chegou à viatura do xerife, ao verificar, constatou sua salvação, as chaves estavam na ignição. O carro roncou e levantou poeira, enquanto a jovem fugia pelas ruas. Ela ouviu alguns disparos de arma de fogo, um até acertou o vidro traseiro, o partindo em vários pequenos diamantes vitrais, mas ela continuou. Ela escapou. Isso é que importava.
Jennifer Twaine, a careta, deu o ar de sua graça, para os outros só o fato dela ter decidido ir, já era um favor. Jenny sempre foi a chata, a estraga festa, a certinha... Mas eles nunca haviam se separado por muito tempo, os quatro eram amigos desde crianças. Isso significava muito pra eles.
O xerife Counter matou as pessoas a quem ela mais amava, quem mais lhe compreendia, mas ela escapou. Isso é que importava.
Porque Jenny odeia armas?
Seis anos atrás, os quatro amigos tinham o costume de ir para a casa de Jenny quando seus pais viajavam. Eles bebiam um pouco de cada uma das bebidas do senhor Twaine, apenas uma quantidade da qual ele não fosse dar falta, fumavam um baseado ou dois e ás vezes quando a grana dava, faziam um chá de cogumelos. Naquela noite, eles estavam com grana.
Depois de estarem todos sob os efeitos de diversos tipos de alucinógenos e entorpecentes, loucos por encontrar uma forma de “curtir sua onda”... Encontraram a arma do senhor Twaine... Eles brincaram um pouco com ela e até aí tudo estava bem, então Jenny decidiu que queria vê-la disparar.
Eles foram para o quintal e escolheram um alvo, era um pássaro bem grande que pousara na grande árvore nos fundos da casa, nem sabiam se era mesmo um pássaro. Felizmente os Twaine chegaram antes de acontecer qualquer acidente.
Eles tiveram uma discussão feia e Jenny chegou a apontar a arma para a mãe, claro que não queria ameaçá-la, foi um gesto natural, como se apontasse um dedo. A mãe de Jenny não compreendeu isso, ela lhe tomou a arma e aquele pareceu o fim da amizade entre mãe e filha. Minutos depois daquela briga, a mãe de Jenny cometeu suicídio. Colocou a arma dentro da boca e puxou o gatilho.
A filha naturalmente se culpou, graças a seu comportamento deplorável, sua mãe estava morta, só havia uma coisa justa a fazer em tal situação... Jenny precisava se matar também.
Foi justamente no dia em que Jenny pôs a arma na boca e decidiu puxar o gatilho que ela descobriu o verdadeiro valor da amizade. Seus amigos foram até ela e lhe explicaram tudo...
A mãe de Jenny não havia cometido suicídio, havia sido um acidente.
Afinal, como poderia a mãe de Jenny querer morrer? Ela amava Jenny e ainda não havia visto tudo... Ela nunca havia visto sua querida Jennifer vestida para o baile de formatura, nunca tinha tomado sorvete de goiabada com queijo com ela, nunca tinha levado ela a Disneyland, nunca lhe comprara um carro, nunca fumara um baseado com ela, nunca se despedira dela...
E francamente... Como uma mãe poderia desejar a morte quando tem uma filha que morreria pela tristeza de perdê-la?
Por mais que toda e qualquer evidência dissesse o contrário, Jenny ficou convencida... Sua mãe não cometera suicídio, fora um acidente...
Jenny decidiu continuar vivendo. Eternamente grata aos seus amigos... Seus irmãos...
O xerife Counter matou as pessoas a quem ela mais amava, quem mais lhe compreendia, mas ela escapou. Isso é que importava.
Não.
Jenny fez o carro derrapar e rodopiar enquanto dava meia volta. O carro voltou ainda mais rápido do que partira. Logo ela avistou a delegacia de novo, logo ela viu o xerife. Ele estava entrando na delegacia, mas percebeu sua viatura de luzes vermelhas rotatórias se aproximando de volta. O xerife voltou para o meio da rua com largas passadas e retirou suas armas de fogo dos coldres na cintura. Ele atirou várias vezes, mas apenas os vidros eram estilhaçados, quando um pneu furou e o capô foi esburacado, causando graves danos ao motor... Já era tarde demais.
O carro atingiu o xerife Counter em cheio. O atropelamento cruel lançou o velho cadáver de distintivo por cima da viatura violentamente. Em seguida o carro derrapou violentamente, até que acabou capotando, Jenny achou que era o fim, o carro virando como um brinquedo, rolando e quicando independente de seu peso, sacudindo o corpo da menina para os lados com força terrível. Devia ter colocado o cinto.
O xerife ergueu a cabeça como se nada tivesse acontecido. Jenny se arrastou para fora do carro e viu a espingarda de um cano mais curto que o outro, a arma estava jogada bem diante de si. Ainda estava encharcada com o sangue e as fezes de Patsy. Ela segurou a arma com sua mão fraca, sorrindo. O xerife agarrou a mão da garota. Havia se arrastado até ela rapidamente, como um lagarto. Jenny firmou a mão, não soltaria a arma antes de morrer, ela rolou pelo chão com o xerife como se os dois fossem tomados por poderosos extintos de sobrevivência, ensandecidos, lutando por suas vidas. Seria isso? Counter estava rosnando e guinchando como um animal e se debatendo como uma criança porque sentiu sua existência ameaçada? Então a arma era de fato a resposta. A espingarda que o matou uma vez, o mataria de novo.
Jenny estava perdendo, o monstro estava em cima dela e rosnava bem em sua face, vermes brancos e gordos começaram a chover da boca morta e cair sobre o rosto da menina. Ela gritou de nojo em profunda aversão, mas não soltou a arma, pelo contrário, ela encontrou o gatilho.
Um disparo alto e estrondoso lançou o xerife ao ar e em seguida, este caiu ao chão, inerte.
Jenny olhou para o xerife morto. Seu corpo imóvel agora tinha um grande buraco que passava do peito às costas, deste buraco saía uma fumaça clara e fedida. Do cano da arma, saía a mesma fumaça. Do rosto de Jenny, um sorriso cansado.
O xerife se levantou lentamente. Jenny não podia acreditar. Talvez não tivesse acertado o lugar certo. O monstro ficou de pé e começou a caminhar na direção dela. A guerreira valente voltou a atirar, o disparo atingiu o exato meio do peito da besta. O buraco ficou ainda maior, mas o xerife não se deteve, ele continuou avançando na direção da garota. Ela puxou o gatilho novamente, mas desta vez não houve disparo, apenas um “clic” que indicava que a munição acabou.
A menina começou a chorar. O xerife finalmente ficou próximo o bastante para torcer o pescoço da garota, mas não o fez. Ajoelhada, ela olha para ele de baixo. Há um sorriso maquiavélico estampado na carne putrefata de sua face aterrorizante. Ele retira algo do bolso, deixa cair no chão e Jenny ouvi um som metálico. Uma bala, uma bala de espingarda. Ele lhe deu munição para a espingarda.
Jenny segurou a bala pesada por um curto período de tempo. Ela evitou a visão nefasta do Xerife Counter. Aprendeu como abrir a arma e colocou a bala lá dentro. Engatilhou e olhou para o monstro, ele fez que sim com a cabeça, movendo maquiavelicamente para cima e para baixo. Continuou sorrindo como o próprio satanás, se deliciando com o momento.
Ela baixou o rosto e colocou o cano da arma na boca, o cano da espingarda ainda estava encharcado com o sangue e as fezes de Patsy, mas Jenny colocou na boca, assim mesmo. Ela pôde ouvir o som do próprio batimento cardíaco pelos últimos segundos de vida que lhe restavam.
Por um momento, ela pensou porque não havia feito aquilo à seis anos.
Jenny puxou o gatilho.
...
O xerife Counter passeou pelo solo árido e poeirento do texas. Ele caminhou até a entrada da cidade e parou a beira da estrada. O sol havia acabado de nascer, mas já estava quente e escaldante e por isso os vermes de seu corpo se escondiam em suas entranhas. Ele cuspiu uma substância pegajosa e escura no chão e olhou para os dois lados da estrada. Parecia analisar, como se estivesse pensando se seria uma boa idéia partir, encontrar nossos lugares para... Viver... E matar...
Ele se virou e caminhou lentamente até o letreiro da entrada da cidade.
Depois das várias correções, incluindo a que os jovens visitantes haviam feito, o letreiro dizia: “Deep Hollow, população: 5”.
O xerife Harold Counter arranhou a inscrição com as próprias unhas e riscou bem abaixo, escreveu em arranhões fortes que esfolavam seus dedos.
“Deep Hollow, população: 120 habitantes
Deep Hollow, população: 119 habitantes
Deep Hollow, população: 120 habitantes
Deep Hollow, população: 1 habitante
Deep Hollow, população: 5 habitantes
Deep Hollow, população: 1 habitante”
O xerife voltou a olhar para a estrada, a estrela dourada de ponta cabeça brilhou, refletindo a luz do sol, ele pareceu novamente pesar suas opções... E para nossa sorte, decidiu voltar para sua Deep Hollow. Deixando apenas o aviso no letreiro, para quem soubesse o que quer dizer.
Um habitante. Esta era a população de Deep Hollow. E mesmo que novos viajantes chegassem, este número iria prevalecer. Um habitante. Apenas o xerife Harold Counter.
O abutre pousou sobre o letreiro de madeira e recolheu suas asas negras e medonhas. Ele ergueu a cabeça ameaçadoramente e observou o horizonte, com seu olfato próprio para rastrear carne morta, mas eficaz em outros odores, ele sentiu a aproximação de comida. Um carro vinha tranqüilo pela estrada. Seria outra noite farta.
FIM.
“Ninguém tem maior amor do que este: De dar alguém a sua vida pelos seus amigos.” _Jesus Cristo. Bíblia sagrada, João 15:13
terça-feira, 28 de julho de 2009
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